Em entrevista, Papa Francisco critica retórica do confronto usada pela Igreja

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O PAPA FRANCISCO deixou claro, na sua entrevista à revista italiana Civiltà Cattolica: o centro da vida da Igreja (Católica) deve ser o amor e a misericórdia  e não a retórica de confronto ou de isolamento adotada por boa parte da hierarquia nas últimas décadas. 
A Igreja deve ser “um lar para todos, não uma pequena capela capaz de abrigar apenas um grupo seleto de pessoas”, como ele declarou.
Veja, abaixo, alguns destaques da entrevista concedida no dia 19 de agosto ao padre  Antonio Spadaro, jesuíta,  diretor da revista Civiltà Cattolica, e publicada simultaneamente em 26 revistas sob a responsabilidade de jesuítas neste dia 19 de setembro de 2013. 
A tradução é de André Langer e do Cepat.
“A Igreja por vezes encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. E os ministros da Igreja devem ser, acima de tudo, ministros de misericórdia”.
“Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuremos ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente. Quem a abandonou fê-lo, por vezes, por razões que, se forem bem compreendidas e avaliadas, podem levar a um regresso. Mas é necessário audácia, coragem.”
“Um cristão restauracionista, legalista, que deseja tudo claro e seguro, não irá encontrar nada. A tradição e a memória do passado têm que nos ajudar a reunir o valor necessário para abrir novos espaços para Deus. Aquele que hoje sempre busca soluções disciplinares, aquele que tende à ‘segurança’ doutrinal de modo exagerado, o que busca obstinadamente recuperar o passado perdido, possui uma visão estática e involutiva. E assim a fé se torna uma ideologia entre tantas outras”.
“Uma imagem de Igreja que me compraz é aquela do povo santo, fiel a Deus. É a definição que uso com frequência e, por outro lado, é da Lumen Gentium em seu número 12. A pertença a um povo tem um forte valor teológico: Deus, na história da salvação, salvou um povo. Não existe identidade plena sem pertença a um povo. Ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas que Deus nos atrai tomando em conta a complexa trama de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana. Deus entra nesta dinâmica popular. O povo é sujeito. E a Igreja é o povo de Deus a caminho através da história, com alegrias e dores. Sentir com a Igreja, portanto, para mim, quer dizer estar neste povo. E o conjunto de fiéis é infalível quando acredita, e manifesta esta sua infalibilidade ao crer, mediante o sentido sobrenatural da fé de todo o povo que caminha. Esta é a minha maneira de entender o sentir com a Igreja de que fala Santo Inácio. Quando o diálogo entre as pessoas e os bispos e o Papa segue esta linha e é leal, está assistido pelo Espírito Santo. Não se trata, portanto, de um sentir referido aos teólogos”.
“As Igrejas jovens conseguem uma síntese de fé, cultura e vida em progresso diferente da que conseguem as Igrejas mais antigas. Para mim, a relação entre as Igrejas de tradição mais antiga e as mais recentes se parece com a relação que existe entre jovens e anciãos em uma sociedade: constroem o futuro, uns com sua força e os outros com sua sabedoria. O risco está sempre presente, é óbvio; as Igrejas mais jovens correm o perigo de se sentirem auto-suficientes, e as mais antigas de quererem impor aos jovens seus modelos culturais. Mas o futuro se constrói unidos”.
“Aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Curar as feridas, curar as feridas… E é necessário começar de baixo. A Igreja por vezes encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. O mais importante, no entanto, é o primeiro anúncio: ‘Jesus Cristo te salvou’. E os ministros da Igreja devem ser, acima de tudo, ministros de misericórdia. O confessor, por exemplo, corre sempre o risco de ser ou demasiado rigorista ou demasiado laxista. Nenhum dos dois é misericordioso, porque nenhum dos dois toma verdadeiramente a seu cargo a pessoa. O rigorista lava as mãos porque remete-o para o mandamento. O laxista lava as mãos dizendo simplesmente ‘isto não é pecado’ ou coisas semelhantes. As pessoas têm de ser acompanhadas, as feridas têm de ser curadas.”
 “O povo de Deus necessita de pastores e não funcionários ‘clérigos de gabinete”“A religião tem o direito de expressar suas próprias opiniões a serviço das pessoas, mas Deus na criação nos fez livres: não é possível uma ingerência espiritual na vida pessoal””Fui repreendido por isso (por não falar sobre aborto e contracepção). Mas, quando falamos sobre essas questões, temos que fazê-lo em um contexto. O ensinamento da igreja quanto a isso é claro, e eu sou um filho da igreja, mas não é necessário falar sobre esses assuntos o tempo inteiro”.- “Uma vez uma pessoa, para me provocar, me perguntou se eu aprovava a homossexualidade. Eu então lhe respondi com outra pergunta: “Diga-me, Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou a rechaça e a condena?” Sempre é preciso ter em conta a pessoa. E aqui entramos no mistério do ser humano. Nesta vida, Deus acompanha as pessoas e é nosso dever acompanhá-las a partir de sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Quando isto acontece, o Espírito Santo inspira ao sacerdote a palavra oportuna”.“Não podemos seguir insistindo somente em questões referentes ao aborto, ao casamento homossexual ou uso de anticoncepcionais. É impossível.”“Se alguém tem respostas para todas as perguntas, estamos ante uma prova de que Deus não está com ele. Trata-se de um falso profeta que usa a religião para o seu próprio bem. Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre deram espaço para a dúvida.”(Fonte: edição de partes da entrevista publicada no IHU – on line)

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