Mortes no trânsito: um absurdo

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O trânsito brasileiro, em breve, se tornará o campeão no número de mortes, superando os homicídios. Infelizmente, o carro transformou-se numa arma altamente letal. São 40 mil óbitos anuais, em sua maioria provocada pela imprudência e pela associação fatal entre bebida, drogas e volante. Ademais motoristas no trânsito com seus carros, caminhões e motos representam bem uma espécie de ethos do brasileiro: desprezo pelo espaço público; pelo respeito às leis; pela convivência cidadã, etc… Os veículos se transformam em instrumento de poder: para muitos homens arma e ostentação; para muitas mulheres, uma espécie de falo oculto, um “instrumento” de disputas de todos os tipos. Historicamente, não se pune os motoristas que provocam mortes no trânsito. Afinal, até bem pouco tempo carro era artigo de luxo; coisa de rico, e no Brasil a Justiça – pouco eficiente – só funciona para punir, via de regra, os pobres. Porém, com o crescimento econômico e as melhorias salariais nos últimos tempos, os pobres começaram a possuir carros. E agora (bingo!), começa-se a discutir, mais seriamente, punições mais rigorosas para os motoristas assassinos. Esta semana, o Ministério Público do Rio de Janeiro ofereceu denúncia por homicídio doloso (em que há intenção de matar) contra o estudante Rafael Bussamra, que matou o filho da atriz Cissa Guimarães em um túnel da capital fluminense, no dia 20 de julho. Se for condenado, Bussamra, que dirigia em alta velocidade e participava de um “pega” com um amigo, poderá ser condenado a 47 anos de prisão. Em Mogi Mirim, no interior de São Paulo, uma mulher foi condenada a sete anos de prisão. Em 2005, ela matou, na contramão, uma motociclista. A condenada dirigia embriagada. Curiosamente, no mesmo dia dessa condenação, a Justiça de Minas decidiu que Gustavo Bittencourt, o motorista que matou o empresário Fernando Paganelli, ao dirigir embriagado, em alta velocidade e pela contramão, em 2008, será julgado por crime culposo (sem intenção de matar). Essa tem sido a prática recorrente da Justiça brasileira; ou seja, a plena impunidade aos motoristas assassinos. Reproduzo, abaixo, o trecho de uma entrevista dada pelo renomado antropólogo Roberto DaMatta (que está lançado o livro “Fé em Deus e Pé na Tábua – Como e Por que Você Enlouquece Dirigindo no Brasil”) ao  jornalista Ricardo Calil, publicada recentemente na Revista IstoÉ. Perguntado sobre o que descobriu acerca do comportamento dos brasileiros estudando nossos motoristas, DaMatta respondeu: “Que nosso comportamento terrível no trânsito é resultado da nossa incapacidade de sermos uma sociedade igualitária; de instituirmos a igualdade como um guia para a nossa conduta. Nosso trânsito reproduz valores de uma sociedade que se quer republicana e moderna, mas ainda está atrelada a um passado aristocrático, no qual alguns podiam mais do que muitos, como ocorre até hoje. Em casa, nós somos ensinados que somos únicos, especiais. Aprendemos que nossas vontades sempre podem ser atendidas. É o espaço do acolhimento, do tudo é possível por meio da mamãe. Daí a pessoa chega na rua e não consegue entender aquele espaço onde todos são juridicamente iguais. Ir para a rua, no Brasil, ainda é um ato dramático, porque significa abandonar a teia de laços sociais onde todos se conhecem e ir para um espaço onde ninguém é de ninguém. E o trânsito é o lado mais negativo desse mundo da rua. É doentio, desumano e vergonhoso notar que 40 mil pessoas morrem por ano no trânsito de um país que se acredita cordial, hospitaleiro e carnavalesco. No Brasil, você se sente superior ao pedestre porque tem um carro. Ou superior a outro motorista porque tem um carro mais moderno ou mais caro. O motorista não consegue entender que ele não é diferente de outro motorista, do pedestre, do motorista de ônibus. Que ele não tem um salvo-conduto para transgredir as leis. No Brasil, obedecer à lei é uma babaquice, um sintoma de inferioridade. Quem obedece é subordinado porque a hierarquia que permeia nossas relações sociais jamais foi politizada. Isso é herança de uma sociedade aristocrática e patrimonialista, em que não houve investimento sério no transporte coletivo e onde ainda impera o “Você sabe com quem está falando?”.  

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