CINEGRAFISTA MORTO NO RIO: De quem é a culpa?

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É lamentável a morte do cinegrafista Gelson Domingos, da TV Brasil e da Rede Bandeirantes de Televisão, baleado na manhã deste domingo (6/11) durante uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) contra o tráfico de drogas na favela de Antares, em Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro.Quero, neste breve artigo, propor uma reflexão: durante os últimos 10 anos, coordenei a assessoria de comunicação de um centro de estudos sobre criminalidade e segurança pública em Minas Gerais. Neste período, atendi centenas de demandas de profissionais da imprensa que, sempre afoitos, precisavam de depoimentos, dados e informações quentes sobre os últimos acontecimentos violentos nas cidades (ora para produzirem uma nova matéria demandada por editores, ora para “ilustrarem” o sempre “mais recente” episódio de violência coberto pelo veículo). Algumas vezes atendi a produtores no final de semana suplicando dados, depoimentos ou informações para “fecharem” o mais rápido possível uma nova reportagem.A sanha por notícia quente, pelo furo, pela audiência a qualquer custo, demandava dos profissionais das várias mídias, principalmente das emissoras de TV (muitos dos quais, meus diletos amigos), matérias sensacionalistas, com análises superficiais e de conteúdo duvidoso. A briga pela audiência foi tomando contornos dantescos à medida que vários canais começaram a explorar o tema da insegurança urbana tendo como fulcro, por um lado, as pesquisas de opinião que apontam a crescente preocupação do brasileiro em relação à violência e, por outro, certa presunção da mídia em se colocar como porta-voz redentora da sociedade. Parte significativa da produção sobre violência urbana aponta os bandidos perigosos e, à revelia da lei, os julga e os condena. A mesma mídia que defende ardorosamente a liberdade de imprensa e expressão, muitas das vezes afronta o Estado Democrático de Direito na cobertura policialesca do cotidiano.Vale a pena tamanha exposição?Aliás, com o termo “bandido” a mídia brasileira criou uma nova categoria sociológica: uma pessoa sem qualquer direito; um ser não humano que merece somente a condenação e, por vezes, a morte. Acontece que nos últimos tempos, infelizmente, a espetacularização da violência – principalmente pelas emissoras de televisão – começou a tomar contornos perigosos. Na guerra insana por audiência, as TVs deixaram de lado a informação jornalística e começaram a entrar no perigoso jogo da cobertura belicosa da guerra do tráfico in loco, expondo seus profissionais ao risco das operações bélicas que se sucedem cotidianamente nas periferias das grandes cidades.Repórteres e cinegrafistas passaram a compor o cenário e atuarem como personagens das sangrentas disputas e, é óbvio, em flagrante desvantagem: não têm o treinamento, o preparo e o equipamento necessários para atuarem no front dos conflitos e não conhecem as armadilhas perigosíssimas das áreas onde se travam as sangrentas batalhas. Qualquer um de nós sabia que lamentável desfecho aconteceria mais cedo ou mais tarde. No cenário dessa guerra urbana, os profissionais da imprensa – e os civis que habitam os locais das disputas do tráfico – são os mais vulneráveis.A pergunta é a seguinte: vale a pena tamanha exposição se o enredo das batalhas entre policiais e traficantes é amplamente conhecido? Esse tipo de incursão da imprensa traz alguma novidade? É informação jornalística, indispensável à sociedade? O que move as emissoras de televisão nesse tipo de empreitada?Será que a mídia aprenderá?Recordo que a pergunta mais frequente que os repórteres sempre me fizeram sobre os episódios da violência urbana tinha como objetivo encontrar culpados para o fenômeno em análise. Algo bastante característico da nossa cultura judaico-cristã. A questão é que não adianta, depois do “leite derramado”, procurar bodes expiatórios. Cada episódio de violência, em quaisquer circunstâncias, deve servir de aprendizado das práticas do seu enfrentamento (no caso, nas práticas de cobertura), com o objetivo de poupar vidas.Será que a mídia aprenderá com o ocorrido? Ou será que teremos a velha resposta: a nomeação de algum culpado e a continuidade da insana batalha pela audiência, a qualquer custo?

Texto publicado no Observatório da Imprensa (edição de 08.11.11).

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