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Evaristo Magalhães é Doutor em Psicanálise pela UFMG, Psicanalista Clínico e possui dois livros publicados: Crônicas para amar e A vida dói?

TENHO QUE SER A MINHA MELHOR COMPANHIA …

 

Por que não podemos ir ao cinema sozinhos sem achar que nos falta alguma coisa? Quem disse que sem o outro não pode ser inteiro? Por que sempre pensamos que nos falta sono quando temos insônia? Por que não podemos nos sentir inteiros e acordados? Por que nos torturamos tanto? Quem disse que não posso ser completo sendo gordo? Onde está escrito que um baixinho é menos feliz que um alto?

Poderíamos ser UM. No entanto, estamos sempre nos fazendo de dois ou mais. Não comemos com medo de engordar. Não nos soltamos sexualmente preocupados com que o outro vai pensar.

Só deveríamos questionar o que faz sentido. Não é o mundo que precisa mudar. É o que nos ensinaram a pensar sobre o mundo que precisa ser modificado.

Inventaram  um tanto de falta de um tanto de objeto que não existe.

Perco minha ida solitária ao cinema achando que o filme ficaria melhor se eu estivesse com alguém. Doce ilusão!

Poderia ser inteiro o tempo todo, por que não? Quem inventou que dois é melhor que um? Por que não posso ficar só comigo? Por que não posso achar o máximo colocar a mesa só para mim? Por que não posso sair para comprar um presente para mim?

Vivo quase o tempo todo me culpando de quem sou e do que faço – como se eu pudesse comprar o que me falta e que dizem que me faria feliz.

Ora, o que me faria feliz – de fato – não existe. Não há quem não tenha alguma queixa mesmo sendo muito amado. Os ditos mais bonitos não se acham assim tão bonitos. Certas plásticas pioram ainda mais aqueles que já não se achavam assim tão bonitos. Mesmo os mais bem resolvidos sofrem de alguma depressão.

Portanto, tem aqueles que vivem só para queixar do que lhes falta. Vivem menos do que possuem e mais do que não possuem. Na verdade, pouca coisa nos falta. Isso que nos falta – no fundo – foi nos incutido para vender uma felicidade que não existe.

Tenho que ser inteiro com qualquer idade, com o corpo que a natureza me deu e com o amor que tenho comigo.

Negar a minha idade não me tornará mais jovem. Desfazer de quem sou não me tornará mais magro ou mais alto. Pensar no amor que eu gostaria, só encherá o saco do amor que tenho.

Podemos – sim – reformar a casa, comprar um carro novo ou trocar de celular. Porém, jamais poderemos mudar certas aspectos do nosso viver.

Não adianta questionar a velhice. Não adianta ter medo da morte. Para certas coisas, nada somos e nada podemos. Temos que ser como somos – e pronto. Certas coisas, nós só temos. Só podemos carregá-las. Ou seja, temos que nos arranjar com elas.

O melhor caminho é nos sentirmos inteiros – uma vez que somos constituídos de uma falta que nos é insuperável. Se sofrer fosse a solução, o mundo já teria virado um enorme paraíso.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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