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Rosa Maria Miguel Fontes Jornalista e escritora. Contato rosamaria.fontes@hotmail.com

“Manjaléu e outros contos do folclore mundial”

Fonte: www.contaumahistoria.com.br

Editora Escrita fina resgata histórias seculares do folclore mundial vindas de seis países, inclusive o Brasil, aproximando-as da atual geração de crianças e adolescentes. Em entrevista ao blog, a autora Rosana Rios comenta sobre sua experiência no resgate de contos folclóricos para o novo trabalho literário.

Do Brasil, o conto eleito é Manjaléu. Deu título ao livro.

Da China, O lago Liang-Ti.

Da Alemanha, A serpente e as três folhas.

Da Escócia, o conto se chama A sereia do rochedo.

Do Japão, O menino-pêssego

E de Israel, Ouro, prata e sal.

Todos os seis contos do livro foram selecionados, pesquisados e escritos por Rosana Rios, autora de literatura para crianças e jovens há 28 anos. Com “Manjaléu”, ela chega a 170 livros publicados. A pesquisa que realizou para esse livro, vai muito além da necessária para narrar os contos. Antes do início e ao término de cada história, o leitor vai encontrar uma análise preciosa da autora sobre costumes, personagens, datas, lugares e/ou crenças dos países de origem. São informações que facilitam e enriquecem muito a compreensão do leitor.

Os editores do livro o classificam como “um passeio por narrativas do folclore mundial”. Ainda segundo esses editores, “os contos folclóricos não tem um autor definido: não se sabe quem inventou cada história. A autoria pertence a milhares de vozes que repetiram e modificaram, a cada narração, as maravilhosas aventuras tradicionais. Mantendo viva essa tradição, Rosana Rios reconta no livro histórias que vieram de lugares distantes e, apesar disso, parecem muito familiares a cada um de nós. É que o folclore, assim como todas as formas de arte e criação, não pertence a um único povo: pertence a todos nós, irmãos em humanidade”. É o que o livro destaca logo na sua abertura.

Conto nordestino

A primeira história do livro é “Manjaléu”. Rosana Rios explica ao final da narrativa:

“A versão que recontamos neste livro foi recolhida por folcloristas nos estados brasileiros do Rio Grande do Norte e Sergipe. Devemos muitas dessas histórias às amas, que as contavam às crianças nas fazendas, cidades e engenhos. No reconto, misturavam pedaços de narrativas já conhecidas com outras que tinham ouvido de suas famílias, muitas vezes de origem africana ou indígena. Foi dessa forma, pela tradição oral, que tantos contos atravessaram o tempo: narrados ao redor das fogueiras e fogões de lenha nas noites frias, levados em lombo de burro e cavalo a todos os cantos do país. Atravessaram séculos e chegaram aos dias de hoje com sabor de encantamento, temperado por elementos das culturas formadoras da alma brasileira”.

A autora classifica “Manjaléu” como “um conto de fadas (embora sem fadas), contado pelos adultos para encantar e, quem sabe, assustar que está ouvindo”. É aquele susto gostoso que toda a criança manifesta ao ler ou ouvir histórias de monstros. Manjaléu é um desses monstros. Mais terrível ainda pelo fato de ser imortal e, por isso, perseguir e amedrontar há muitos e muitos anos sem esperança de ser vencido. A vida desse monstro ficava muito bem guardada “num lugar onde ninguém jamais a encontrará”, diz a história.

Ele transformou príncipes em peixe, ave e fera. Encantados na forma de animais, foram atrás de esposas para viverem com eles em seus castelos. A solução foi a mesma para o três: de se casarem com as filhas de um “homem muito pobre que vivia de fazer gamelas de madeira”. Para sustentar sua família ele pescava ou caçava e, durante o trabalho de buscar por alimento para as três filhas e um filho, ficou conhecendo os príncipes na versão animal. A pedido de cada um entregou-lhes suas filhas em troca de fartura de comida.

Com o passar do tempo e a crescente saudade, o filho decidiu ir em busca das irmãs e, então, descobriu a existência de Manjaléu e o segredo para conseguir eliminar de vez a vida dele. Estava guardada “no fundo mais fundo do mar, numa caixa muito pesada. Dentro dessa caixa, há uma pedra. Dentro da pedra, há uma pomba. Dentro da pomba, havia um ovo. Dentro do ovo, havia uma vela acesa. Essa vela acesa é a minha vida: se ela for apagada, morrerei”, contou o próprio Manjaléu.

Ufa! Mesmo sabendo que nos contos de fadas os monstros são vencidos pelo bem, pelo amor e pela sinceridade dos seus heróis tive receio de que ninguém conseguisse o mesmo em relação a Manjaléu. E você, leitor? O monstro morre ou não?

Demais narrativas

Como dissemos, Manjaléu não está sozinho no livro e tem a companhia de outros personagens fantásticos do folclore mundial.

Como é o caso do menino que nasce de dentro de um belíssimo pêssego e se torna filho de um casal solitário. Na verdade, esse nascimento peculiar é para destacar a missão de justiça desse menino para os moradores de uma ilha japonesa.

Outra narrativa é a da serpente que oferece três folhas milagrosas a um corajoso homem que vela a esposa morta, trancado em seu mausoléu, numa história alemã. Segundo Rosana Rios, “embora traga alguns ingredientes típicos de contos de fadas, como um jovem que sai pelo mundo em busca de fortuna e se apaixona pela filha de um rei, há uma reviravolta que toma o leitor de surpresa”!

Tem também a história judaica: a jovem rejeitada por seu pai, que vira mendiga, mas, num golpe de mágica, transforma-se para um baile e conquista o coração de um rapaz rico. Tem até o sapatinho perdido nessa versão israelense para a Cinderela, que é como conhecemos essa história por aqui.

A história chinesa inserida numa cultura de 5 mil anos “fala sobre um lago que tem uma ilha em meio às suas águas. De onde vem esse lago? Por que a ilha solitária se destaca nele? Descobriremos as respostas lendo esta versão da história de uma velha e sábia camponesa”, promete a autora.

No folclore escocês, o ritual da Rakugo, que trata sobre as aventuras dos povos das águas. “Vivendo à beira do mar, num clima frio e ventoso, os escoceses têm centenas de narrativas a respeito de ‘mermen’ e ‘mermaids’ (homens e donzelas do mar, as que chamamos de sereias), além de serpentes do mar e de ‘selkies’ os chamados povo-foca”, explica Rosana Rios.

Além da riqueza literária e cultural, o livro ainda é belíssimo.

As ilustrações são assinadas por Luciana “Lupe” Vasconcelos, artista plástica e ilustradora. Natural de Goiânia, é bacharel em Design Gráfico e mestre em Cultura Visual, ambos pela FAV-UFG. Sua especialidade é o desenho em nanquim sobre papel; o fantástico e o oculto são seus temas favoritos. Atualmente reside e trabalha na cidade de Teresópolis-RJ. Site da autora: www.luciferovs.com

Manjaléu e outros contos do folclore mundial

Escrita Fina Edições / Grupo Editorial Zit

Público-alvo: a partir de 10 anos

Páginas: 96

Preço: 37,80

À venda nas livrarias ou pelo site www.grupoeditorialzit.com.br

A entrevista com a autora

Escritora há 28 anos, Rosana Rios é uma autora de literatura para crianças e jovens que alcançou a significativa marca de 170 livros publicados. Várias de suas obras, como essa, comentada na entrevista, abaixo são frutos de uma eterna pesquisa a respeito de mitologia e folclore, pois é apaixonada por narrativas antigas e procura recontá-las de forma a encantar os jovens leitores. Assim, Rosana oferece a esse grupo de leitores um pouco da cultura dos povos de todas as partes do mundo.

Além de escrever muito, a autora viaja por todo o Brasil apresentando palestras, autografando livros e fazendo um trabalho de estímulo à leitura com leitores de todas as idades. Mora em São Paulo, capital, com a família e uma coleção de dragões.

Rosana Rios: “Viajar nas histórias populares dos diversos povos deste nosso mundo é reconhecer nosso parentesco com todos os seres humanos, pois somos um planeta de contadores de histórias: é em torno das narrativas que se funda nossa humanidade” – Foto: Reprodução

Rosa Maria: Como foi a pesquisa que realizou para chegar até os contos do folclore mundial que constam do seu novo livro?

Rosana Rios: Pesquiso histórias populares desde que era criança e ouvia minha avó recontar as narrativas orais que meu bisavô trouxe de Portugal. Coleciono livros sobre o assunto, que é infinito… Para este livro, pesquisei na minha própria biblioteca.

 

RM: O folclore é vasto, mas você selecionou 6 contos. Por que escolheu exatamente essas histórias?

RR: Eu havia adaptado o “Manjaléu” para um grupo de estudos do qual fazia parte; fui reunindo as outras histórias no decorrer de vários anos. Queria contos que pertencessem a povos bem distintos, por isso escolhi um daqui, um da Ásia, um do Oriente Médio, além das vindas da Europa.

Meu critério foi buscar diversidade de temas e de culturas. Havia muitas outras histórias, que ficaram de fora, infelizmente…

 

RM: Em qual desses países você encontrou mais riqueza e/ou oferta folclórica?

RR: Não há uma cultura “mais rica” que outra. Esse justamente é o meu mote: todos os povos são igualmente ricos em histórias e estas refletem a beleza de suas tradições. O mais interessante é que há narrativas parecidas em toda a parte, pois nós, seres humanos, somos todos irmãos, e tendemos a contar histórias parecidas.

 

RM: Qual é sua análise para o folclore brasileiro?

RR: As histórias populares brasileiras são tantas, tão diversas e tão belas, que não se pode analisá-las numa simples frase. Tais narrativas refletem os alicerces culturais de cada um dos povos que formaram nosso povo: as nações nativas, as vindas de África, as europeias, as ondas de imigrantes de toda parte que para cá vieram… Tudo isso “junto e misturado” forma uma saborosa sopa de tradições, costumes, falares, lembranças, sonhos. Falar de folclore é falar de alma e a alma de um povo é múltipla em sua riqueza.

 

RM: Como têm contribuído para a produção literária?

RR: Mitos e contos folclóricos são a raiz, o alicerce, o alimento de toda produção literária. Todos os escritores do mundo refletem, em cada obra, sem exceção, os arquétipos, mitemas e motivos que foram gerados nas histórias ancestrais.

 

RM: Entre os mais de 150 livros que já publicou, existem outros que também tratam do folclore? Pode citar?

RR: Creio que todos os meus livros são fundados sobre alguns dos muitos arquétipos míticos/folclóricos. Mas, para nos mantermos mais especificamente nos recontos ou nos que brincam com elementos ancestrais e folclóricos, posso citar:

– A viola enluarada de Zequinha Piriri (Ed. Scipione)

– Contos de fadas sangrentos (Ed. DCL)

– Coleção “Quem foi que disse” (6 volumes) (Ed. Edelbra)

– Histórias malcheirosas (Ed. Trejuli)

– Heróis e suas jornadas (Ed. Melhoramentos)

– Bichos e lendas do nosso Brasil (Ed. Edelbra)

Viajar nas histórias populares dos diversos povos deste nosso mundo é reconhecer nosso parentesco com todos os seres humanos, pois somos um planeta de contadores de histórias: é em torno das narrativas que se funda nossa humanidade. Convido, então, os leitores a fazerem essa viagem junto comigo. Boa leitura!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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