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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Trinta e nove mortos que gritam

 

Trinta e nove corpos. Trinta e oito adultos, um adolescente. Todos chineses, a notícia acaba de sair*. Estavam num caminhão da Bulgária, dirigido por um norte irlandês de vinte e cinco anos, que foi detido e está sendo interrogado no momento em que escrevo este texto. O caminhão da morte foi encontrado na madrugada de ontem no condado de Essex, no sul da Inglaterra. Ao que tudo indica, partiu de um porto na Bélgica. O triste é que esse não é um fato inédito: em 2000, cinquenta e oito pessoas perderam a vida sufocadas num caminhão frigorífico descoberto no porto de Dover. Em 2015, setenta e um chineses foram encontrados mortos em um outro caminhão, abandonado numa estrada da Áustria.

A Guarda Costeira aqui da Ilha relata que praticamente todos os dias resgata pessoas tentando cruzar o Canal da Mancha em pequenos botes. A rota entre o Continente Europeu e a Inglaterra é uma das mais movimentadas do mundo, com cargueiros gigantescos, balsas de transporte de passageiros, carros e cargas, correntes marítimas fortíssimas e ondas traiçoeiras. Os traficantes de gente cobram em torno de três mil libras (cerca de quinze mil reais) pela travessia. Comprometimento total com o dinheiro. Responsabilidade zero com a vida humana.

Caminhoneiros, motoristas de vans, pessoas que fazem com frequência a viagem através e nos portos do Canal da Mancha relatam que é comum serem parados por pedestres que não falam inglês. Essas pessoas então passam um celular para o motorista e uma voz negocia para que a ‘carga’ (pessoas que querem chegar à Ilha em busca de uma vida melhor) seja entregue em algum endereço próximo a Londres.

Poderia tentar escrever aqui sobre o que motiva um ser humano a correr tantos riscos e a gastar tanto dinheiro para tentar a vida em solo britânico. Por causa da tragédia de ontem, a BBC publicou uma matéria com um refugiado sírio, que levou cinquenta e cinco dias, muitos deles escondidos no fundo de caminhões de carga, até chegar aqui. Ele registrou cada etapa de sua busca por um lugar melhor para viver. Fez a travessia em 2015 e sua história foi contada num documentário na época. Hoje, adaptado à vida britânica ele conta que quando pensa no que fez fica estarrecido, pois tem consciência de que foi muito arriscado. Contudo, quando se lembra dos bombardeios e da falta de perspectiva em seu país, confessa que, se estivesse hoje vivendo sob as mesmas condições, faria tudo novamente. Nem todo mundo que se arrisca vive num mundo onde uma bomba pode lhe cair sobre a cabeça a qualquer momento. Os trinta e nove mortos, da mais recente tragédia, partiram da China.

Os imigrantes ilegais são anjos indefesos ou demônios encarnados, dependendo que quem escreve. Dependendo de quem publica. Dependendo daquilo que o leitor quer acreditar. Casos individuais de sucessos e fracassos de refugiados e imigrantes são usados para reforçar uma tese ou outra. São histórias pontuais que têm seu valor, entretanto, distraem à atenção para os problemas de centenas de milhares de pessoas que são afetadas por guerras, perseguições políticas, religiosas e pela falta do total de perspectivas em países assolados pela pobreza e conflitos internos. Escondem também a praga que é o crime organizado, que vive e se enriquece da miséria humana. A Bulgária já foi, inúmeras vezes, destacada como um polo de gangues especializadas em tráfico humano. A questão é que os exploradores da fragilidade humana não têm preferência geográfica. Hoje pela manhã, a polícia realizou batidas em duas casas na Irlanda do Norte, depois da prisão de Mo Robinson, o motorista do caminhão encontrado ontem.

Trinta e nove vidas não é bolinho. É doloroso pensar em como essas pessoas morreram, no horror das horas que passaram asfixiando-se aos poucos no fundo de um caminhão gelado numa terra estrangeira. O que eu gostaria de escrever aqui foi como a reação à essas mortes foi tocante. Detalhes que, na correria da vida, a gente perde. Ou nem acha. Não percebe. A chefe da polícia de Essex convocou uma entrevista coletiva. De frente para as câmeras ela lamentou a tragédia e disse que foi um dia duro para os oficiais que tiveram que lidar com a perda de tantas vidas. Depois que o time de investigadores autorizou, o caminhão com os corpos foi retirado, para que eles fossem descarregados de uma maneira digna, longe dos olhares gulosos da mídia. À medida em que o caminhão frigorífico se movia, policiais e pessoas ao seu redor baixavam as cabeças em sinal de respeito. No Parlamento, onde o Brexit tem gerado gritarias, o tom foi de respeito. O primeiro-ministro Boris Johnson lamentou as mortes, assim como o líder da oposição Jeremy Corbyn, que acrescentou que queria agradecer aos policiais e aos serviços de emergência que atenderam à chamada e se depararam com o horror de tantas vidas perdidas.

 


A ansiedade por aqui vive saudável, robusta, crescendo e forte. O Brexit é um alimento fortificante para as aflições, angústias e desavenças locais. O famoso prazo (31 de outubro) para a saída da União Europeia está ali na esquina e, ainda assim, ninguém arrisca um palpite das surpresas do próximo capítulo desta novela agitadíssima. Há semanas, todo dia é periclitante na política nacional. Todo dia é decisivo. Pois, ontem, e hoje, as manchetes dos jornais dão destaque à tragédia dos trinta e nove cidadãos chineses que não viveram para ver que fim vai levar o Brexit. Ou a qual fim o Brexit vai levar essa Ilha. Uma tragédia que é tão grande quanto seu fim fez esta Ilha pausar, ainda que por instantes, para refletir sobre as proporções reais de nossas ansiedades e aflições. Mortes que gritam que mesmo no desespero há esperança de um fim melhor.

 

*A notícia de que as vítimas eram chinesas foi divulgada pela polícia no dia seguinte à descoberta dos corpos. Entretanto, acredita-se agora que a maioria dos mortos era de nacionalidade vietnamita, viajando com passaportes chineses falsos.

 

2 comentários em “Trinta e nove mortos que gritam

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