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Rosa Maria Miguel Fontes Jornalista e escritora. Contato rosamaria.fontes@hotmail.com

Outra polêmica com livro infantil

A página “Mãe que lê”, do Facebook, na quinta-feira dessa semana, publicou um post que trouxe para o debate social o livro “O menino que espiava pra dentro”, de Ana Maria Machado. A publicação foi motivada pela mensagem de uma mãe, do Recife, que viralizou no WhatsApp, com a alegação de que a história fez o seu filho pensar em suicídio. A criança perguntou para essa mãe “se era verdade que se ele engasgasse com uma maçã e ficasse sem respirar, ele conseguiria ir até o encontro do seu mundo da imaginação”… A mensagem assustou dezenas de outras mães e, por isso, foi analisada por “Mãe que lê”.

Ao mesmo tempo o fato deixou perplexos os que militam na literatura infantil e, por isso, conhecem e reconhecem a obra impecável da autora, que entre tantos outros méritos foi presidente da Academia Brasileira de Letras. Através das redes sociais, também se manifestaram a Global Editora, responsável pela obra e a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) _ ambas através do Facebook _ assim como a especialista mineira em literatura infantil e narradora de histórias, Sandra Franco Bittencourt, via Instagram. Ontem, o jornal O Globo noticiou sobre a polêmica e também ouviu a escritora Ana Maria Machado.

O blog publica os pontos de vista de cada um dos acima citados e, desta forma, acredita que esclarece pais e educadores sobre a qualidade da obra.

Mãe que lê

“Precisamos falar de maçãs. Se você é mãe provavelmente recebeu uma mensagem ontem ou hoje sobre o livro “O menino que espiava pra dentro” da escritora Ana Maria Machado. Eu recebi e fiquei triste ao ver a facilidade como algo pode ser tirado de contexto, distorcido e, mesmo sendo tão absurdo, gerar uma comoção tão grande. Eu consigo me solidarizar com a mãe, pelo susto que tomou com a pergunta do pequeno, pelo medo de que ele se engasgasse de verdade com uma maçã. Mas não posso concordar com a mensagem que ela passou e com os ataques que a literatura infantil tem recebido atualmente com a constante pressão para que os livros para crianças sejam o mais literais possíveis, como se isso garantisse ‘segurança’.

Ana Maria Machado é uma grande autora e nunca ‘nas entrelinhas ensinaria o suicídio às crianças’, como acusa a mãe da mensagem de WhatsApp. Afirmo isso com certeza por conhecer a sua belíssima obra e sua trajetória. Ela não merece esse ataque. Gostaria de refletir sobre alguns pontos:

– É importante ler antes.

– É importante ler junto.

– É importante ampliar o repertório.

– É importante saber ler entrelinhas, relacionar histórias, compreender sentidos.

– É importante ouvir o que os filhos entenderam das histórias.

– É importante conversar sobre o que lemos e sobre a vida.

– É importante pensar antes de compartilhar.

– É importante conhecer antes de julgar.

– É importante respeitar o outro e não acusar de algo tão grave.

Ana Maria Machado publicou esse livro em 1983 e até onde eu pesquisei não há registros de engasgos de maçãs ou suicídios relacionados a ele. Me desculpem, mas eu não podia ficar com isso engasgado. De todo modo, lembrem de ensinar aos filhos o que fazer caso se engasguem com maçãs, pipoca e injustiças.

PS- Esse não é meu livro favorito da Ana Maria Machado, devo ser sincera. Eu não tenho em casa, li certa feita na livraria e escolhi levar outros. Mas fiz questão de reler antes de escrever aqui e, de verdade, não o considero perigoso. Se uma criança consegue ler essa obra sozinha, confio que já tenha repertório suficiente para compreender a relação com a Branca de Neve. Se não, é uma excelente oportunidade para conversar”.

Global Editora

“A Global Editora tem recebido algumas manifestações sobre a obra “O menino que espiava pra dentro”, de Ana Maria Machado. As mensagens acusam o livro de incitar o suicídio entre as crianças. Precisamente, trata-se do texto da página 23, em que o menino come uma maçã para ingressar no mundo dos sonhos – um processo poético para a criança entrar no mundo da imaginação.

Esclarecemos que as referências à maçã e ao fuso são alusões às histórias da Branca de Neve ou da Bela Adormecida e constituem parte integrante do universo da história, sustentando o argumento de que imaginar pode ser muito bom, mas a realidade externa se impõe. Conversar com os outros (como a mãe) é fundamental, e a afetividade que nos faz felizes está ligada a seres vivos e reais.

O livro foi publicado em 1983 e até o momento não havia despertado nada de negativo nessa área. Inclusive, trata-se de uma obra adotada em diversas escolas brasileiras.

Ana Maria Machado é considerada pela crítica como uma das mais versáteis e completas escritoras brasileiras contemporâneas, com mais de 100 livros publicados no Brasil e em mais de 17 países, somando mais de 20 milhões de exemplares vendidos. O seu carinho e cuidado com a educação de nossas crianças e a formação de leitores sempre foi sua prioridade. Portanto, em momento algum, escreveria algo que pudesse prejudicá-las. Todo o nosso apoio e carinho à Ana Maria Machado!”

A Fundação

Ana Maria Machado na foto de Bruno Veiga/Divulgação publicada junto com a matéria de O Globo

“A FNLIJ ou Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil endossa, com ênfase, a declaração da Global Editora sobre o livro “O menino que espiava pra dentro”, de Ana Maria Machado. Ana Maria é uma de nossas maiores autoras, vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen do IBBY e do Prêmio Ibero-Americano de Literatura Infantil e Juvenil da Fundação SM e referência na literatura para crianças e jovens no Brasil e no mundo”.

Fala de uma especialista

A gerente da Trupe Maria Farinha e especialista em literatura infantil, Sandra Franco Bittencourt, afirmou que:

“O livro, já com 35 anos, não incita a nada. Só o tratamento que estão lhe dando hoje é que incita a muitas ações: a de repensarmos a que estamos dando ouvidos e corda, a tomar cuidado com esses pequenos comentários. Olhares e leitura que tomam corpo e se tornam na cova para enterrar mais um livro de qualidade, enquanto muita porcaria higienizada e politicamente correta alcança nossos filhos/alunos e a eles é oferecida e consumida sem frutos, sem graça, sem glória, sem entrega, sem movimento.

35 anos de vida… Quantas crianças pensaram em prender a respiração, parar de respirar, como quem engasga com maçã, para ir pro mundo da imaginação?”

O Globo

O caderno de Cultura do jornal O Globo, do dia 6 de setembro, trouxe matéria de Paula Autran sobre a polêmica, onde a autora Ana Maria Machado se manifestou:

“Estou chocada! Foi como se uma bigorna caísse na minha cabeça — disse a autora, ao tomar conhecimento da polêmica. — Até peguei o livro para reler, pensando que pudesse ter alguma frase infeliz. Mas que nada. É apenas a história de um menino cheio de imaginação que precisava de um amigo, e acaba ganhando um cachorro”. Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/foi-como-uma-bigorna-na-cabeca-diz-ana-maria-machado-23047123#ixzz5QRzxbd00

9 comentários em “Outra polêmica com livro infantil

  1. Eu me solidarizo com a Ana Maria Machado e me preocupo com três coisas que essa polêmica demonstra : somos mesmo um povo que não sabe ler e interpretar textos simples; o que nos leva a seguir como uma manada confusa; que parece voltar aos tempos da Santa Inquisição! Tempos obscuros e perigosos! Que a certeza de uma vida dedicada à boa literatura traga paz ao coração da autora!

    1. Você provavelmente não tem filho. Uma coisa é um adulto saber ler, interpretar e ter discernimento do que é bom ou ruim. Outra coisa é uma criança ler, achar curioso e tentar fazer.

  2. Não se trata aqui de condenar autor e obra, mas de valorizar o tema que o livro suscita. Por isso, participar dessa discussão é tão importante para pais, professores e escritores. Estamos em pleno Setembro Amarelo, uma campanha de prevenção do suicídio, criada em razão dos alarmante número de pessoas que tiraram a própria vida ou tentaram. Certamente, não foi intenção da escritora estimular a prática do suicídio infantil, contudo, em se tratando de crianças, todo cuidado é pouco. Sabemos que o processo metafórico não é algo tão simples assim e os limites da interpretação, quem poderá controlá-los? Embora Umberto Eco e outros estudiosos do texto muito tenham investigados sobre a relação texto-leitor, essa continua sendo uma experiência única e pessoal. Eu me lembro de ter lido um livro maravilhoso na infância, O Palácio Japonês, de José Mauro de Vasconcelos. O tema da morte é tratado de forma tão cálida e envolvente, que por alguns instantes tive vontade de experimentar a sensação que o personagem viveu. Ninguém percebeu. Sabendo que as tentativas de suicídio entre crianças e adolescentes dobraram nas últimas décadas, é perfeitamente compreensível o medo dos pais. E mais que o medo, muita leitura compartilhada, atenção, carinho e presença redobrados!

  3. O problema não é ” apenas a história de um menino cheio de imaginação que precisava de um amigo, e acaba ganhando um cachorro”.
    O problema está sendo que a HISTÓRIA induz a criança a se engasgar com um pedaço de maçã enquanto estivisse sozinhooooooo..que seria melhor q os pais não vissem para q o plano não fosse descoberto.
    Muito claro essa loucura toda. Infeliz nas palavras… fiquei chocada.

    1. Existe uma grande diferença entre comer uma maçã e “se engasgar escondido para que ninguém com um tapa nas costas não estragasse o plano de conhecer o outro mundo”. Até achei que não estava escrito isso, mas está…Um questionamento, qual a necessidade de pedir para se engasgar com uma maçã? Se apenas adormecer mordendo uma maçã seria suficiente.

  4. O suicídio de fato tem aumentado, mas não seria justamente porque as crianças não leem? Já não nos basta os governantes quererem alienar a população e agora vem essa “declaração de guerra” contra a literatura? Querem que as crianças não tenham imaginação e se comportem como adultos?

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