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Rosa Maria Miguel Fontes Jornalista e escritora. Contato rosamaria.fontes@hotmail.com

“Ototo”

Fonte: www.contaumahistoria.com.br

Essa é uma palavra japonesa, que significa “irmão mais novo”. É o título do livro de contos de autoria de Henrique Komatsu, finalista do Prêmio Jabuti de 2020, e uma leitura interessante para todos a começar pelos leitores juvenis.

Capa do livro com hiraganas da palavra japonesa “Ototo”. Traduzindo para o português: irmão mais novo

 

Jovens gostam de desafios e nosso autor, Henrique Komatsu, não é diferente. Já li outros livros dele e, assim, venho acompanhando sua trajetória e evolução literária. “Ototo” tem o selo da Editora Confraria do Vento e a leitura de seus 12 contos foi surpreendente pela abordagem madura e realista do jovem escritor, pelo texto impecável e por oferecer um contato íntimo com a cultura japonesa que eu admiro muito.

Íntimo, por que Komatsu insere termos, situações e personagens pela porta de dentro dos japoneses, a porta de sua casa, de sua família, de suas memórias. Ele não é “ototo”, como eu imaginei ao iniciar a leitura. Ao contrário, é “choonan”, quer dizer, um filho mais velho culturalmente inserido em outro conto, Jun. Quem dá título ao livro é seu pai. Ele, sim, é o filho mais novo de uma família japonesa. “Deslocá-lo da condição de pai foi um meio que encontrei de repensar minha relação com ele”, explica o autor.

No conto “Whistler, British Columbia”, do qual cito alguns trechos, é onde ele fala mais detalhadamente dessa relação:

“Cresci ao pé de um pai silencioso. A quietude soprava como uma brisa gelada, constante, descendo do alto de sua circunspecção _ tão inóspita, tão eterna quanto o cume de uma montanha.”

“Aquele mudo deslocamento de intenções e sentimentos de meu pai fazia mirrar toda minha curiosidade infantil que, a custo, buscava vencer a escarpa íngreme da rocha paterna”…

… “Seu silêncio era uma companhia constante, confiável, que me proporcionava a experiência de estar só, sem estar verdadeiramente sozinho. Inúmeras vezes, na mesa de casa, enquanto desenhava ou fazia um dever escolar, ou me distraía com algum brinquedo, notava meu pai na ponta do móvel, em silêncio, os lábios levemente apertados, lendo, ou metido em seus pensamentos.”

Em algumas dessas lembranças me escapa se meu pai está ou não na ponta da mesa. Presto atenção no silêncio da memória e tento distinguir se o silêncio que ouço é da companhia paterna ou de meu isolamento”.

“Os silêncios se confundem. O fato é que aprendi a viver minha solidão com meu pai”…

… “Agora, sempre tive a impressão de que meu pai nunca deixou o Japão; suspeito que ele nunca desembarcou em solo brasileiro. Não. Ele trouxe consigo, debaixo de seus pés, o país de origem, com idioma, costumes e um habitante. Onde quer que ele fosse, levava consigo esse pedaço da ilha oriental, essa nação somente por ele habitada.

“Nessa pequena versão do Japão trazida por meu pai, nessa ilha com um único japonês, com uma cultura própria, com um idioma, eu nasci”.

Imigração japonesa

O autor do livro, Henrique Komatsu, é filho de um pai japonês e uma mãe que, embora nascida no Brasil, é filha de dois imigrantes japoneses – foto: Divulgação

 

Henrique Komatsu explica que “Ototo” não são contos autobiográficos exatamente, mas textos que partem de experiências pessoais. Acho que dá para dizer que os textos têm algo de memórias. Explica ainda sobre o silêncio citado tão fortemente no conto acima: “Sou filho de um pai japonês e uma mãe que, embora nascida no Brasil, é filha de dois imigrantes japoneses. Meus avós maternos vieram numa das primeiras levas da migração japonesa para o Brasil (em navio). Meu pai veio numa das últimas levas desse movimento migratório (já de avião comercial).

Há muitas histórias familiares não contadas ou contadas apenas parcialmente… narrativas que foram padronizadas ao longo do tempo e sobre as quais não se tem outras perspectivas além daquela canonizada pelos concílios familiares. Não acho que isso seja característico apenas das famílias japonesas.

Mas há um silêncio que é característico da cultura japonesa e que amplifica essas lacunas narrativas. Um silêncio que nós, no Brasil, tendemos a interpretar como vergonha, desconforto, tristeza ou orgulho, desdém, levando a suposições, muitas vezes, equivocadas. Como descendente de uma tradição silenciosa, mas nascido e criado num país em que o silêncio é interpretado de maneira radicalmente diferente, houve uma certa dificuldade em entender minha própria família e meu próprio país.

O livro, em seus doze contos, versa sobre a busca em compreender essa contradição de significações do silêncio que foi trazida por diversas gerações do outro lado do mundo.”

Abordagem contemporânea

“Ototo” nos presenteia com a tradição japonesa ao mesmo tempo que traz uma abordagem atual sobre os novos comportamentos que emergem do isolamento social e as exigências de adaptação para outras maneiras de convivência. No conto “Naufrágios”, Komatsu interpreta assim:

“Vejo nascer na tela do computador um borrão que logo ganha os contornos de um moleque de três anos. Pausadas e gordas notas musicais _ intercalando graves e agudos _ indicam o raiar de uma chamada de vídeo. A luz se ajusta, a imagem devagar se apruma. O menino ganha um rosto e uma voz.

Sorrio ao vê-lo. Sorrio todas as vezes que o vejo despontar no meio desse embaralhamento de pixels.

Eis aí a nova forma de encontro dos novos tempos. Melhor? Pior? É assim que é. Não vemos mais a pessoa esperada chegando, não a vemos de longe desembarcando de um ônibus, de um trem, não nos aperta o peito o seu jeito de andar em nossa direção, tornando estreitos os caminhos do ar até os pulmões, não sentimos o frescor de seu cheiro trazido pelo vento, não. As pessoas nos dias de hoje não chegam, elas surgem.

A chegada era sempre um fascínio, o surgimento é um truque.”

Meu destaque

Embora todos os contos sejam surpreendentes, eu sinto que um deles se destacou muito mais pra mim: “O Urim e o Thummim”. Neste conto, Komatsu volta a falar de Deus (leiam também do autor “A menina que viu Deus”, 2016, Confraria do Vento), aqui, em especial, da forma de comunicação entre Criador e criaturas, na época conhecida biblicamente como Velho Testamento, quando as palavras praticamente ainda não existiam. Ele parte desse momento da existência humana para iniciar, digamos assim, a compreensão ou justificativa para a convivência silenciosa vivida com o próprio pai. Cito alguns trechos:

“Ah, sim… Esse tempo existiu, quando Criador e criatura tinham ainda algum assunto em comum, quando ainda habitavam o mesmo mundo, dividindo suas páginas e suas necessidades, quando ainda precisavam falar entre si, nem que para discordar. Conviviam-se. Esse tempo de conversas existiu… entre o Gênesis e o Deuteronômio”.

Um dos fatos que Komatsu traz à tona para explicar a dificuldade de comunicação entre Deus e os homens é esse:

“Quando Caim matou Abel, por exemplo, no primeiro homicídio da História, o Senhor ficou sem palavras, estarrecido. Ao homem era dado morrer, mas matar?

Para se ter uma ideia do tamanho do impasse que isso gerou, digo-lhes que sequer existia uma palavra para o ato de tirar a vida de outro ser humano, de um irmão então!

Como dar rumo a uma prosa sobre um troço sem nome?”

Já para introduzir os silêncios entre filho e pai, o autor traz as lembranças de um menino nesses trechos.

“Tinha meus cinco ou seis anos de idade. As palavras me faltavam. O mundo era vasto e o vocabulário pequeno. Faltava nome às coisas. Eu ainda não era íntimo de substantivos como ‘silêncio’, ‘quietude’, ‘solidão’… mas já sentia o vazio do mundo. Foi por essa época que comecei a perceber que havia águas profundas, imensidões nas quais eu não poderia cair… esses lugares não tinham nome, ainda não tinham sido batizados, mas demarcavam o mundo inacessível de meu pai, onde eu não saberia nadar, um mundo introspecto, intimidador e que parecia olhar toda a criação de cima para baixo.”

“Nesse terreno desabitado convivíamos, mas não reconhecíamos. Éramos seres distintos como deuses e homens…”

… “A falta de palavras ia compondo, silenciosamente, a minha história, meu Gênesis, meu Êxodo. No tecido do tempo de minha vida eu tecia a quietude invisível”.

Prêmio Jabuti

Esse é a principal láurea literária do Brasil e, por isso, a mais concorrida e respeitada. Tanto que nem é preciso subir ao pódio do primeiro lugar para ganhar reconhecimento. Só o fato de ser indicado ou finalista do Prêmio Jabuti já torna obra e autor consagrados.

No caso de “Ototo”, o livro ficou entre os 10 finalistas da edição do ano passado e Henrique Komatsu fala desse momento especial de sua carreira: “Se você olhar a lista de finalistas do Prêmio Jabuti de 2020, principalmente na categoria de Contos, vai perceber que quase todos são publicações de editoras independentes. O que isso significa? Significa que existem diversos atores culturais independentes (autores, autoras e editoras) que estão sugerindo novas possibilidades do que pode ser a literatura brasileira contemporânea. Significa que esses microbiomas culturais que são as editoras independentes com seus autores estão produzindo uma literatura que tem uma qualidade reconhecida pelo maior prêmio literário do país.”

Ele continua: “Num tempo em que a curadoria do que é literatura tem sido feita por algoritmos de redes sociais, fazer parte desse processo editorial independente representa fazer parte de um esforço de não deixar que a cultura literária e a definição de literatura sejam determinadas por algoritmos. É uma luta que parece perdida… quanto a isso eu não sei dizer se é ou não uma causa perdida, mas certamente não é uma luta solitária. E ao seu lado estão pessoas incrivelmente criativas, que acreditam na cultura, no afeto, nos laços que criamos culturalmente. E só pela companhia, é uma luta válida”, finaliza.

O livro “Ototo” tem 193 páginas, custa R$ 53,00 e pode ser adquirido diretamente com a editora Confraria do Vento pelo email comercial@confrariadovento.com ou pelo site (http://www.confrariadovento.com/editora/catalogo/item/216-ototo.html)

 

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