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Wilson Renato Pereira é jornalista especializado em cultura cervejeira, autor da Coluna "Cerveja&Cia" na revista Mercado Comum, palestrante.

Trapistas, as divinas cervejas


Certa vez perguntaram a um monge do mosteiro de Sint Sixtus, Bélgica, fabricante das Westvleteren, as mais exclusivas das cervejas trapistas, por que a Ordem não aumentava a produção e atendia à grande demanda do mercado para seus produtos. A resposta foi simples e definitiva: “não somos empresários, mas religiosos. Tudo o que precisamos é cobrir as despesas do nosso mosteiro e das nossas obras sociais.”

As cervejas trapistas, consideradas as melhores do mundo, são produzidas em onze dos dezoito mosteiros da Ordem Cisterciense da Estrita Observância, atendendo a critérios rigorosos de produção. Por exemplo, para ser considerada trapista deve ser fabricada pelos próprios monges ou sob sua supervisão. A atividade cervejeira é de importância secundária no mosteiro, deve seguir práticas de negócios adequadas ao modo de vida monástico e não se destina a ser um empreendimento lucrativo.

A maioria das cervejarias trapistas está localizada na Bélgica e Holanda e a mais conhecida é a Chimay. As outras são a Achel, LaTrappe, Orval, Rochefort, Westvleteren, Westmalle, Zundert, Engelszell (Áustria), Spencer (EUA) e Tre Fontane (Itália). Mont des Cats (França) é um outro mosteiro trapista mas, como as cervejas são produzidas fora dos seus muros, pela Chimay, não recebe o selo de autenticidade.

La Trappe, Chimay e Westmalle detém as maiores produções: são mais de 100 mil hectolitros de cerveja por ano, exportadas para todo o mundo. Estas são as que mais contribuem com serviços sociais através do lucro das vendas. As abadias menores, como a Westvleteren, produzem apenas para a sustentabilidade dos monges e do próprio mosteiro. Curiosamente, as cervejas Westvleteren só podem ser compradas na própria abadia, com reserva feita por telefone, apenas uma dúzia de cada vez.
A maioria das cervejarias Trapistas conta, hoje, com um monge que supervisiona os trabalhadores, em sua maioria leigos, não necessariamente monges. Além das cervejas fabricadas para comercialização, os mosteiros também produzem uma variedade chamada de Enkel ou Blonde, de baixa graduação alcoólica, para consumo próprio.
As cervejas trapistas são inigualáveis. O nome não se refere a um estilo particular, mas ao fato de que são fabricadas dentro de um mosteiro cisterciense. Embora as mais conhecidas sejam a Dubbel, Tripel e a Quadruppel, os monges podem produzir qualquer estilo de cerveja que, ainda assim, teria o selo de denominação de origem e continuaria sendo uma autêntica trapista.
Assim, outras cervejarias que não estão incluídas nesta seleta lista não podem produzir cervejas denominadas trapistas. É comum, no entanto, que alguns fabricantes tentem imitar as fórmulas associadas aos cistercienses. Nesse caso, as cervejas são chamadas de “Abadia”. Acredita-se que as receitas Trapistas sejam milenares.
Os monges Trapistas provêm dos cistercienses e, anteriormente, da ordem monástica beneditina, de grande tradição histórica. A Igreja Católica detinha o monopólio da ciência e do conhecimento, por isso, ao longo desse tempo, pode ser verdade que algumas receitas sejam realmente antigas. A Ordem Beneditina e, portanto, também a Trapista, segue a regra de São Bento (480–547 AD), na qual “devemos viver pela obra das nossas mãos”. Sua filosofia é baseada no trabalho manual para se aproximar de Deus.
A Ordem Cisterciense nasceu no início do século passado. A motivação para sua criação surgiu da inquietação sentida por alguns beneditinos ao perceber que muitos monastérios já não seguiam as regras de São Bento. O nome adotado se deve à cidade onde se localiza a sua sede, Cister (França), bem como a abadia de seu fundador (Roberto de Molesme): Abadia Cister.
Mais tarde, no século XVII, o abade Rancé, que na época estava no comando da La Trappe, na França, implementou uma reforma bastante severa. Outros mosteiros continuaram a sua reforma, agrupadas em uma terceira ordem monástica, a Trapista. A origem da irmandade surgiu na França, mas com a Revolução Francesa e o anticlericalismo que veio com ele, os monges se viram obrigados a migrar para outros países, resultando no surgimento dos mosteiros trapistas belgas e holandeses no século XVIII e XIX.
A Ordem Trapista tem apenas quatro séculos, mas a mais antiga cervejaria trapista surgiu bem mais recentemente. No entanto, é provável que as receitas tenham sido passadas de geração em geração de monges, e também tenham sido transferidas de um monastério para o outro.

Com Cerveja, Uai!

Wilson Renato Pereira é jornalista dedicado a difundir a cultura cervejeira de qualidade. Autor da coluna "Cerveja&Cia" na revista Mercado Comum e palestrante.

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