Liberruy 2

Ruy, o revolucionário

Publicado em blogueiros

O texto de hoje é uma homenagem a um amigo querido, uma pessoa sem métricas, original e bom. “Um anjo”, define quem bem o conhece, Maria Clara Prates. E concordamos todos nós a quem ele tem alegrado com sua presença. 

O nome dele é Ruy, mas na faculdade era conhecido como Liberruy, uma referência à sua opção maiúscula e em alto som pela Liberdade e Luta, a Libelu, tendência de esquerda radical do movimento estudantil naqueles tempos de resistência à ditadura militar. Corria o ano de 1979 e Fernando Gabeira, de volta do exílio, lançava a sunga de crochê cor de rosa na praia de Ipanema e a política do corpo como nova frente de luta. O slogan era “curtir o corpo numa boa”.

Liberruy, sempre revolucionário, entendeu a mensagem e abraçou a causa. O problema é que entre o abraço e a prática se colocou, austera como uma madre superiora, a timidez do militante. Sim, porque o primeiro desafio a que ele se propôs foi nadar pelado! O que fazer? Era a pergunta que, atormentado, levava quase que diariamente à discussão dos colegas. E o mais que colhia para resolver seu dilema existencial era a insensibilidade alheia: “Pô, Liberruy, vai nadar pelado de uma vez!”.

Liberruy 1

            Esgotada a discussão teórica, surgiu a oportunidade. Um grupo de amigos resolveu curtir uma cachoeira em Ouro Preto no fim de semana e lá se foi o nosso personagem com a bandeira da política do corpo estendida sobre os ombros. Às margens plácidas do ribeirão, ele dirigiu-se a uma companheira de passeio e libertou o brado heroico:

– Você se importa se eu tirar o calção?

Não, nem ela, nem ninguém. Até olharam para o outro lado em solidariedade. Munido de toda a coragem que conseguiu reunir naquele momento histórico, foi hasteada a bandeira e baixado o calção. Ele estava ali, ainda ofegante em seus primeiros minutos de prática revolucionária, quando a classe média opressora reagiu. Não podia ser coincidência, estava tudo organizado para sufocar a revolução!

Pois não é que naquele exato momento, bem em frente ao lugar onde Liberruy ostentava sua ideologia libertária, saiu da mata um grupo numeroso de pessoas! Não presenciei a cena, mas certamente era formado por velhinhos, criancinhas e mulheres moralistas, rigorosamente vestidos. E, pior, ficaram olhando para a carta programática do Liberruy enquanto caminhavam sobre a água. Caminhavam sim porque a lâmina d’água não passava de um palmo de profundidade, o que dificultava qualquer tática de reação revolucionária.

Liberruy fez cara de paisagem, resistiu à tentação de bater em retirada e foi se ajoelhando, depois sentou, e, na falta de panos, jogava água sobre o que nele era a enrugada e diminuta lembrança de uma revolução. Desde então, na salinha do café, onde a turma de faculdade se reunia antes da aula, nunca mais se ouviu qualquer repreensão às dúvidas existenciais do pupilo de Gabeira. Não por solidariedade ao amigo, mas porque Liberruy nunca mais tocou no assunto.

2 comentários para “Ruy, o revolucionário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *