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Rosa Maria Miguel Fontes Jornalista e escritora. Contato rosamaria.fontes@hotmail.com

“A trapaça da serpente”

Fonte: www.contaumahistoria.com.br

Os contos populares, como é o caso desse do título acima, de origem africana, são criados a partir da sabedoria do povo. A autora, Sandra Bittencourt, com sua aguçada sensibilidade reescreveu o conto para caber com precisão também na cultura brasileira.

Serpente em forma de gente. Essa expressão é muito usada no Brasil para designar pessoas que mentem, criam armadilhas e enganam pelo simples intuito de se satisfazerem, alimentarem o egoísmo que carregam e pelo prazer de praticarem o mal.

“A trapaça da serpente” nos apresenta uma história com esse viés, porém, com um final digno, justo e feliz. Vamos começar pela explicação de Sandra Bittencourt sobre o que é um conto de trapaça.

“Esse é um dos tipos mais comuns de contos africanos, que possuem comentários sérios sobre as desigualdades da existência. Os trapaceiros são personagens amorais e espertos, que usam a inteligência para atingir seus objetivos. Até certo ponto da história, eles têm sucesso com base no engano e no aproveitamento das fraquezas dos demais. Alguns deles falam várias línguas e têm o poder de remover obstáculos e oferecer oportunidades. Entre os escravos, esse tipo de história continha uma abordagem sutil e indireta. Afinal, eles não podiam arriscar um ataque direto aos brancos. Nem sempre, porém, esses contos contam com personagens trapaceiros. Em alguns casos, a prática de trapaça é um tema que permeia a narrativa”, conclui.

Sandra Bittencourt começa o conto da forma que todo mundo gosta de ler e/ou contar:

“No tempo, do era uma vez.

Ao pé da montanha, depois do rio, numa casa branca, morava uma Jovem de Bom Coração.”

A protagonista de “A trapaça da serpente” é essa Jovem, que se torna vítima de uma cobra que, com muito ardil, lhe pediu socorro para se esconder. Sabem onde? Dentro do corpo da ingênua moça.

“Ssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss…

… _ Ah, Jovem de Bom Coração. Corro perigo. Preste atenção no que vou dizer. Os caçadores estão me perseguindo e querem me matar. Preciso de um lugar seguro para me esconder. Você poderia me ajudar?

Relutante a jovem respondeu:

_ Como posso fazer isso?

_ É simples, minha Jovem do Bom Coração. Você senta, abre a boca e eu entro.

_ Hã?!

_ Eu quero me esconder dentro de você. Assim que os caçadores passarem, eu saio. Por favor preciso de ajuda! Mas, atenção, enquanto eu estiver aí dentro, você não pode contar a ninguém o que está acontecendo, senão…

Sssssssssssssssssssssssssssssssssssssss.”

A jovem abriu a boca, a serpente deslizou para dentro do seu corpo e por lá se ajeitou confortavelmente. Eis uma serpente em forma de gente! Criou uma armadilha, conseguiu enganar a jovem e aí, eu pergunto: mentiu também ou não?

Os caçadores surgiram. Perguntaram pela serpente. A jovem respondeu negativamente acenando apenas com a cabeça que não tinha visto nenhuma delas. Em profundo desconforto e falta de ar, ela avisou que os caçadores já haviam ido embora e, portanto, a intrusa serpente já podia sair de dentro do corpo dela.

Saiu? Não! A serpente em forma de gente sequer se incomodou com o sacrifício que exigia da Jovem, pois sentia-se muito bem naquele corpo quentinho. A mentira de que sairia pela boca da moça, tal como entrou, assim que se livrasse dos caçadores, se estendeu por longos dias.

O tempo passava e a Jovem de Bom Coração enfraquecia, sentia-se mal e já não sabia mais o que fazer para se libertar do réptil. Chorou, chorou, chorou tanto que “formou-se um filete d´água que, lágrimas correntes, seguiu seu caminho até banhar os pés de um nobre Rapaz”.

“Intrigado e sedento, o Rapaz quis descobrir a fonte daquele filete d´água que trazia em si toda dor, desesperança, ingratidão, raiva e solidão… Em seu trajeto, o Rapaz pôde sentir também bondade, proteção, carinho, amor naquelas lágrimas.”

Sandra Bittencourt conduz o conto para um final feliz e além do esperado. Porém, merecido para uma Jovem de Bom Coração e para um mundo que precisa urgentemente eliminar todas as tentativas das serpentes em forma de gente.

O Rapaz percebeu algo mais naquele filete d´água que o conduziu até a Jovem. Ela, por sua vez, relatou-lhe a trapaça e ele agiu com astúcia, enganando o próprio réptil para defender a moça. Foi a vez da serpente provar do seu próprio veneno: a mentira. Ela saiu de dentro do corpo da protagonista tão sofrida.

O que disse o Rapaz para a serpente? Convido o leitor para a leitura do livro. Vai valer muito a pena conhecer a trapaça justa do Rapaz, além das demais consequências do ardil da serpente descritos habilmente pela autora.

Não vou finalizar a matéria escrevendo a negociação do rapaz com a serpente, mas posso garantir que ao tê-la com metade do corpo para fora da boca da Jovem, ele encarnou o estilo de super-herói ágil e corajoso: “decepou a cabeça do réptil… Corpo de um lado, cabeça para o outro”.

E, ao final, a autora ainda nos explica a moral do conto com muito encanto:

“Aquilo que está escrito em um filete d´água nada no mundo poderá apagar”.

Isso me lembrou outro ditado popular brasileiro que conheci recentemente:

“O que Deus escreveu ninguém rabisca. Vai acontecer”.

Esse livro encantador tem imagens fortes, que expressam a cultura africana, e foram criadas pela mineira Denise Rochael, formada em Belas Artes, com 30 anos de carreira e muitos prêmios como autora e ilustradora. É um lançamento do Grupo Editorial Lê. Tem 32 páginas, é dirigido a leitores fluentes, custa R$ 43,50 e pode ser comprado nesse link Editora Lê (le.com.br)

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