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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Covid e literatura

A você que segue o Blog da Ilha, minhas desculpas. Faz tempo que não posto nada por aqui. O tempo Covid é diferente. A quebra das rotinas, a imprevisibilidade, a instabilidade e o medo. Medo sim, porque no fim das contas, essa é uma doença que ameaça o que temos de mais precioso: a vida. Hoje resolvi dar uma ‘geral’ sobre a situação aqui na Ilha e compartilhar uma novidade. Vamos lá:

Depois de meses com a mensagem clara e direta ‘Fique em Casa’, aos poucos a vida foi retornando ao que era antes da pandemia, por aqui nesta Ilha. O número de casos e, principalmente de mortos, caiu drasticamente em julho/agosto. Mas esta não é uma vitória que se comemora de coração leve. É preciso voltar um pouco no tempo. No começo da pandemia, lá em março, o governo resolveu que tinha que vagar o maior número possível de leitos nos hospitais. Cirurgias que não eram de emergência foram canceladas, exames adiados. Anos atrás passei uma sexta à noite acompanhando uma pessoa na emergência de um grande hospital público de Londres. Eu esperava ver muitos bêbados e jovens, por causa do dia e do horário. O que vi foi que a grande maioria dos pacientes era de idosos. Os idosos em tempos normais ocupam mais de 70% dos leitos hospitalares por aqui. Com a determinação de vagar leitos, esses idosos foram mandados para asilos. SEM SEREM TESTADOS! O que aconteceu foi uma tragédia. Muitos deles estavam contaminados pelo novo coronavirus. A analogia que me vem à cabeça é aquela isca de matar formiga que uma delas leva para o formigueiro e acaba destruindo toda a colônia. Essa política desastrosa do governo de Boris Johnson custou milhares de vidas. De acordo com o Office for National Statistics (o IBGE daqui) 66 mil idosos morreram em asilos entre março e julho, apenas na Inglaterra e País de Gales (Escócia de Irlanda do Norte não entraram nessa conta). Comparado com o mesmo período do ano passado houve um excesso de trinta mil mortes. Covid19 foi a principal causa de morte entre os idosos do sexo masculino, dois em cada três foram vítimas da doença. Entre as mulheres apenas o Alzheimer matou mais do que o novo vírus.

O verão chegou e com ele o desejo de sair, encontrar os amigos e de aproveitar a vida. Aqui na Ilha, o uso de máscaras só se tornou obrigatório no dia 24 de agosto, mesmo assim apenas para entrar nas lojas e no transporte público. O número de casos voltou a subir, principalmente entre a população jovem e tem se mantido estável entre os com mais de 70 anos.

Agora no começo de setembro, as escolas reabriram. Em algumas delas existe a exigência de se use máscaras nos corredores e nas áreas onde há aglomeração de estudantes. Em outras, nem isso. Os alunos só podem ficar juntos dos colegas que estejam no mesmo ano escolar. Eles têm entradas separadas, recreios em horários diferentes. As escolas instalaram mais pias e antes de entrar e sair da sala de aula, os alunos limpam as mãos com álcool em gel. Além do problema com os idosos em asilos, este governo tem outro calcanhar de Aquiles, quando se trata de coronavirus: o sistema de testes. Desde o começo da pandemia os testes têm sido insuficientes, apesar do Health Secretary (o ministro da saúde daqui) garantir que vai aumentar a capacidade de realiza-los. Ele e o primeiro-ministo Boris Johnson prometem que vão chegar ao número de um milhão de testes por dia. Ninguém mais cai nessa. Mais fácil Papai Noel vir fazer uma visita ainda no outono e trazer de presente uma vacina mágica.

Semana passada, minha filha teve febre de 38.5C. Durou menos de vinte e quatro horas. Para mim era só uma gripe de mudança de estação. O negócio é que febre alta é sintoma de Covid19. Por isso, para retornar à escola, ela precisaria de um teste. Começava uma saga. Procurei a escola, lá não tinha. O médico generalista da minha família recomendou que ela fizesse o teste. Na clínica também não tinha. O único jeito era marcar através da página oficial do governo na internet. Em tese havia três opções: eles mandariam um kit para que o teste fosse feito em casa. Nós iríamos até um centro onde um técnico recolhe o material com o paciente dentro do carro, e, finalmente poderíamos ir para uma consulta, no caso de não termos carro. Tudo lindo. Tudo esgotado. Uma mensagem dizia que o sistema estava com muita demanda e que tentássemos mais tarde. Foram cinco dias tentando, muitas vezes por dia e até de madrugada e nada. Sem o teste, não só ela teria que ficar em isolamento como todos os que moram com ela, teriam que se isolar durante 14 dias. Posso dizer em primeira mão que não estava nem um pouco satisfeita com a resposta. Numa das dezenas de tentativas, apareceu a opção de leva-la a um centro que fica a 46 milhas daqui de casa (coisa de 74km). Ainda cogitei dirigir quase 150km. Enquanto eu pensava, a opção desapareceu.

Depois de semanas sem atualizar o blog, gostaria de dizer que tudo vai bem aqui na Ilha, mas… o Brexit está embolado como nunca deixou de estar desde o plebiscito de 2016 (isso é assunto para outro post). Com o inverno chegando e as doenças que vêm junto com o frio, com a vida retornando ao normal e sem um sistema eficiente de testes para o Covid19, o cenário não é muito animador. Algumas escolas já começam a mandar para casa os alunos como medida de segurança, para evitar um aumento rápido de casos na comunidade. O que fazer se há uma suspeita que não pode ser verificada por falta de teste? Outras escolas não têm como manter os professores trabalhando. Se eu fosse professora, teria que me isolar com a minha filha por 14 dias. Como é que as escolas podem continuar abertas sem funcionários? Esta mesma pergunta pode ser feita para outros setores também. Asilos, comércio, fábricas. Como é que se anuncia a reabertura das atividades sem que o sistema de testes esteja funcionando corretamente?

Neste 2020, tempo de Covid, as notícias começam a se embolar e a se repetir. Pandemia. Brexit. Parece um daqueles brinquedinhos de corda que giram sem sair do lugar. Uma sensação de estar empacado. Andei dando um tempo aqui no Blog e escrito mais ficção do que realidade. Esta semana saiu o meu livro Câmera Obscura, que concorre ao Prêmio Kindle de Literatura. O Câmera Obscura ‘grudou’ em mim depois de uma viagem a Portugal e não me largou até que eu escrevesse o romance. Ele conta a história do pescador Inocêncio, que ao ficar cego começa a ouvir uma voz feminina e se lança numa missão que ele nem compreende. É também a história da alemã Johanna Zeiss, herdeira de um império de instrumentos ópticos e de Alcides, um fotógrafo lambe-lambe que observa as mudanças do mundo pela lente de sua câmera. As trajetórias destes três personagens se cruzam numa terra lusitana de andorinhas cantoras, sereias melancólicas, desterros e paixões.

Publicar um livro neste momento é para mim como dar à luz um filho. Nada melhor que um bebê para nos lembrar que as horas não param e que cada dia é único. Que o tempo não é Covid. Os livros têm sido fundamentais para mim neste ano. Na literatura, o tempo e o espaço só entram em quarentena se o autor quiser. Como diz um amigo muito querido: alguns livros não deveriam ser recomendados, deveriam ser prescritos.

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