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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Que sejamos conquistadores em 2021

No comércio do bairro, uma sensação de cidade abandonada, exceto pelas filas na farmácia, no supermercado, no verdureiro e no açougue. O comércio não essencial está fechado. Nas vitrines trancadas, decorações natalinas têm um tom de melancolia. A fila do peru de natal dobra a esquina, clientes levam na mão uma senha com o número da encomenda; na antevéspera do natal só os precavidos serão atendidos. Na minha frente, uma senhora com uma bengala 007 que se transmuta num banquinho de três pés. Atrás de nós, a fila só aumenta, os passantes lançam olhares de inveja para a mulher, que espera confortavelmente por sua vez, enquanto conversa sobre tradições natalinas com uma espanhola e uma polonesa, que também aguardam a vez de entrar no açougue. Mais ao sul do país, em Kent, milhares de caminhoneiros estão estacionados em uma fila que não anda e que cobre quilômetros de estrada. Eles reclamam da falta de estrutura, estão encurralados. Vão passar o natal e, talvez, o ano novo na boleia de seus caminhões. Duas filas e dois mundos completamente diferentes. Um retrato apropriado para encerrar este 2020 aqui na Ilha.

Um pouquinho de contexto para recapitular o que anda acontecendo por aqui. O governo de Boris Johnson passou semanas dizendo que o natal seria feliz, próximo do que foi nos anos pré Covid-19. Veio com uma de suas invenções, uma brincadeira com uma música clássica desta época do ano e disse que essa é a temporada para ser jolly (alegre), mas também para ser jolly careful (aí o jolly passa a significar muito, muito cuidadoso). Mostrou mais uma vez um traço de duplicidade, que é a sua marca registrada. Cada hora fala uma coisa e deixa o povo sem saber mesmo o que fazer. As famílias poderiam se encontrar com outras 3 famílias dentro de casa durante cinco dias no período de natal. Os especialistas de cabelo em pé, de posse dos dados sobre o número de infectados, internações em hospitais e fatalidades, advertiam: é uma péssima ideia deixar que pessoas que moram em casas separadas se reúnam no momento. O governo aconselhava: mantenham distância, não cantem as tradicionais músicas de natal (cantar e falar alto ajuda a espalhar o vírus mais longe) e deixem as casas bem ventiladas. Em bom português: vamos tampar o sol com a peneira. Essa narrativa durou até que ficou inviável negar o perigo. Para jogar ainda mais água quente na fervura, agora temos uma nova cepa do vírus, uma mutação que faz com que ele seja ainda mais contagioso e que, ao que tudo indica, aumenta o risco de contagio também entre as crianças. Natal cancelado. A maior parte do país foi colocada no nível de alerta máximo para o vírus, daí o comércio fechado no bairro onde vivo. Ninguém pode visitar ninguém e a mensagem é clara: fique em casa, saia apenas para se exercitar, ou para fazer alguma atividade essencial.

Parece incrível, mas depois de quatro anos e mesmo com uma pandemia que transforma o mundo num pandemônio, vou ter que falar mais uma vez de Brexit. Sorry, mas faz parte do contexto. Os defensores da saída tinham como uma das principais bandeiras um maior controle das fronteiras. Vamos fechar as fronteiras era o lema nacionalista e anti-imigração. Como é mesmo aquela história? Cuidado com o que você deseja. Pois é, as fronteiras estão mais controladas do que nunca. O mundo fecha suas portas para esta Ilha, numa tentativa de barrar a contaminação pela nova variante do vírus. Seis mil caminhoneiros estão encalhados do lado de cá do Canal da Mancha, sem poder voltar para casa. O clima lá em Kent anda fervendo. Acabei de ler que o corpo de bombeiros da França está a caminho, para administrar testes nos caminhoneiros, para que eles possam voltar para casa. Segundo os franceses, eles não confiam nos testes dos britânicos. Esse é apenas um lado da história. Mesmo antes da descoberta da nova cepa do vírus, já havia problemas na fronteira. Em janeiro, esta Ilha finalmente assinou o artigo 50, de retirada da Comunidade Europeia. Pelos termos do documento, os britânicos e os europeus teriam até o final de dezembro agora para firmar os acordos desta retirada, tratos para o comércio, movimentação de cidadãos, pesca, operações financeiras, segurança e políticas antiterrorismo, para citar alguns pontos. Adivinhe só, hoje é véspera de natal e, até agora, necas de acordo*. É um vai e vem que parece não ter fim, mas se esta Ilha sair sem acordo, a economia, já abatida pela pandemia, vai despencar ainda mais. Mais de cinquenta por cento de tudo o que este país exporta vai para a Europa. De todos os acordos que o governo conseguiu firmar com países fora da Comunidade Europeia, desde janeiro, nenhum deles é melhor do que os termos que já tinha quando fazia parte do grupo europeu. O que isso quer dizer? Entre outras coisas, que os produtos que vêm da Europa e que antes podiam entrar sem taxações e sem barreiras alfandegárias, agora vão ter que passar por vistorias, o que antes mesmo da notícia devastadora sobre a mutação do vírus já criava um enorme problema logístico. A expectativa é de que os produtos nos supermercados vão ficar entre 15 e 50% mais caros, a maior alta para produtos perecíveis, que além de passarem por novas alíquotas de impostos, precisam ser transportados com maior rapidez, o que é um risco em portos sobrecarregados, sem condições de processar todas as entradas rapidamente. Esta Ilha conta com o alimento importado para abastecer a mesa de seus cidadãos. Sabendo do risco de alta de preços e desabastecimentos, o setor varejista encomendou mais produtos do que faz normalmente para ficar bem estocado, o que gerou um movimento maior de cargas. Assombrado pelo fantasma do desabastecimento, o consumidor lota os supermercados para tentar estocar o que pode. Aqueles que podem, é claro.

Aí volto para as duas filas, a do açougue e a da aduana. Meses atrás escrevi que não estávamos todos no mesmo barco. A distância entre os passageiros da jangada improvisada e do transatlântico de luxo é cada vez maior. Os chamados bancos de alimentos aqui não estão dando conta da demanda. Esses bancos funcionam como centrais de distribuição de uma espécie de cesta básica e contam com doações de particulares e de empresas. Gente, que costumava doar, agora está na fila por uma doação. A UNICEF, pela primeira vez em seus 70 anos de história, realizou campanhas de doações de alimentos para crianças em solo britânico. Segundo um levantamento da Food Foundation (uma instituição de caridade) 2.4 milhões de crianças (17% do total no país) vivem em lares onde falta comida. O número de alunos que têm direito à merenda de graça subiu em 900 mil em outubro.

É um desafio escrever uma mensagem positiva num fim de ano como este 2020. Meses atrás ouvi um programa de entrevistas no rádio em que uma pessoa perguntou se tínhamos perdido os primeiros sinais do que estava por vir. O entrevistado respondeu: e se a pandemia for o primeiro sinal do que está por vir? Sinceramente, a pergunta foi pesada demais. Mudei de estação, porque quem é que iria querer pensar em mais desgraça? Mas, de alguma forma, a entrevista fez nascer uma dúvida que há meses anda comigo. Com o mundo inteiro afetado, não apenas países pobres da África ou da Ásia, será que vai haver uma resposta global, uma maneira nova de os países se relacionarem neste momento de nacionalismo crescente em tantos lugares do globo?

Entrevistei a cientista mineira Denise Golgher, doutora em biologia celular pela Universidade John Hopkins (EUA) e pós-doutora em imunologia de câncer pela Universidade de Oxford (Reino Unido). Ela participou de um evento mundial promovido pelo jornal Financial Times aqui da Ilha, cujo tema era o desenvolvimento das vacinas contra o Covid-19. Nossa conversa foi um alento neste mar revolto de más notícias. Que a vacina é a esperança para sairmos desta pandemia, não precisava nenhuma cientista para contar, mas o que ela narrou foi muito além. A quantidade de conhecimento gerado nesta maratona pela vacina vai ter resultados positivos, que irão muito além da atual pandemia. Novas tecnologias foram desenvolvidas e elas terão impacto na criação de novas vacinas e de medicamentos para doenças crônicas, câncer e doenças neurodegenerativas. A grande questão é como se chegou a este ponto tão rápido. Ela dá a resposta: houve uma mudança na forma como se produz o conhecimento uma vez que, nas palavras da Dra Golgher “a inércia cedeu lugar à ousadia e à coragem para implementar o novo (…) a ignorância foi diminuída pela transparência, divisão e difusão de resultados. Não foi milagre, houve sim um esforço monumental de muita gente para tornar possível o que há um ano parecia impossível. Um ganho significativo para a humanidade”. A necessidade pariu a invenção. A necessidade de rever dogmas, ‘fazemos assim, porque sempre foi assim’ não funciona mais. Talvez esteja ai a resposta para minha dúvida. Inovação.

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

O inverno aqui na Ilha segue com dias cinza, chuva, lama e frio. Escolhi a foto acima, que tirei outro dia quando caminhava no parque, para terminar este texto. O pinheiro em segundo plano, quase coberto por uma nuvem gorda demais para ser leve, é a única árvore que se vê, que  não perdeu as folhas no final do outono. Uma árvore de natal que, quando o nevoeiro passar, vai estar mais à vista. Assim como o pinheirinho, o natal de 2020 também está embrulhado num nevoeiro de incertezas, medo e tristeza. Uma neblina que parece se espessar, quando lemos as notícias, quando nos indignamos com o destrato, a falta de compaixão e de competência que vemos tantas vezes na gerência da crise.

Paradoxalmente, esse tem sido também um ano de agradecer muito, pela saúde, por poder trabalhar em casa, por não faltar comida na mesa. Estar na fila do açougue conversando banalidades e não da fila do banco de alimentos é um privilégio do qual não me envergonho, mas que também me torna muito grata. Pensando na conversa com a Dra Denise Golgher, a reflexão é: neste esforço global para atravessar o nevoeiro, a exemplo do esforço pela vacina, qual é o papel de cada um de nós? Poucos são cientistas e poucos têm o poder de tomar grandes decisões. O que não significa que não podemos fazer nada. Engajar em campanhas pela internet, se indignar, mandar mensagens de Whatsapp para os nossos é tudo muito bom. Entretanto, precisamos de mais, muito mais. Precisamos agir de forma diferente. Inovar. Todo dezembro termino minha mensagem de natal desejando um ano novo feliz. Meu desejo para esse ano novo é que sejamos mais caridosos e atuantes no mundo em que vivemos. Que nossas atitudes e escolhas não ajudem o vírus a se espalhar e que possamos estender a mão a quem precisa, fazer doações em dinheiro, quando for possível, escutar de fato aqueles que precisam. Em 2021, meu desejo é que não voltemos ao que tínhamos nos acostumado a chamar de normal. Que, ao invés de um pé no passado, possamos ter os dois pés em direção a um futuro de maior compreensão, maior compaixão pelo próximo. Que quando o nevoeiro passar, possamos dizer que a humanidade, tão sofrida, se tornou um pouco mais humana e que cada um de nós pôde contribuir um pouco para essa conquista.

Que sejamos conquistadores em 2021!

  • Horas após a publicação deste post, Britânicos e Europeus anunciaram que chegaram a um acordo comercial pós-Brexit. Um presente de natal. Se é presente de grego ou não, não sei. O momento agora é de celebrar o natal. Assunto para outro dia.

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