(Des)integração policial

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O novo secretário de Estado de Defesa Social anunciou, em sua posse, que uma das suas prioridades na gestão da pasta será a integração policial. Integrar as polícias é, talvez, o principal desafio para a concretização de uma efetiva governança pública na área da segurança em nosso Estado. Até o presente momento, o governo conseguiu uma integração espacial das polícias, com a criação das Áreas Integradas de Segurança Pública (Aisps), mas não consegue avançar, por uma série de óbices, para a integração processual (com a unificação e o compartilhamento dos bancos de dados criminais, por exemplo) e, o mais importante e difícil, com a integração cultural – ou seja, as duas polícias atuando cooperativa e articuladamente, partilhando mesma estrutura e orientação organizacional, cujas definições e diretrizes políticas partem da secretaria, gestora da política estadual de segurança. 

Um exemplo simples de como ainda temos duas polícias desintegradas cultural e organizacionalmente: para lavrar uma simples ocorrência, fruto de um acidente veicular, gastei três horas e passei por três distintas unidades policiais, na semana passada. Ao ligar para o 190, fui informado de que poderia me dirigir a qualquer unidade policial para a confecção do Registro de Evento de Defesa Social, o Reds, que substitui o antigo Boletim de Ocorrência (BO). A desinformação começou aí. Quando cheguei a uma área integrada, inaugurada há menos de dois anos e tida como modelo, o policial militar informou-me de que não poderia redigir o documento, pois o cabo do computador rompera, há dois dias, e os policiais estavam sem acesso à internet. Questionado sobre a demora na manutenção, o policial respondeu-me que até mesmo as lâmpadas queimadas há dias não haviam sido substituídas e, sem constrangimentos, encaminhou-me a uma delegacia policial. Ao chegar lá, fui informado, com pouca cortesia, de que essa ocorrência policial não era coisa para a PC, “era problema da PM” e que, portanto, procurasse um batalhão ou posto da PM. Novamente questionado se o Reds não deveria ser preenchido por qualquer policial, porque unifica os registros, a resposta foi que “isso é só teoria; na prática, é diferente”. Finalmente, cheguei a um posto da PM e, apesar de bem-atendido, fui informado de que, se desejasse uma cópia do Reds, deveria voltar a uma delegacia, pois essa parte “cabe à PC, e não a PM”. E, de novo, voltei à delegacia para imprimir o documento, dado que a impressão pela internet “só funciona em 5% dos casos ou menos”, segundo o policial que me atendeu.
Seria preciso dizer algo mais para confirmar a desintegração policial, expressa, inclusive, na rivalidade das duas instituições através das considerações de seus membros ao serem por mim interpelados mais de uma vez? Se, nas pequenas ocorrências, as duas polícias não se entendem e o cidadão enfrenta uma via-crúcis, imaginemos nas ações mais complexas de combate e prevenção ao crime, que demandam ações de planejamento e execução coordenadas…
(Fonte: publicado no Jornal O Tempo, 29/03/2012, página 19)

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