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Evaristo Magalhães é Doutor em Psicanálise pela UFMG, Psicanalista Clínico e possui dois livros publicados: Crônicas para amar e A vida dói?

Por que ninguém será punido pelo crime de Brumadinho?

Entramos na era da verdade. A verdade é a ciência. É a tecnologia. É o carro. É a geladeira. É o telefone celular.
Não há mais dilema ético. Agora é tudo em nome da verdade. Não importa quantas vidas serão ceifadas. Os fins justificam os riscos. As tantas mortes é para um bem maior. Qual bem maior? O minério, as indústrias, os objetos, a nossa felicidade e o sentido de viver. Sim, a ciência, os dispositivos tecnológicos e o consumo tomaram o lugar do sentido da vida.
Nada pode deter o capital. Ele é o novo deus do universo. Há os riscos? Sim. Há destruição da natureza? Sim. Há o aquecimento global? Sim. Muitas vidas ainda pagarão por isso? Certamente. No entanto, a cartada vale o jogo. Os que morrem não justificam a suposta felicidade da maioria. Isto explicaria a nossa curta memória para com as grandes crimes movidos pelo capital. Isto explicaria a nossa dificuldade de mobilização para conter o avanço destrutivo deste sistema. Lembro bem das passeatas em Mariana exigindo o retorno das atividades da mineradora.
Não temos mais qualquer dilema ético. Viramos seres práticos. O utilitário tomou o lugar do humano. Dessa vez ainda não foi comigo. Antes ele do que eu. É o que se ouve.
Parece que encontramos um jeito absoluto de gozar. A política – que deveria avaliar os riscos – foi completamente tomada pela suposta verdade do mercado. A tecnologia reina absoluta. Estamos à deriva. Só nos resta rezar para que a coisa não respingue em nós. No entanto, de algum modo, respingará. Ninguém está ileso. Até sofremos um pouco quando alguns são atingidos. Depois esquecemos e voltamos para o nosso falso mundinho carnavalesco do watsZapp.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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