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Bordados de ficção sobre a realidade

Publicado em blogueiros

Por estas terras tão iniciais, a ficção – seja novela, filme ou futebol – carrega a tarefa de completar a realidade. As aparências, liberadas para uso sem moderação, tomam formas inesperadas, embora sejam sempre assim, cores que não combinam. Feito embrulho de coco com garrafa de pinga, impossível de fazer. E não é assim? Apois, se achegue, prove deste biscoito de queijo, sirva-se de café e escute só este caso. Era final dos anos 1980, as redes sociais não existiam, de internet quase ninguém tinha ouvido falar e o tempo ainda corria nos relógios ao ritmo dos ponteiros. Observar ao redor, acredite, era hábito comum.

Já perto da meia-noite o ônibus estacionou em frente à lanchonete, trazendo poeira da estrada de terra e ranger de molas para o silêncio do lugar. Rogério de Almeida Abreu espreguiçou o corpo, espantou o sono e desceu para tomar café e fumar um cigarro. O vício o persegue até hoje, maltratando o corpo e somente ele, pois que o espírito sempre esteve muito acima de qualquer mal, mergulhado todo ele na observação da humanidade e seu jeito de existir. Rogério é, em seus detalhes, um homem bom.

O café veio fumegando num copo lagoinha, canelado. Ele tomou o primeiro gole e deu uma olhada no aparelho de tv, acomodado em uma prateleira em meio a garrafas sujas de poeira. O som no volume exato para não perturbar a paz do voo das mariposas sobre as lâmpadas acesas. Por prazer de observador, os olhos do viajante logo pousaram sobre um homem encostado ao balcão, sorvendo um refrigerante, pele castigada de sol e lida, trajes simples, gestos discretos de brasileiro do interior. Pessoa e meio tão acostumados um ao outro que toda cena é paisagem, qualquer fotografia dispensa cor e poesia nunca espera o pensamento: já está lá quando a ideia chega.

O caboclo olhava para a tv só porque o aparelho oferecia algum movimento na noite calma. O olhar, no entanto, estava pendurado em varal, tomando brisa enquanto o tempo passava. Até que Paulo Francis surgiu na telinha com seu estilo peculiar. O velho jornalista, sorriso gotejando ironia nos cantos da boca, óculos pesados sobre olhos alegres e aquele sotaque de quem procura desesperadamente pronunciar corretamente as palavras, mesmo atrapalhado por um ovo de codorna vagando pelo céu da boca como bolinha em globo de sorteio. Cada final de sentença chegava em velocidade subitamente acelerada, apropriada para cuspir o ovo. A gente torcia: agora vai. E nada! Era tão próprio e curioso o estilo de Francis que Chico Anysio criou uma imitação. A cópia ficou tão boa que o original fazia jus a ela.

O homem, pois, ergueu o corpo de um repente e acompanhou com atenção o comentário político do jornalista, embora o conteúdo exigisse dele leituras que ele certamente não tinha. Pouco importava. Ao final, soltou uma gargalhada, deu um tapa no balcão e sentenciou:

– Esse Chico Anysio é do c…!

2 comentários para “Bordados de ficção sobre a realidade

  1. Que leveza. uma joia para este domingo. Isto me fez rir sozinho. Sensacional. “Pessoa e meio tão acostumados um ao outro que toda cena é paisagem, qualquer fotografia dispensa cor e poesia nunca espera o pensamento: já está lá quando a ideia chega”

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