Um vento atravessado

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Num certo dia perdido no tempo, o sujeito cruzou os braços e olhou para o horizonte. Observou por alguns minutos e foi embora, certo de que conhecia muito bem o que via, entediado demais com a falta de novidade, oprimido pela sensação de vazio contida na extensa paisagem. E voltou para casa como todos os outros dias: um animal a caminho de sua toca.

O sujeito domina com maestria as técnicas de sobrevivência, conhece ofícios, organiza o tempo para execução das tarefas, esforça-se para obter a renda, tem filhos e transmite a eles o seu jeito de olhar o mundo. Não gosta de falar a respeito, mas à noite e em momentos inesperados sente-se angustiado. Às vezes, são problemas práticos ainda sem solução, outras uma dor vaga, incompreensível como palavra sem consoantes.

O homem olha-se no espelho enquanto escova os dentes e estabelece suas fronteiras: no mundo, ele é o que está dentro daquela pele, de tudo e de todos separado pela derme. Ele é aquele corpo que move braços e pernas para execução de várias tarefas, ele é aquele organismo que come, digere e defeca, dono de um cérebro capaz de traduzir os sentidos, analisar os fatos e tomar decisões. Àquela massa, dividida em dois lóbulos, ele confere o atributo de conter sua própria identidade. Interrompe repentinamente o movimento da escova à breve lembrança da morte que o espreita a partir de suas próprias vísceras. Quem ele é, em algum momento e contra a sua vontade, vai desaparecer do mundo. Não faz sentido, suspira.

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Aos domingos, tenta encontrar Aquele por quem sente apego e medo, e vive acima dos corpos. O senhor da morte. Pede clemência e proteção. Em seguida, sai com a família em passeio, visita amigos, abre uma cerveja, vai ao cinema ou ao estádio, assiste tv. Abraça outras pessoas com o uso perfeito dos membros superiores, caminha por obra e graça das suas pernas e observa as paisagens por arte dos olhos e das lentes que a ele foram dadas por gente que sabe como traduzir o que é visto. Em alguns momentos, dá-se conta da própria respiração e tem a percepção de que os problemas e as oportunidades estão no mesmo lado do mundo: além-fronteira, do lado de fora da sua pele. Quase tudo acontece à sua revelia.

E foi assim, até que chegou aquele vento atravessado e repentino, passou pelos vãos de suas costelas como se fossem persianas e ignorou seu corpo como se ali não fosse endereço de ninguém, abrigo de qualquer pessoa. Trouxe bem-estar e uma alegria fluida e tão genuína que pareceu, o vento, ser sua verdadeira identidade feita éter. Quando procurou os outros corpos para achar as pessoas, encontrou o mesmo vento atravessando miragens. Deus assoviava e as pessoas ventavam. Ele estava tão feliz que se perguntou se não era tudo delírio. Na dúvida, o vento parou de imediato. O sujeito, então, cruzou os braços e olhou para o horizonte.

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