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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Não estamos no mesmo barco

“A linguagem ao redor do COVID-19 por vezes é banal e enganosa. Você não sobrevive à doença com força de vontade e de caráter, como o time do governo tem dito. E a doença não nivela todo mundo, as consequências não são as mesmas para os ricos e os pobres. Este é um mito que precisa ser descontruído. Aqueles que estão na linha de frente, motoristas de ônibus, aqueles que mantêm as prateleiras cheias, enfermeiros, cuidadores, funcionários de hospitais e aqueles que trabalham nas lojas, aqueles que estão entre os trabalhadores que desproporcionalmente ganham menos, eles têm mais chances de contrair a doença, porque estão mais expostos. Aqueles que vivem em prédios e apartamentos pequenos vão achar mais difícil a quarentena. Aqueles trabalhadores braçais, que não podem trabalhar de casa. Isso é um problema de saúde com enormes ramificações para o bem-estar social. E é também um problema social com enormes ramificações para a saúde pública. Hoje, quando a França entra em recessão e a Organização Mundial do Comércio adverte que a pandemia pode provocar a mais profunda crise econômica de nossas vidas, perguntamos que tipo de ação social precisa acontecer para impedir que a iniquidade se torne ainda mais rígida.” Emily Maitlis, jornalista âncora do jornal Newsnight da BBC na edição de ontem à noite.

Jornalista Emily Maitlis

O texto do editorial acima tem repercutido aqui na Ilha. A linha do devemos ou não fazer o isolamento social já foi cruzada faz tempo por aqui. Discussão velha. Boris Johnson, o primeiro ministro, que desde domingo pena com o COVID-19 numa cama de UTI, demorou para decretar a quarentena. Por isso, tem sido alvo de muitas críticas. Quanto mais cedo entram as medidas que restringem o movimento de pessoas, melhor para reduzir o número de infectados e de mortes provocadas pela doença. As estimativas são todas horrorosas. A mais boazinha (uma versão atualizada do Imperial College, depois que a quarentena começou a valer) é de que morrerão pelo menos vinte mil pessoas, infectadas pelo novo coronavírus no Reino Unido até o mês de agosto. Isso se o isolamento social continuar. O governo admite que ainda não sabe quando vai suspender a quarentena.

A questão é que estamos saindo de um inverno chuvoso e cinza. No fim de semana da páscoa, a temperatura deve chegar aos 25 graus em algumas regiões. Em outros tempos, uma multidão estaria se preparando para passar o feriado na praia, para tirar o bolor acumulado do inverno. Ontem este país registrou o maior número de mortes em 24horas: 938, elevando o total anunciado pelo governo para 7 097. Uma conta que, segundo o IBGE britânico, pode estar sendo muito econômica. A demora em se notificar os óbitos e a maneira como se contabilizam as vítimas faz com que o Office for National Statistics acredite que o número de mortos seja quase o dobro daquele que o governo notifica todos os dias. Nessa conjuntura, a repressão policial aos que tentam furar a quarentena vai ser intensa, avisa o governo. Os parques ainda estão abertos, mas apenas para que as pessoas se exercitem. Muitos bancos de praça foram isolados com fitas de proteção para que ninguém tenha a ideia de parar um pouco para aproveitar um solzinho. A regra é que podemos sair uma vez por dia, no máximo por uma hora, para fazer exercícios físicos, caminhadas, corridas, e, mesmo assim, devemos manter os dois metros de distância uns dos outros. Pela etiqueta do novo Coronavirus, atravessar a rua para não topar com outra pessoa passou a ser a coisa mais educada e gentil que se possa fazer.

Também é notícia aqui uma ‘live’ do príncipe William e sua esposa Kate conversando com criancinhas de uma escola primária. As escolas estão fechadas desde o dia 20 de março. Fosse esse um ano ordinário do calendário escolar, o herdeiro do trono inglês não estaria falando com criancinhas na escola em pleno feriado de páscoa (que teria começado na segunda-feira). As escolas estão fechadas para a maioria dos alunos, mas algumas delas ainda recebem os filhos dos trabalhadores considerados estratégicos para que o país não pare, o que inclui os profissionais da saúde, motoristas de ônibus, entregadores, carteiros, operários de fábricas que produzem alimentos, supermercados e lixeiros. Aqueles que a Emily Maitlis citou em seu editorial.

O casal na linha de frente da realeza agradece àqueles profissionais que exercem atividades essenciais. Crianças decoram as janelas de suas casas com arco-íris desenhados para enfeitar de doçura a dureza dos dias. Batemos palmas em apoio àqueles que se arriscam para que possamos ficar confortáveis dentro de casa à espera de que a tormenta passe. Cada gesto é importante. A escola pública onde minha filha estuda tem mais de mil alunos. A família de cada um deles recebeu pelo menos um telefonema da escola para saber se está tudo indo bem. O diretor mandou uma carta para que os pais mantenham a calma, pois o exemplo que estão dando na crise é o que vai ficar. Seja ele bom ou ruim. Todos estes símbolos e pequenas ações são importantes para que sigamos em frente, contudo, como alerta a OMC, vem chumbo grosso por aí. Infelizmente, teremos fartura de notícias ruins.

Aqui nesta Ilha o mantra da última década tem sido equilibrar as contas, ainda que os programas sociais sejam cortados, que as escolas tenham que inventar soluções para não fecharem suas portas e o serviço de saúde ande na corda bamba com uma espada dependurada sobre a cabeça. Moro na Inglaterra desde 2002. Não me lembro de ver tantos dias de céu azul, como tenho visto desde que a quarentena começou. A natureza tem agradecido o pé do freio. Entretanto, se os governos não tomarem providências para diminuir as diferenças sociais e se não buscarem soluções novas, a ferida, que o novo Coronavirus deixa exposta, pode levar muito tempo para cicatrizar . Afinal, podemos todos estar no mesmo mar revolto, mas não estamos no mesmo barco.

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