QUO VADIS? “A política não é uma ciência exata, mas uma arte.”

A frase é de Bismarck, o chanceler de ferro que fincou as bases da unificação da Alemanha no século 19.

Como arte, a política amolda-se à forma plasmada por seus cultores, escapando das equações racionais que alguns formuladores usam para explicar seus desdobramentos.

Na política, a menor distância entre dois pontos pode não ser uma reta, como na geometria euclidiana, mas uma curva. Ou, buscando por aqui a explicação, não é necessário que uma pessoa tenha passado pelo teste das urnas para ser presidente da República.

Dilma Rousseff nunca havia recebido um voto até se eleger comandante da Nação. A escalada natural da política – vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, governador, presidente – não é mais usada em nosso meio.

Mais razoável é apostar na hipótese de que Dom Luiz Inácio, de maneira intuitiva, incorporou a lição de Maquiavel, para quem “feliz é o príncipe que ajusta seu modo de proceder aos tempos”, sem deixar tudo por conta da sorte. Pena que esqueceu-se do imponderável!

Abro aqui um paralelo no tempo: No auge da revolução francesa, um advogado e político chamado Maximilien de Robespierre, conhecido pelos amigos como o “incorruptível” e pelos inimigos como a “candeia de Arras” ou “tirano”, mandou matar o “companheiro” Danton, que propunha um rumo mais moderado para a revolução, pouco tempo depois foi executado pelos inimigos.

Felizmente somos cidadãos pacatos, incapazes de tal barbárie.

Olhemos o mapa-múndi da política. Nele se distingue monumental espaço habitado pela descrença. Há um mal-estar generalizado com os mandatários.

Aqui e alhures se multiplicam sinais de profunda necessidade de transformação de métodos. Os movimentos de rebeldia que explodem nos quadrantes do planeta, afetam democracias antigas e novas, governos de direita ou de esquerda, sistemas presidencialistas e parlamentaristas.

A crise que se projeta sobre a zona do euro, com o Brexit do reino unido, incomoda gigante como a China, implode pequenas economias, desestrutura governos, e exige novo ordenamento para reconstruir a teia social.

O traço comum aos movimentos é a repulsa à velha política. Esta é, infelizmente, confundida com ineficiência da gestão pública.

O sentimento mais comum do cidadão é o de que a política o traiu. Por isso não quer mais fazer parte do conto do vigário. Gostaria de ver em seu representante a encarnação da verdade, a certeza de que as coisas boas aparecerão.

Ou, como lembra o cientista social chileno Norbert Lechner, “as pessoas esperam que a política lhes garanta não só a integridade física e certa segurança econômica, como também um referencial de certeza”.

Mapas ideológicos fragmentados e dispersos aprofundam a crise dos entes partidários, dos quais os eleitores tomam distância, ensejando o predomínio da estética sobre a semântica e reforçando máxima de McLuhan: o meio é a mensagem.

Partidos-ônibus continuam a acolher passageiros em algumas estações, podendo, mais adiante, fazer acordos para percorrerem o mesmo caminho.

Seria o caso de se perguntar: “Quo vadis?”

Resposta mais provável: Brasília sunt iens ut crucifigeretur.

Crônica atualizada “lato sensu” para o grande mestre Gaudêncio Torquato.

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