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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Coronavírus: líderes e bufões

Começou com o racionamento de combustível, bacon, açúcar e manteiga. Dois anos depois, carne, leite, ovos, queijo e banha entraram na lista. O povo daqui da Ilha começou então a plantar legumes e tudo mais que fosse comestível. Principalmente batata. Qualquer lata vazia estava valendo. Uma nação de dedos verdes. O mundo estava em guerra, a segunda no século XX. Não precisa ser tão velho assim para ter na lembrança as cadernetas de racionamento. Quem aqui nesta ilha nunca ouviu falar delas? Elas valeram até o ano de 1958. O chamado Food Ministry (similar ao ministério do abastecimento) produzia livrinhos de receitas com pouquíssimos ingredientes para as donas de casa. Os ingleses até hoje justificam sua culinária menos inspirada dizendo que tiveram que fazer muito com pouco, durante muito tempo.

O mundo está novamente metido numa guerra. Quem é que não ouviu essa nos últimos dias? O inimigo, o novo coronavírus, que bagunça a produção de alimentos e outros bens de consumo e fecha fronteiras. Quando o sapato começou a apertar no lado de cá do Canal da Mancha, os consumidores saíram às compras. Em massa. Uma célula atávica na memória das famílias britânicas foi ativada por uma tempestade elétrica: vai faltar comida. É praticamente impossível resistir à tentação de não querer estocar alimentos. Semana passada num supermercado, o que eu via era pessoas enchendo o carrinho e dizendo umas paras outras: isto é ridículo! Como se cada uma delas, e me incluo nesta lista, não estivesse fazendo exatamente o que criticavam. Ninguém quer ser o último a abandonar o navio. Vi uma latinha de tomate na prateleira. Era a última. Eu não planejava comprar uma, mas, quando vi que todas as outras tinham sido vendidas, agarrei a minha, antes que ela sumisse. É assim que funciona. É como o sujeito que preso no engarrafamento, reclama do excesso de carros na rua.

Os serviços de delivery dos supermercados estão lotados. Há dias tento marcar uma entrega e não consigo. Tenho bons amigos, que precavidos se anteciparam à crise e marcaram várias entregas. São eles que se oferecem para incluir itens em suas compras para que não falte nada aqui em casa. Mas a generosidade não inclui leite e ovos e macarrão. Tenho recebido também e-mails das duas maiores redes de supermercados aqui da Ilha. Os supermercados abrem de manhã, e na primeira hora de funcionamento atendem apenas aos idosos e funcionários do NHS, o SUS daqui. Para evitar que as lojas fiquem lotadas, o número de clientes é controlado. Do lado de fora, uma fila com consumidores mantendo-se a dois metros de distância uns dos outros. Leite, ovos, manteiga, papel higiênico, macarrão e comida de cachorro e de gato são apenas alguns que já estão sendo racionados. Duas unidades por cliente.

Semana passada tirei a foto abaixo. Ela mostra a vitrine de uma loja de pacotes turísticos. Uma pilha de rolos de papel higiênico com a mensagem: “papel higiênico, 629 libras por pessoa. Vem com férias grátis para Nova York”. Passei em frente da loja no domingo. A pilha foi de onze rolos para três. De duas uma: ou o povo está comprando pacotes turísticos para os Estados Unidos como se não houvesse nada melhor para fazer, ou alguém anda passando aperto. O anúncio da loja, não dá para negar, era bem humorado.

Muito menos divertido é um artigo publicado pelo jornal Independent, no qual o professor Erik Milstone, da Universidade de Sussex, afirma que trinta anos atrás os supermercados tinham um estoque de 10 a 12 dias. Hoje em dia, este estoque é de apenas dois ou três dias. A Ilha que se alimentava de batatas e tortas pesadas com muita farinha e pouca manteiga, desenvolveu gostos mais refinados desde a última grande guerra que enfrentou. É só ir a um supermercado para ver que as coisas mudaram e muito. São corredores de comidas mediterrâneas, asiáticas, caribenhas, vegana… Falta de ingredientes não é mais desculpa para culinária insossa. O fato é que ficamos muito mal-acostumados por aqui. Ou muito bem acostumados. Vai do ângulo que se olha. Esta Ilha, que durante a Segunda Guerra dependia enormemente das importações de alimentos para sobreviver, agora depende muito mais: a população, além de ter desenvolvido hábitos de consumo mais sofisticados, cresceu significativamente (de 48.67milhões em 1945 para 66.4 milhões 2018). Vi na tevê a entrevista com uma fazendeira, que é a maior produtora de alface desta Ilha. Ela está arrancando os cabelos. Todos os anos, milhares de trabalhadores europeus chegam aqui para trabalhar na colheita de alimentos. Ela acha que eles não virão e sua safra corre o risco de apodrecer no campo. Por isso, fez um apelo aos que estão temporariamente desempregados por causa da quarentena para que ocupem os empregos no campo e assim mantenham a produção. Este era um dos temores daqueles que não queriam o Brexit; a falta de mão de obra em setores estratégicos, como na agropecuária e serviço de saúde.

Brexit, de uma hora para outra, os três anos de discussões sobre o tema se tornaram café pequeno. A pandemia é o Brexit elevado à vigésima potência. Por isso, o professor Erik Milstone, juntamente com um grupo de professores de outras universidades enviou um documento ao primeiro-ministro Boris Johnson para que o governo tenha ações mais duras em sua resposta ao acumulo de alimentos por parte da população. Eles advertem: 8.4 milhões de cidadãos correm o risco de passar fome e os bancos de alimentos não vão dar conta de alimentar essa gente toda. É muito improvável que os estoques de frutas e saladas que vêm da Espanha e da Itália se mantenham inalterados. Os professores fizeram algumas sugestões: considerar a tabela de alimentação saudável e garantir que estes alimentos cheguem à população mais vulnerável e aos que estão isolados em quarentena. Precisamos garantir que nossas reservas de alimento sejam distribuídas de forma justa, eles concluíram.

O governo negou que haja problema de abastecimento. Não poderia ser diferente. O medo da falta de produtos poderia provocar uma corrida ainda maior aos supermercados. É preciso tomar cuidado com o que se fala. O governante precisa ser responsável nesta hora.

Li, recentemente, o livro ‘A barata’ do Ian McEwan (publicado no Brasil pela Companhia das Letras). É uma novella, um livro pequeno, entre um conto e um romance. Conta a história de uma barata que sofre uma metamorfose e se transforma no primeiro-ministro britânico. Um Kafka ao contrário. O livro começa dizendo que qualquer semelhança com outras baratas é mera coincidência. Apesar disso, é óbvio ululante que o livro é uma dura crítica ao Boris Johnson e sua atuação no processo do Brexit. O novo coronavírus fez o livro envelhecer quase que instantaneamente.

Diariamente, o primeiro-ministro tem feito uma entrevista coletiva com as últimas da crise atual. Vi a  mais recente, ainda ontem, e fiquei surpresa com a metamorfose de Boris Johnson. Sua linguagem corporal mudou. Ele deixou a persona palhaço no armário. Não patina mais nas frases, não faz discurso de bufão, não faz graça. Deixou de fazer o gênero maluquinho. Na coletiva, que a BBC tem transmitido ao vivo, o primeiro-ministro, o ministro da saúde e a cientista chefe do governo, os três mantendo os recomendados dois metros de distância entre si. Os jornalistas aparecem num telão, que lembra um episódio de Jornada nas estrelas. O Boris bem-comportado passa a bola para os especialistas responderem às perguntas técnicas. No dia 31 de janeiro, esta Ilha saiu oficialmente do bloco europeu. Boris propôs na época uma vaquinha para fazer com que os sinos do Big Ben pudessem badalar para marcar a ocasião. O Big Ben está em reforma e a extravagância custaria meio milhão de libras. A campanha entrou no esquecimento ao falhar em arrecadar o dinheiro. Mais uma do gênero vergonha alheia. Acelera o filme e menos de três meses depois, o premiê britânico lança outra campanha: o NHS precisa de duzentos mil voluntários para sobreviver ao novo coronavírus. Em menos de vinte e quatro horas, havia o dobro de voluntários solicitados. Mais de meio milhão de pessoas se apresentaram para entregar medicamentos e suprimentos, telefonar para pessoas isoladas e transportar pacientes para consultas. O Boris das ideias desconjuntadas se apresenta agora como líder, que, graças ao velho espírito dos anos duros da Segunda Guerra, apela para a união do povo.

O que mais se ouve por aqui é a palavra ‘unprecedented’, sem precedentes. É tudo muito novo, desolador, instável. Espanha e Itália já ultrapassaram o número de mortos na China pelo COVID-19. Aqui na Ilha, os hospitais começam a ver pacientes mais jovens e sem histórico de doenças crônicas. O número de mortos vai subir muito ainda, até que a curva comece a descer. A vida como estávamos acostumados não existe no momento. Vai ser interessante observar como o primeiro-ministro vai se comportar nas semanas difíceis que vêm por aí. O modo de agir e reagir nesta pandemia vai separar os líderes dos bufões. Os mesquinhos dos altruístas.

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