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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Fé, sim!

Sexta-feira, treze de dezembro. Nas manchetes dos jornais, a vitória do primeiro-ministro Boris Johnson. Que seu partido Conservador levaria a melhor nas eleições do dia anterior não foi surpresa para ninguém. O tamanho da vitória deixou muita gente de queixo caído. O principal oponente dos Conservadores, os Trabalhistas, teve o pior resultado desde 1935. É preciso parar um pouco para entender o que aconteceu aqui na Ilha. Depois de nove anos de um governo Conservador de austeridade, muitos cortes nos programas sociais e arrocho, era de se esperar que a oposição se saísse melhor. Mas não.

Tem muita gente fazendo desta eleição um cabo de guerra entre direita e esquerda. É muito mais complicado do que isso. O tema mais quente desta eleição foi o Brexit, a saída da Grã-Bretanha do bloco europeu. Essa novela se arrasta por aqui desde o fatídico plebiscito de 2016. Na época, aqueles que queriam a saída venderam para o eleitor a ideia de que seria sopa no mel, ou para usar uma expressão que o primeiro-ministro parece adorar: vamos ficar com o bolo e comê-lo. Tudo muito lindo e descomplicado. Exatamente o contrário do que a realidade acabou provando.

Boris Johnson mente. Mente um bocado. Nem os parlamentares de seu próprio partido acreditam no que ele diz. Um exemplo: antes das eleições, quando não tinha a maioria no Parlamento e precisava do DUP, um partido da Irlanda do Norte, Boris garantiu aos aliados que, no acordo do Brexit, não haveria fronteiras entre o país e a Irlanda e tampouco entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido. Mentiu. Negociou um novo acordo de retirada com a Europa que inclui não apenas uma, mas duas barreiras alfandegárias entre os irlandeses do norte, a Irlanda e o Reino Unido. Traído, o DUP ainda teve que amargar uma derrota feia em seu país, onde pela primeira vez aqueles que querem se unir aos irlandeses tiveram maioria.

Jeremy Corbyn é um capítulo à parte. Deveria ter enfiado a viola no saco ainda na sexta-feira e renunciado de seu posto de liderança dos trabalhistas. O máximo que fez foi dizer que não será candidato na próxima eleição e que continuará no cargo para que o partido possa fazer algumas reflexões. O problema dos trabalhistas era justamente o candidato que escolheram para liderar o partido. Corbyn prometeu que iria renacionalizar, estatizar, os trens, as companhias de energia e acabar com as escolas privadas no país, que formam uma elite impiedosa, segundo ele. Eram essas as preocupações dos eleitores? Sério? Que ninguém se engane, esta eleição foi sobre o Brexit. E o que o Corbyn fez? Disse que era neutro. NEUTRO! Peloamordedeus! Prometeu que caso se tornasse primeiro-ministro, abriria a discussão para decidir o que fazer dessa encrenca. Depois de três anos que se arrastaram numa discussão modorrenta, ele queria mais papo. Além de Brexit, uma expressão nova ganhou força recentemente, o Brexit Fatigue, a fadiga do Brexit, ninguém aguenta mais esse assunto por aqui. O slogan de Boris Johnson era o remédio para essa doença: “Vamos resolver o Brexit”, e rápido. A saída, ao que tudo indica, deve acontecer no fim de janeiro.

A maioria confortável que Boris Johnson conseguiu no Parlamento vai fazer com que o trem do Brexit ande. As discussões que tomaram conta deste país desde 2016 não fazem mais sentido. Entretanto, desatar o nó do Brexit não é assim nenhum passeio no parque. A parte fácil é assinar o acordo de retirada até o fim de janeiro. Contudo, é apenas o começo. Essa Ilha tem até o fim do ano que vem para negociar milhares de acordos comerciais com a União Europeia. Acordos que levam anos para serem firmados. A Comunidade Europeia é o maior mercado dos britânicos. Os que defendem o Brexit dizem que não há o que temer, porque agora esta Ilha poderá negociar com o resto do mundo. Como se o resto do mundo não soubesse da urgência com a qual os britânicos precisam fazer acordos para que a economia não pare e como se estes possíveis novos parceiros não estivessem doidinhos para tirar vantagem desta fragilidade. O que fica desta eleição é que tanto os eleitores de Corbyn, seus fiéis escudeiros, quantos os fervorosos defensores do Brexit são pessoas do mesmo calibre. Gente que acredita que com fé na fantasia (não fatos, não razão) as coisas irão se acertar. Que se ordenharem uma pedra com bastante ardor, talvez a pedra verta leite. Tudo é possível!

A eleição e o Brexit estavam sim na minha cabeça no começo desta última sexta-feira treze. Pelo menos quando acordei e li as manchetes. Entretanto, a última sexta treze do ano tomou um rumo totalmente inesperado para mim. Mas essa é uma história que começa alguns meses antes…

Dia 27 de agosto de 2019. As férias escolares de verão quase no fim. Um dia excepcionalmente quente. Beirando os trinta graus, o que por aqui, com casas acarpetadas e mal ventiladas cria uma sensação térmica de 50 graus, exagero de quem já se desacostumou com o calor. Mas, vamos lá. Era um dia bonito. Pus no quintal uma rede que trouxe do Brasil e aproveitei uma sombra para ler ao ar livre (um luxo por aqui, pode acreditar).

Durante treze anos morei em outro bairro. Era uma casa semi-detached, geminada, grudada com a vizinha de um dos lados. Éramos vizinhas de países também: ela da Guiana Britânica, eu do Brasil. Viúva, ela tinha apenas um filho, que estava morando na Tailândia. O resto da família espalhado pelo mundo. Há dois anos mudei de casa com a família, mas o vínculo de amizade com a Kathy não foi abalado pela mudança. Ela sempre foi muito independente. Aos 79 anos não deixava que eu lhe desse uma carona até o supermercado, que a acompanhasse ao médico, mas começava a ficar mais frágil. Pelo menos uma vez por mês, me ligava para eu ir lá trocar as pilhas do alarme de incêndio, que ficava no teto do corredor entre os quartos. Ela tinha a mania de misturar umas pilhas usadas com outras novas e a miscelânea não durava muito. Nos treze anos em que fomos vizinhas, as únicas vezes em que subi ao andar de cima de sua casa foram para trocar as tais baterias.

Dia 27 caiu numa terça-feira. Eu havia me encontrado por acaso com a Kathy na sexta anterior num supermercado. Levei um susto quando a vi. Ela estava muito abatida e confusa. Contou que estava com medo de que um câncer que havia tratado tivesse voltado. Eu disse que não era assunto para supermercado. Ofereci para levá-la para casa, mas ela estava de carro. Deixei minhas compras em casa e fui visitá-la. Pela primeira vez nos treze anos em que convivemos, ela se queixou. Disse que não estava se sentindo bem e que tinha muito medo de morrer. Nos falamos novamente na segunda à noite. Meus sogros estavam hospedados em casa, mas iriam passar o dia fora na terça. Ela disse que viria me ver na manhã seguinte. Quando minha filha veio perguntar o que teríamos para o almoço foi que me dei conta da hora. A Kathy não tinha aparecido. Liguei no telefone da casa dela e nada. Tentei o celular. Sem resposta. Ela tinha o mau hábito de sair sem o celular. Talvez fosse isso. Esperei mais uma hora e tentei de novo. Nada. Mandei uma mensagem para o filho dela na Tailândia. Ele havia instalado umas câmeras pela casa para ficar de olho na mãe. Perguntei se tinha falado com ela e ele disse que não. Perguntei sobre as câmeras e ele contou que tinha vendido quando fora visitar a mãe meses antes, porque ela não gostava de viver na casa do Big Brother. Comecei a ficar preocupada. Meu marido tinha tirado o dia de folga para levar os pais para visitar um castelo. A chave da casa da Kathy estava no carro com ele. Pedi que ele voltasse logo. Tentei ligar para três pessoas que conhecia na rua da Kathy. Nenhuma delas atendeu. Um acidente fechou a rodovia que traria o carro e a chave da casa da Kathy. Meu marido avisou que iria demorar. Aquela sensação de que alguma coisa estava errada começou a crescer. O filho dela mandou uma mensagem dizendo para eu não me preocupar, provavelmente ela estava na rua com uma amiga. Assim que meu marido chegou, entrei no carro. Ele nem teve tempo de desligar o motor.

Cheguei na casa da Kathy, pus a chave na fechadura e a chamei pelo nome. Não me preocupei em tocar a campainha. A escuridão da casa contrastava com o dia ensolarado. As cortinas fechadas. Fui para a sala. Vazia. Apaguei a luz do abajur. Que ideia! Segui no corredor para a sala de jantar, que nunca era usada e vivia cheia de caixas. Escutei um rugido muito alto e gutural. Um som daqueles que de tanto tentar recriar, já nem sei mesmo se foi verdadeiro. Fez meu sangue correr mais rápido e congelou meus músculos. Senti medo. Um medo instintivo, animal. Como se tivesse ouvido o grito de uma besta, ou talvez houvesse um homem no andar de cima com a Kathy? Não era um ruído deste mundo de sons cotidianos. Parei. Por segundos o pavor não me deixava andar, eu estava imóvel como o ar que havia parado dentro da casa. Comecei a subir os degraus, esquecida do som que havia acabado de escutar, como se o segundo anterior tivesse acontecido num passado inacessível. Uma percepção fragmentada e distorcida do tempo que não tinha sentido algum.

Desabada bem abaixo do alarme de incêndio estava a minha querida Kathy. Não a toquei. Não lhe dirigi a palavra. O que eu temia estava acontecendo e eu não queria que fosse verdade. Liguei 999. Uma gravação me perguntou se eu queria a polícia ou ambulância. Acho que foi isso que perguntaram. Respondi ambulância. Minha voz saia acelerada. A atendente perguntou se ela respirava. Eu disse que sim. Uma respiração ruidosa, rápida e curta. A voz então pediu para eu dizer ‘agora’ cada vez em que ela expirasse. O que consegui foi dizer ‘agora’ no ritmo da minha própria respiração bombada de adrenalina. Apareceu uma vizinha pedindo que eu retirasse o meu carro, que bloqueava a garagem dela. Eu disse para ela tomar conta da Kathy e desci. Acho que queria sumir. Movi o carro a tempo de a ambulância tomar meu lugar.

A casa era uma caixa suarenta. Kathy não se movia e os socorristas faziam muitas perguntas. Ela estava profundamente desidratada. Perguntei se podia ajudar e um dos médicos disse que seria bom se não estivesse tão calor. Achei um ventilador. O médico pingava suor na cara da Kathy. Peguei uma toalha que estava no corrimão da escada e limpei a cara do moço, que levou um susto. Nunca me senti tão inútil na vida. Queria que dessem uma injeção que pudesse reanimar a Kathy.

Chegaram mais uma ambulância e mais dois socorristas. Os vizinhos faziam barulho na porta da casa. O médico suado avisou que teriam que levá-la. Eles se afastaram por um momento para apanhar uma maca. Ao redor de Kathy, seringas, embalagens, gazes, soro, uma desordem de emergência. Pela primeira vez olhei para ela. Olhei de fato. Poor Kathy! Quanto tempo ela deve ter passado imóvel sob o alarme de incêndio rezando para que ele disparasse? Quanto tempo teve que enfrentar o horror de uma morte solitária? E se ninguém desse falta dela?

Ela conseguiu, por um instante, abrir um dos olhos. De joelhos, fiz um carinho em sua cabeça, disse que tudo ficaria bem e que agora ela estava recebendo o cuidado que precisava.

Quando se preparavam para levar a Kathy para a ambulância, o telefone tocou. Era o filho aflito. Tive que dar a notícia. Não havia como não dar. A urgência não dava chance às meias verdades. Ele entrou em desespero. Aos gritos me perguntava se ela ia morrer. Eu respondia: não sei. Não sei! I’m sorry, I’m sorry!

Kathy sofreu um senhor derrame. Uma pororoca de sangue no cérebro. Acordou no terceiro dia, para surpresa dos médicos que não esperavam que ela sobrevivesse mais do que 24 horas. As semanas no hospital foram passando. Nas primeiras, alguns motivos para comemorar, pequenos sinas de melhora. Ela começou a responder sim e não com a cabeça, franzia a testa quando ouvia alguma bobagem e conseguia mexer o ‘braço bom’. Depois do primeiro mês de internação, nem isso. Não conseguia mais engolir. Nem a própria saliva. Passou por uma cirurgia para que a comida fosse injetada diretamente no estômago, ficou estável e resolveram que o melhor era que fosse para casa. Desolador vê-la assim.

Kathy sempre gostou de apostar nos cavalos. Nunca foi de gastar muito, mas fazia sua fezinha regularmente. Sabia o nome daqueles de puro sangue e dos azarões também. Uma vez por ano ia com as amigas às corridas. De chapéu na cabeça e uma garrafinha de refrigerante com um tanto de vodca misturado que ia na bolsa, para alegrar o dia. Ela é do tipo de gente que acredita na sorte. Ainda que de vez em quando dê azar. O filho voltou da Tailândia e agora se ocupa de cuidar da mãe, vinte e quatro horas por dia. O governo mandou uma cama, alguns equipamentos e uma enfermeira passa todo dia para uma visita.

Na semana passada, a Kathy recebeu a visita da minha cadelinha Honey todos os dias, para eu poder ir trabalhar. Kathy é louca pela Honey. Cuida dela sempre que viajo e desconfio que, quando vou buscá-la, a Kathy sinta uma tristeza daquelas de vó quando o fim-de-semana acaba. O filho da Kathy disse que a presença da Honey faz sua mãe mais feliz. Pois, na sexta-feira treze, no dia seguinte da eleição, ele me ligou eufórico. Pediu que eu fosse vê-los. Fui com a minha filha e a Honey. A Kathy nos recebeu com um sorriso e disse: fazia tempo que eu não a via! Depois de três meses sem dizer nada, alguma luz se acendeu dentro dela e ela voltou a falar. Foi muito emocionante. Eu tinha certeza de que jamais ouviria sua voz dizendo, Maria! As frases curtas ela consegue dizer com clareza. Quando desanda a falar muito, sai tudo embolado e é difícil entender. Tudo a seu tempo. Confesso que nestes três meses perdi a esperança de que ela melhorasse. Quis mesmo que seu sofrimento não durasse muito. Ao vê-la na sexta-feira treze, tive certeza de que ela não está pronta e tampouco quer ir embora. Ainda não. No hospital, fizeram todos os exames que se possa imaginar. O câncer não voltou. O mal-estar, o abatimento e a confusão de meses atrás provavelmente eram resultado de pequenos acidentes cerebrais. Kathy continua apostando na vida.

Este meu texto de fim de ano acabou saindo muito maior do que eu gostaria e bem mais tortuoso do que aconselham os doutores para assuntos cibernéticos. Entretanto, se tudo der certo, você que chegou até aqui vai encontrar uma linha para alinhavar os dois eventos da sexta-feira treze. No ano passado, meu post de fim de ano perguntava com que ponto se encerra um ano. Doze meses mais tarde, a reflexão é outra.

Outro dia ouvi uma inglesa dizer que “andam fazendo muito terrorismo com o Brexit. Imagine, dizem até que pode faltar comida nas prateleiras. Se isso acontecer, não será um problema, somos autossuficientes na produção de alimentos. Vamos nos virar”. Quase caí da cadeira quando ouvi essa. Nem durante a Segunda Guerra, quando a população era bem menor, essa Ilha deu conta de alimentar sua gente, ainda que todos plantassem batatas em seus quintais. O que a inglesa disse não é um caso de ter fé de que tudo vai dar certo. É um caso de falta de inteligência mesmo. Aí é que está o ponto. A fé e a fantasia. Termino o ano com minha fé renovada, graças à Kathy dura na queda. Não a fé de achar que na semana que vem ela irá se levantar e nos encontraremos por acaso no supermercado e, desta vez, ela estará sorridente e corada. A jornada que ela tem pela frente é dura e nem com todo faz de conta do mundo será mais leve. O caminho desta Ilha, cada vez mais isolada de seus aliados, confundindo patriotismo com nacionalismo, e se empobrecendo assim, será duro. No entanto, será ainda mais duro se a desilusão com as más notícias dos dias for capaz de aniquilar a fé. A fé nos pequenos milagres. A fé na resiliência humana. A fé no inesperado. A fé naquilo que nos torna melhores.

Que o ano que já começa seja um ano de fé, não de fantasia. Mas ainda sim um ano de esperanças.

Feliz 2020.

2 thoughts to “Fé, sim!”

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