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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

COVID e Fake News, um coquetel de enlouquecer

Acompanhar as notícias sobre a pandemia do novo Coronavirus no Brasil e aqui na Ilha tem sido interessante. No Brasil, as discussões sobre uma possível vacina dominam grande parte do noticiário. O país de origem dessas vacinas,  programa de vacinação obrigatório são alguns exemplos do que vejo por aí. Aqui não é bem assim. As notícias sobre vacina são muito mais raras. Claro que noticiaram, por exemplo, quando faleceu o voluntário brasileiro da vacina que está sendo desenvolvida em Oxford. Mas o fato é que a vacina é um sonho, uma aposta no futuro e a imprensa aqui tem se dedicado mais ao presente, com a segunda onda de contaminação pelo COVID19. O tom do momento dita que, mesmo que a vacina seja desenvolvida, que ela funcione e que seja segura, ainda vai levar um bom tempo até que a população esteja protegida do vírus. O caminho para sairmos desta enrascada é muito mais longo e tortuoso do que aquele que nos trouxe até aqui.

Vamos a um panorama do que anda assombrando essa Ilha:

No momento em que escrevo esse post, o número oficial de mortos pelo COVID19 aqui na Ilha é de 45.675 com 942 mil de casos confirmados. O problema é que o número de fatalidades voltou a subir em setembro. Em abril, no pico da pandemia, o número diário de mortes chegou a quase mil. As medidas do isolamento social funcionaram e no verão, que aqui é no meio do ano, o número de vítimas do COVID19 foi o menor, chegando a dois óbitos no dia 31 de agosto. A queda no número de mortes foi um alivio, para usar uma expressão muito comum em inglês, parecia que tínhamos saído da floresta. O governo então lançou um programa para incentivar as pessoas a comerem em restaurantes. Pagava metade do custo da comida e bebidas não alcoólicas até o valor de dez libras por pessoa, de segunda a quarta-feira. Os cabelereiros voltam a funcionar e a vida parecia estar voltando ao que era no começo do ano. Quem podia pensar que esse quadro se reverteria? Sinceramente, qualquer um com dois neurônios podia antecipar que o número de contaminações, e mortes, iria subir quando as crianças retornassem às aulas e os universitários começassem o novo ano escolar. Assim que reabriu, a Universidade de Nottingham chegou a ter 1448 casos positivos entre estudantes e professores. Muitas residências estudantis tiveram que ficar fechadas com seus moradores totalmente isolados, o que rendeu algumas cenas curiosas como a do cartaz que um estudante colou na janela que dizia: Mande nudes, maconha e comida. Cada um com suas prioridades.

A escalada no número de mortes é preocupante por vários motivos. O mais óbvio é a quantidade de dor e sofrimento que provoca. Mas não é só isso. Existe um intervalo de tempo entre as contaminações e as mortes. No dia seis de outubro, foram registrados 76 óbitos pelo novo vírus. No dia vinte e oito, ontem, foram notificados 310. A continuar nesse passo, os especialistas advertem que no fim de novembro estaremos vivendo novamente os dias assustadores de abril, estaremos novamente perto das mil mortes diárias. Tem um complicador em relação á abril, estamos caminhando para o inverno, quando o número de doentes é maior e os hospitais ficam inundados de pacientes. Se nada for feito, dezembro pode ser ainda pior do que abril.’ Isso é bobagem’, estão querendo nos assustar’, a gente lê por aí, ‘diziam que o Sistema de Saúde (NHS em inglês) ia entrar em colapso e não entrou’. Não entrou porque o governo tomou medidas para conter o avanço do vírus. O país inteiro literalmente entrou em quarentena. Quando se analisa o excesso do número de mortes no período, comparado com anos anteriores, não são apenas os pacientes de COVID19 que morreram. São outros tantos que tiveram suas cirurgias e tratamentos desmarcados, que não procuraram seu médico ou hospital por medo do novo Coronavirus. Sem nem entrar no custo social, econômico ou psicológico da pandemia, o custo para a saúde da população é altíssimo.

O governo tem tomado algumas medidas para evitar que fique ainda pior o que  já não é bom. Se vai dar certo ou não, ou se vai ser o suficiente ou não, não dá para dizer. O que se sabe é que algumas regiões estão mais afetadas do que outras. Nottinghan, onde fica a universidade com maior número de alunos contaminados, vai entrar a partir da meia noite de hoje na lista das cidades com mais restrições. O sistema é complicado. O governo evita lançar mão de um lockdown nacional, como fez antes do verão. Para Boris Johnson, não faz sentido fechar tudo em regiões pouco afetadas pelo vírus, por isso criou um sistema de camadas, que vale para a Inglaterra. País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte têm suas regras locais, para complicar ainda mais o que é confuso.

Imagine um vulcão ativo, que ainda não explodiu. Nas profundezas, o magma borbulha, no topo há apenas um gás malcheiroso escapando. Se fosse possível fazer um corte na lateral do vulcão, daria para se observar as camadas. Pois o governo aqui resolveu criar um sistema de três camadas de risco para o COVID: o médio, o alto e o altíssimo, com o magma borbulhando. Cada camada demanda um sistema de regras diferentes. Vou explicar; o sortudo que vive numa área de risco médio (1), vai ter que continuar a manter os dois metros de distância do outro em público, continuar a lavar bem as mãos e usar a máscara nos espaços públicos fechados. Nos espaços fechados são permitidos grupos de até seis pessoas. Bares e restaurantes fecham às dez da noite. Depois das 10, estabelecimentos que servem comida podem permanecer abertos apenas para o serviço de entrega. O número de convidados de casamentos e funerais continua restrito. Aulas de ginástica e esportes em ambiente fechado continuam funcionando até o limite de seis alunos por classe.

Na segunda camada (risco alto), todas as medidas acima devem ser observadas, entretanto, algumas são ainda mais restritivas: ninguém visita ninguém em casa. Ao ar livre, grupos de até seis pessoas ainda podem se encontrar. Os restaurantes continuam funcionando, mas pessoas que vivem em casas diferentes não podem assentar-se na mesma mesa e compartilhar uma refeição. O transporte público deve ser evitado quando possível.

Na camada magma incandescente (3) ninguém pode se encontrar com pessoas de outras casas, em restaurantes ou qualquer outro espaço público. Bares e restaurantes só podem funcionar para servir refeições completas,  o tradicional pacote de batata frita que acompanha as cervejas nos botecos daqui não vale. Existem também restrições quanto á sair das áreas de alto risco para outras menos arriscadas. Essas são as linhas gerais, mas existe uma infinidade de entrelinhas que não vou explicar aqui.

Londres no momento está na categoria 2 de risco. Várias cidades do norte e centro da Inglaterra agora estão no nível 3. Nada como a quarentena do começo do ano quando a mensagem era clara e valia para todo mundo: Fique em casa. O plano é resfriar o magma, evitar que o vulcão se aqueça demais e que a erupção seja inevitável. Tudo bem que a analogia do vulcão não seja a melhor. No caso do desastre natural, ao contrário da pandemia, o máximo que se pode fazer é monitorar a atividade sísmica e tentar prever quando será a próxima erupção. Mesmo assim resolvi seguir com a comparação, porque se chegarmos ao ponto de o magma explodir, aí as consequências serão desastrosas.

O natal do COVID é o grande assunto por aqui nessa semana. Vários prefeitos pressionam o governo para que haja uma recomendação única para todo o país. Fica difícil às vezes compreender de fato o que se passa. Vivo num bairro que no momento está na segunda categoria de risco. O bairro vizinho ao meu está no nível 1. Minha filha estuda numa escola que fica numa área de risco médio (1). Ela toma o mesmo trem que a amiga do bairro vizinho, as duas estão na mesma sala de aula, passam a maior parte do dia juntas mas, nessa semana de férias escolares (aqui tem uma a cada 5 ou seis semanas) elas não podem se ver em ambientes fechados. As outras colegas que vivem na zona de risco médio têm se encontrado regularmente na casa de uma ou de outra. Minha filha não anda muito feliz por não poder fazer o mesmo. Faz sentido que seja assim? Não faz. A questão é que em situações como essa nem tudo faz sentido, ou é justo. É uma daquelas horas em que só nos resta tampar o nariz e engolir o remédio amargo.

Nas portas dos estabelecimentos comerciais aqui da Ilha existe um cartaz com um código que o consumidor deve escanear  antes de entrar. Faz parte de um programa de rastreamento para monitorar os níveis de contaminação pelo novo coronavirus e evitar que ele se espalhe. Para isso existe um aplicativo do NHS. Além de fazer o check in em lojas, cafés e restaurantes, o aplicativo tem uma lista para o usuário checar os sintomas da doença, ler as últimas recomendações do sistema de saúde, saber o nível de alerta da região onde vive e um ícone para informar o resultado de algum exame de COVID19 que o usuário tenha feito. A ideia é que se forme uma rede informações. Funciona assim, vamos supor que eu fui ao café do bairro no dia dez de outubro, às 11 da manhã. Fiz o check in no meu aplicativo e, no mesmo café, naquela hora, estava um cliente, que mais tarde testou positivo para o novo vírus. Pelo sistema, eu seria avisada sobre os riscos que corri, para que me isolasse e procurasse um teste. Na teoria funcionaria assim. Na prática existem alguns empecilhos para o sucesso desta empreitada. A maior deles é que o sistema funcione de fato. O que ainda não aconteceu. O número de pessoas que são rastreadas e avisadas sobre os riscos é risível. Vi recentemente discussões sobre baixar ou não o aplicativo no celular. Tem gente diz que não baixa de jeito nenhum, porque não quer que o governo fique espionando a vida deles. O curioso é que essas discussões acontecem justamente no Facebook. O nível de desconfiança com o governo é tão alto, que essas pessoas permitem que um bilionário americano saiba tudo sobre suas vidas, mas afirmam que não podem participar de um programa de rastreamento do COVID, porque não confiam num governo democraticamente eleito. A conversa que rola na rádio peão é de que o governo faria mundos e fundos com as informações que espionaria dos indefesos cidadãos. Quando, de fato, o aplicativo é tão ineficiente que não dá conta nem de rastrear as informações a que se propõe.

O que não quer dizer que o governo seja santo. Muito longe disso. O governo de Boris Johnson gastou 12 bilhões de libras (cerca de R$90bi) para desenvolver o sistema de teste e rastreamento que não funciona (o NHS conta com 7bi por ano para manter os prédios onde funcionam os hospitais e para comprar equipamentos). Tudo numa ação camarada entre amigos de Boris, sem experiência em políticas de saúde pública. O governo anunciou recentemente que vai parar de fornecer merenda de graça para os alunos pobres, alega que repassou verba para que as administrações regionais cuidem do problema. Para alimentar esses estudantes de baixa renda até o fim do ano escolar, o governo gastaria menos de 1% do valor gasto na criação e manutenção do sistema de rastreamento do COVID19.

Existe um plano de implantação de testes de resultado rápido nas escolas, para que se monitore os níveis de contaminação pelo vírus e assim permita que as aulas não sejam interrompidas tão frequentemente, como vêm acontecendo. Junto com o anúncio deste plano de ação, começaram a surgir notícias falsas de que isso seria um plano governamental para separar as crianças de suas famílias. Um pesadelo de distopia daqueles que a gente vê na ficção ou nos Estados Unidos onde mais de 500 crianças, filhos de imigrantes ilegais, continuam encarceradas, separadas de seus pais que foram deportados.

As notícias sem fundamento, que alimentam o medo das pessoas, que aumentam o nível de desconfiança com o governo, na prática muitas vezes desviam o foco do escândalo que pode estar bem debaixo do nariz. A crise pandêmica que vivemos é tão nova quanto o vírus que a gerou. Estamos aprendendo a andar de bicicleta andando. Estamos significa, cidadãos, governos, serviços de saúde, médicos. As informações são desmentidas e atualizadas a todo momento, na medida em que se tem mais conhecimento sobre o problema e como enfrentá-lo. Não há dúvidas de que no futuro, ao olharmos para trás, compreenderemos que muitas coisas poderiam ter sido melhores. O custo da desinformação, que nos acostumamos a chamar de fake News, esse sim será altíssimo.

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