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Rosa Maria Miguel Fontes Jornalista e escritora. Contato rosamaria.fontes@hotmail.com

Leo Cunha: “Crianças gostam de livros que surpreendam”

Fonte: www.contaumahistoria.com.br

A afirmação é do escritor, tradutor, jornalista, professor e uma das maiores expressões da literatura infantil na entrevista abaixo. Ele comenta sobre a sua forma de escrever, o cenário do livro neste período de isolamento social e sobre o seu primeiro lançamento em 2021: o livro “Infinitos”, pela Editora Melhoramentos, inspirado num diálogo que teve com a filha Sofia.

Leo Cunha: “Eu reescrevo obsessivamente, releio muitas vezes em voz alta, testo os ritmos e entonações, corto, aumento, troco palavras. Busco, sim, espontaneidade e leveza, mas chegar a ela é muito trabalhoso” – Foto: Jackson Romanelli / Divulgação

 

Rosa Maria: O autor tem uma visão especial sobre cada um de seus livros. Como você analisa “Infinitos”?

Leo Cunha: Tenho vários livros divertidos e alguns poucos que apostam mais na emoção, no lirismo. “Infinitos” é deste segundo time. É uma história que me emociona, por falar com sutileza de afetos e perdas, e pelo lindo diálogo com as ilustrações.

RM: Como surgiu a história de Mari com sua avó?

LC: Mari é inspirada na minha filha Sofia, que atualmente tem 21 anos e estuda Direito na UFMG. Quando tinha 5 ou 6 anos, naquela fase bem curiosa e perguntadeira, quando a criança está descobrindo a imensidão do universo, ela e eu tivemos um longo diálogo sobre o que era o infinito, o seu tamanho incalculável e o que ele significava. Guardei aquela conversa comigo durante mais de 10 anos. Aí, certo dia, um grande amigo meu, o Maurício, me contou que “colecionava infinitos”. Quando via algo na rua no formato do símbolo do infinito (uma gominha, uma mangueira, um fio, uma nuvem), ele fotografava. Juntei esses dois casos e, para costurá-los, inventei uma avó, que contracena com a protagonista, a Mari. A avó é totalmente ficcional, mas o afeto entre avó e neta é muito real.

RM: Você tem outros livros inspirados por vivências com seus filhos. Como é relação pai/autor?

LC: Como expliquei na resposta acima, este livro também é inspirado na minha filha. Ela e o irmão, André, curtem muito o fato de terem um pai escritor. Já leram vários dos meus livros (ela mais) e acham bacana me ver visitando escolas e eventos literários. Reclamam das viagens (que agora na pandemia pararam), mas gostam de ver a quantidade de gente que lê meus livros Brasil afora.

RM: Pode citar alguns desses livros, que você escreveu, baseados nas suas observações com os filhos?

LC: Claro. A Sofia inspirou “Castelos, princesas e babás” e “Contos Degringolados”, por exemplo. O André inspirou “Dedé e os tubarões” e “Língua de sobra”.

RM: Quando leio seus livros, sinto seu texto leve e espontâneo. Tenho a impressão que você escreve de uma única vez. Como é sua conduta na hora de colocar a inspiração no papel?

LC: Essa impressão é totalmente equivocada rs rs rs. Eu reescrevo obsessivamente, releio muitas vezes em voz alta, testo os ritmos e entonações, corto, aumento, troco palavras. Busco, sim, essa espontaneidade e leveza que você cita, mas chegar a ela é muito trabalhoso.

RM: Leitor já pega tudo prontinho… O que a criança mais gosta de ler?
LC:
Acredito que as crianças gostam de livros que surpreendam e que falem às emoções: tanto histórias tristes, quanto divertidas e também assustadoras. O maior pecado que um livro infantil pode cometer é ser chato, daqueles que dão vontade de largar no meio. Outro é ser didático, moralista, querer enfiar ensinamentos goela adentro. Tento fugir ao máximo desses erros e acho que quase sempre consigo.

RM: “Infinitos” foi ilustrado por Alexandre Rampazo, quer dizer, o livro  foi criado por duas feras da literatura infantil. Como foi essa parceria com o Rampazo?

LC: Admiro muito o trabalho do Rampazo. Não só pelo traço, mas sobretudo pela forma como ele entende a narrativa visual e o objeto livro como um todo. No “Infinitos”, ele criou um jogo de pontos de vista, deslocando-se cinematograficamente pelo espaço, e o resultado é sublime. E uma novidade: para o ano que vem, vamos lançar outro livro em parceria, chamado “Estrangeiros”.

RM: Como você descreve o contexto literário nessa fase de pandemia? Gostaria que citasse pontos positivos e negativos.

LC: Os pontos negativos, lamentavelmente, são muito mais numerosos. Livrarias fechando, editoras atrasando lançamentos, eventos literários cancelados, vendas em queda. Cenário muito preocupante. O lado bom, para mim, foi o fato de poder me dedicar a dois projetos bem pessoais, que demandavam uma concentração e um tempo que eu não conseguia ter nos anos “normais”.

RM: O que faz um livro decolar nas vendas e no gosto do pequeno leitor?

LC: Não existe uma fórmula, infelizmente, senão todos a seguiriam! Pode ser algo circunstancial, como um assunto que entra em voga. Pode ser uma conjunção especialmente feliz de texto, imagem e produção gráfica. Pode ser alguma jogada mercadológica, ou até mesmo o acaso. Como não tenho controle sobre praticamente nada disso, o que eu faço é me dedicar ao máximo para criar histórias e poemas que me parecem capazes de surpreender e encantar as crianças e jovens.

RM: A sua obra é vasta. São quantos livros, quantos prêmios, quantas feiras…

LC: Não saberia dizer o número exato. Acho que já passei dos 70 títulos, sendo que a grande maioria, mais de 60, continuam firmes no mercado. Fora os que eu traduzi do espanhol e do inglês, que já ultrapassam 30. Já traduzi ou adaptei autores como Gabriela Mistral, Antonio Skármeta, Julio Cortázar, Charles Dickens, Robert Stevenson, Jerry Spinelli, David McKee, entre outros.

Quanto aos eventos literários, são dezenas e dezenas. Desde  os meus primeiros livros, no início dos anos 1990, participo de Bienais, Salões, Feiras e Festivais Literários. Já visitei todos os estados brasileiros, por conta dos meus livros, com exceção do Tocantins e do Amapá! Para mim, a literatura é, realmente, uma viagem!

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