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Evaristo Magalhães é Doutor em Psicanálise pela UFMG, Psicanalista Clínico e possui dois livros publicados: Crônicas para amar e A vida dói?

O Brasil imbecilizou?

 

A palavra justificativa vem de justificar, fazer justo, tratar com justiça.

Justificar implica pensar para dizer e implica pensar para dizer com base em determinados valores. É porque justificamos que não agredimos. É porque justificamos que não falamos bobagem.

Penso que no Brasil, neste momento, perdemos a capacidade de justificar.

Uma pessoa aparece nas redes sociais como torturado durante a ditadura militar por defender ideais comunistas. Deveria ser completamente estapafúrdia a relação entre torturar e defender ideias comunistas. Mas, não é. Há quem ache justo.

Este é o grande nó da questão. O justo supõe proporcionalidade. A proporção é sempre o debate e nunca a tortura. O certo é a discussão e não emudecimento do interlocutor.

Para qualquer ideia devo, sim, mostrar minhas razões. Devo estabelecer uma conversa, um contraponto e questionar as bases argumentativas expostas pelo meu suposto opositor.

Não é justo agredir quando a questão é da ordem do pensar e do dialogar.

Nada justifica comemorar a morte de qualquer pessoa por ser ela de esquerda ou de direita. Não justifica tirar a vida de quem quer que seja porque é negra ou LGBT.

Estamos desistindo da palavra, do pensar, da reflexão e do diálogo.

Elaborar aplaca o ódio. Compreender direciona o agir. Pensar confere valor ao ato.

Parecemos bichos agindo por impulso. Parecemos loucos colocando – inconsequentemente – para fora tudo o que nos vem à cabeça. Parecemos surtados reverberando ideias alheias – e sem qualquer filtro.

A razão precisa suplantar o ódio e as agressões. Estamos descontrolados. Parece que perdemos as referências de como agir bem.

Existe saída? Sim. O primeiro passo é trazer para a palavra os motivos que nos fizeram perder a palavra como a nossa principal norteadora. Ou seja, usar da palavra para tentarmos entender porque estamos deixando de usar a palavra.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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