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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Vida em pandemônio

Pandemônio. Uma palavra que se originou aqui na Ilha, Made in England mesmo: tem origem inglesa pandemonium, através do radical grego pân, que significa “todo”, + o termo grego daímon, que significa “demônio”, que é um neologismo criado pelo poeta inglês Mílton (1608-1674), no seu “O Paraíso Perdido” (Shangri-lá), para designar o palácio de Satã. É também o designativo para a capital imaginária do Inferno. O mesmo que tumulto, balbúrdia, confusão.

Pandemia. Uma epidemia que se alastra de forma desequilibrada, se espalhando pelos continentes,  pelo mundo. Se a vida fosse um jogo de Super Trunfo, seria a carta maior, vale mais que uma endemia, quando a doença existe numa determinada região (é pequena ou não sobrevive em outras regiões). Ganha também das epidemias, que acontecem quando a doença se espalha em algumas cidades e regiões.

Assim, a olho nu, as duas palavras têm em comum o prefixo ‘pan’, todos/todo, mas a gente sabe que é muito mais do que isso. O que alinhava as duas é a desordem, o descontrole, o imponderável. Lidar com o que não se pode controlar é uma ameaça. Um amor pode ser ameaçador, por fazer com que o apaixonado perca a sensação de controle, entretanto o que anda pegando não é a vida, é o medo da morte. A vida, de uma maneira inesperada (cheia de distopia como nos livros, filmes e séries que povoam o nosso imaginário nesta segunda década do século), está em pandemônio.

Acaba de sair um estudo conduzido por cientistas do Imperial College London no qual eles usaram dados sobre o coronavírus na China para fazerem modelos computadorizados com diferentes cenários para tentar prever os casos de COVID-19 aqui na Ilha. No primeiro cenário, o pior deles, caso o governo não tome nenhuma providência para combater a pandemia: estima-se que meio milhão de pessoas poderão morrer em decorrência da doença até o mês de agosto. Que ninguém se engane, é a pior crise de saúde desde a gripe espanhola de 1918, quando cerca de 20 milhões de pessoas morreram mundo afora. Outra possibilidade é promover ações, como pedir que as pessoas só saiam de casa se necessário, que poderiam adiar a contaminação. Neste caso, o número de óbitos cairia pela metade, duzentos e cinquenta mil! É um punhado de gente. Um bocado de dor e sofrimento. Finalmente, essa Ilha poderia fazer o que quase todos os países europeus já fizeram: fechar as fronteiras, as escolas, o comércio, enfim, barrar a circulação de pessoas, e consequentemente do vírus.

Os britânicos e os brasileiros têm em comum um certo desdém por seus vizinhos. Assim como nós temos, digamos, uma dificuldade em nos dizermos sul-americanos, os súditos da rainha não se consideram assim tão europeus. Dirigem do lado errado, lembra? Mas é isso? O governo está adiando o fechamento das escolas e do comércio para ser diferente*? Excêntrico? Vivemos tempo de pandemônio. Quando o nevoeiro baixar e olharmos para trás, talvez chegaremos à conclusão de que as coisas poderiam ter sido diferentes, que poderíamos ter feito mais. Ou melhor. Não há no momento nenhuma escolha fácil. Não tenho muita simpatia pelo primeiro-ministro Boris Johnson, mas também não queria estar na pele dele. As férias escolares de páscoa (mais ou menos uns vinte dias em abril) começam na sexta-feira dia 4. Tem pouca gente apostando que as escolas permanecerão abertas até lá. Algumas delas começaram a cancelar as aulas de alguns anos letivos, alegando que muitos professores e funcionários estão em casa de quarentena, cuidando de parentes com tosse, febre, etc, doenças que podem não ter nada a ver com a pandemia, mas que ninguém é irresponsável de ignorar.

A estratégia do governo, até o momento em que escrevo este texto, é de tentar desacelerar os níveis de contaminação. Mas por que não fecha a loja de vez? Porque existem aqueles que acreditam que esta seja a melhor estratégia, evitar que o pico da doença ocorra muito rápido e alto. O plano é que, se tudo sair como o esperado, mais pessoas irão ter uma forma branda da doença e assim formar uma imunidade natural nas populações. O NHS, o SUS daqui, penou para dar conta do serviço neste inverno, as metas de atendimento de pacientes foram as piores dos últimos dez anos, isso antes do coronavírus assombrar. De acordo com informações que chegam da Itália, 30% dos pacientes hospitalizados pelo vírus necessitam de cuidados intensivos. Estima-se que esta Ilha irá precisar de vinte e cinco mil aparelhos de respiração artificial, daqueles de UTI. No momento, existem cinco mil. O governo fez um apelo às indústrias, inclusive à automobilística, para que produzam os aparelhos. Tenho um conhecido que tinha uma cirurgia marcada para semana passada. Ele tem um câncer no cérebro. A família, é óbvio, está desesperada. A operação poderia aumentar seu tempo de vida. O procedimento foi cancelado. Sem previsão de quando e se ocorrerá. Os hospitais têm que fazer o possível e o impossível para manter os leitos livres nos Centros de Tratamento Intensivo. A clínica do meu bairro cancelou todas as consultas. Médicos de todas as especialidades foram avisados que talvez sejam convocados a atuar em áreas que não as de suas especialidades. Funcionários administrativos dos hospitais também já sabem que talvez tenham que empurrar macas, ou limpar o chão. Um dos problemas de se fechar as escolas, como a Itália fez, é que profissionais de saúde, sem ter com quem deixar os filhos, não poderão ir trabalhar. Tenho uma amiga médica infectologista. Semana passada mandei uma mensagem para ela. Ela não respondeu. Nos vimos brevemente no sábado. Ela está um caco. Não tem tempo de nada, está assustada. Sabe, em primeira mão, o chumbo grosso que vem por aí. O marido, que é chefe do departamento de alergias de um grande hospital público, agora atente via Skype.

A quarentena ainda não é compulsória, as escolas, por ora, permanecem abertas, mas a vida mudou. Os trens circulam vazios. As prateleiras dos supermercados estão vazias. Recebi e-mails da cabelereira, do mecânico, de companhias aéreas, todos tentando não perder o cliente. Meu vizinho tem um daqueles táxis pretos de Londres. O homem trabalha de segunda a sábado. Sai às seis da manhã, volta tarde. O motor barulhento de seu carro é nosso despertador. Faz dois dias que ele nem se dá ao trabalho de sair de casa. Não vale a pena, ele me contou. Fico queimando combustível por nada. Ontem à noite, conversei com um brasileiro que está morando aqui faz um tempo. Trabalha com sua motocicleta fazendo entregas, como tantos outros brasileiros. Trabalhava. Não tem mais trabalho. Está apavorado. Trocávamos mensagens enquanto ele esperava para ser atendido na emergência de um hospital. Estava com uma crise de bronquite. Fazia tempo que não tinha uma. O governo prometeu uma ajuda de 95 libras por semana, não dá nem para pagar o aluguel. Ele quer vender a moto, alguns pertences e voltar para o Brasil. Disse que precisa de umas duas semanas para se reorganizar. Duas semanas em tempo de pandemônio é uma eternidade. As fronteiras estarão abertas? Os aviões estarão voando da Europa para o Brasil?

Tem também os velhinhos, né? Nesta Ilha, ainda nos tempos pré-pandemônio, eles ocupavam dois terços dos leitos nos hospitais. Ontem ouvi no rádio um homem de 73 anos dar seu depoimento. Disse que é ativo, saudável, aposentado e faz um trabalho voluntário. Outro dia, escutou na rua que era egoísta por não estar em casa de quarentena. Na sua idade, ele ouviu, você se coloca em risco e pode acabar tirando o lugar de outra pessoa que precise. Fiquei incomodada com esta história. Vamos lá. Tem alguns ângulos interessantes:

A pandemia do coronavírus tem, não consigo deixar de pensar, muitas similaridades com o momento em que vivemos. A primeira e mais óbvia é seu caráter de distopia, de falta de sonhos, que já citei acima. Talvez  o sentimento seja causado pelo crescente ateísmo. Deus saiu do cardápio. Nas igrejas daqui o que se vê são padres e vigários anciões que não podem se aposentar, simplesmente porque não existem candidatos para tomarem seus lugares. Ou talvez, seja resultado do excesso de informação, que cria a falsa impressão de que a ciência e a tecnologia vão dar conta de tudo. Uma descrença generalizada. Não sei.

Mas tem um outro ponto chave que a fala do aposentado deixou claro: o valor que atribuímos a quem não é produtivo, bem-sucedido. O valor está no sucesso. O pobre, o velho, o doente, são todos menores. Escancaramos nossos sucessos (reais ou fabricados à custa de um recurso tecnológico aqui, outro ali) nas redes sociais o tempo todo. Vemos umas feiuras nos comentários de quem desmerece quem ‘não está por cima’. A vida de um velho vale menos, porque custa mais dinheiro, ou porque eles rendem menos. Fazemos cirurgias plásticas, dietas malucas, corremos maratonas para ver se seremos capazes de vencer a velhice e a morte. Os velhos que não atrapalhem nossas contradições de imortalidade.

Tem outros valores que o coronavírus parece reforçar, como o do nacionalismo. Fechemos as fronteiras, deixemos o inimigo de fora. O governo de Boris Johnson tem extraditado pessoas que não têm cidadania britânica e cometeram crimes aqui. Alguns casos são de pessoas que viveram aqui desde criança, não têm nenhuma ligação com o país de origem de seus pais e que cumpriram suas penas judiciais por aqui. Ao se livrar destes indesejados, o governo reforça a mensagem de que está sendo duro contra o crime, afinal, o perigo vem de fora, é o estrangeiro o culpado por nossas falhas.

Fiquei pensando também na pessoa que deu a bronca no aposentado do rádio. Vivemos no tempo da individualidade. Meus direitos. Eu demando, eu posso, eu quero. Tenho o direito de escolher se vacino ou não meus filhos. Sou mãe/pai, sei o que é melhor para eles. É bom que muitos dos direitos individuais sejam valorizados, mas o que aconteceu com o coletivo? Nos isolamos em casa, vivemos a vida via internet (pelo visto viveremos ainda mais em tempos de quarentena). Nos isolamos e nos enfraquecemos assim como conjunto. Como sociedade. O que aconteceu mesmo com o ‘juntos somos mais?’

De certa forma este post repete um pouco o sentimento do texto de fim de ano que publiquei aqui. É que não consigo deixar de pensar no imponderável também. Os moradores da minha rua, muitos deles só conhecia de vista, resolveram se organizar e criaram um grupo no Whatsapp. Caso alguém tenha que ficar de quarentena, os vizinhos estão se agrupando para que que ninguém passe aperto desnecessário. Em tempos de pandemia, ou de pandemônio, temos a chance de voltar, na marra, aos valores que são realmente importantes.

Que nossos olhos e corações estejam abertos.

 

  • O governo acaba de anunciar (na tarde do dia 18.03) que as escolas estarão fechadas por tempo indeterminado e que os exames nacionais, o Enem daqui, também estão cancelados.

6 thoughts to “Vida em pandemônio”

  1. Texto sempre impecável, minha amiga. Traduz muito bem o momento, de diferentes ângulos. Mas, plagiando Chico Buarque: “o que eu quero lhe dizer é que a coisa aqui tá preta”. Um louco comanda o País, como um personagem de ópera-bufa em meio a um cenário trágico.

  2. Ei, Duda. Saudades do CSA…..gosto muito de ler os seus artigos. Tempos muito difíceis e incertos. Tenho fé de que possamos ressurgir “reciclados”. Um beijo, Leninha

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