O que eu tenho a ver com a corrupção?

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Um dos grandes desafios das democracias diz respeito ao enfrentamento, combate e redução da corrupção no setor público. Da maneira como a conhecemos nos nossos dias, a corrupção é um fenômeno da República moderna e o regime democrático, inevitavelmente, conviverá com algum grau de corrupção por duas razões: pelo fato de a democracia pautar-se pelo sentimento de tolerância à diversidade e pelo fato de a corrupção decorrer da supremacia dos interesses individuais em relação aos interesses coletivos. A compreensão do fenômeno da corrupção e suas consequências para a estabilidade democrática é um tema de relevância social e política. Em que pese ser o tema extremamente complexo, já que a prática da corrupção pode ser estudada em diversos seguimentos públicos e privados, não se pode desconsiderar, especialmente, as consequências danosas da corrupção nas democracias contemporâneas pelo fato de a corrupção atingir o princípio da igualdade e da justiça, destruir a confiança dos cidadãos e deslegitimar as instituições. Ademais, fragiliza diretamente o ideal da transparência e da accountability, princípios fundantes da democracia. E ainda, dificulta o controle dos cidadãos sobre a atividade pública que pressupõe a visibilidade, o conhecimento, acessibilidade e mecanismos de controle que são obstruídos no processo de corrupção. Uma pesquisa realizada pelo Centro de Referência do Interesse Público da UFMG, o CRIP, em 2008, demonstrou que em todas as regiões do Brasil mais de 70% dos brasileiros considera a corrupção um problema muito grave. Esse indicador contradiz o senso comum segundo o qual os cidadãos não estão preocupados com a corrupção. Para alguns analistas, a pesquisa revela que a população tem consciência da gravidade do problema representado pela corrupção, mas reconhece também que ações do governo têm levado a avanços no combate a essa prática. Porém, outra análise do Ibope, em 2006, intitulada “Corrupção na Política: Eleitor Vítima ou Cúmplice”, mostrou que dois terços dos entrevistados já cometeram ou cometeriam atos ilícitos, como comprar produtos piratas ou subornar um guarda para livrar-se de uma multa. E que a maioria das pessoas disse aceitar que seus representantes cometam algum tipo de irregularidade, como contratar familiares e transformar viagens de negócio em lazer. Por isso, uma pergunta torna-se crucial: o que cada um de nós tem a ver com a corrupção?

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