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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

O último primeiro-ministro britânico

 

Foque na bandeira acima. É a bandeira da Grã-Bretanha. Você sabe o que as listras azuis, vermelhas e brancas representam?

Agora olhe esta outra bandeira com a cruz de São Jorge, o padroeiro inglês. Quem acompanha e curte futebol sabe que é a bandeira da Inglaterra.

 

 

 

E essa, azul com uma cruz branca? Da Escócia.

A do dragão com o fundo branco é a do País de Gales.

E finalmente essa com um X vermelho é a bandeira da Irlanda do Norte.

 

 

Justaponha as bandeiras, suma com o dragão e o verde (a primeira bandeira da Grã-Bretanha é de 1606, quando o País de Gales já havia se unido à Inglaterra) e o resultado é a famosa Union Jack, a bandeira  britânica, que os atletas olímpicos carregam sorridentes a cada quatro anos. No futebol é cada um por si. A bandeira britânica representa a união destes quatro países (Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte), que têm na Rainha Elizabeth II a figura do chefe de estado e no primeiro-ministro britânico seu chefe de governo. A bandeira é bonita, mas a história desta união nunca foi exatamente um mar de rosas. País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte tiveram alguma autonomia conquistada ao longo dos anos e gozam de relativa independência para legislar sobre assuntos locais. Contudo, estão subordinados ao poder central representado pelo Parlamento Britânico, num prédio histórico à margem do Tâmisa, onde também fica o famoso Big Ben.

Em 2014, os escoceses foram às urnas para decidir se queriam se desgrudar da barra da saia da rainha. Pouco mais de cinquenta e cinco por cento dos votos foram contrários à independência. Mas os tempos eram outros. A palavra Brexit nem existia e o assunto não estava em discussão. Em 2016, a história mudou. Como se sabe os britânicos (51,9% dos votantes) resolveram que estariam melhor fora do bloco europeu. Mas… os escoceses não estavam de acordo. Na terra do whiskey, os que queriam dar o fora perderam (62% votaram a favor da permanência na Comunidade Europeia). Se o resultado foi praticamente um empate no total, a mensagem dos escoceses foi clara: não queremos deixar a União Europeia.

Os escoceses não estavam sozinhos nessa parada. Os irlandeses do norte também estavam felizes com a União. 56% votaram contra a retirada britânica do bloco. O Brexit provocou um racha entre as gerações, com eleitores mais velhos votando pela saída e os mais jovens pela permanência. E não foi só isso, escancarou também sérias diferenças entre as diversas regiões do país. O Brexit teve um forte viés nacionalista e xenófobo. Entretanto, curiosamente Londres, que concentra a maior população de imigrantes, votou pela permanência (60%). As cidades com menor influxo de imigrantes foram as que votaram massivamente pelo Brexit. O País de Gales votou pela saída (52% dos votos), embora o país dependa fortemente dos subsídios europeus e irá perder os 680 milhões de libras que recebe todo ano da Europa, no caso do Brexit. Na região que não é exatamente o parente rico dos britânicos, a falta deste dinheiro vai ser sentida.

A questão é que esses números todos são muito chatos. Burocracia que não acaba mais. Quem quer saber disso? Pelo visto tem muita gente desinteressada. Outro dia vi colado numa placa na rua um adesivo que simulava um verbete de dicionário com uma definição de Brexit: “substantivo – o que acontece quando pessoas simples buscam soluções simples para problemas complexos. Ver também: Trump, Donald J.”

 

É isso. O Brexit foi ‘vendido’ para o povo como uma solução mágica e fácil para todas as mazelas deste país que vive cortes e mais cortes desde a crise econômica mundial que começou em 2007/2008. Dois anos e dois primeiros-ministros depois do fatídico plebiscito, o que ninguém discute é que o Brexit seja tudo menos simples.

Uma pedra enorme no caminho deste divórcio é a fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte. Quem se lembra dos ataques terroristas do IRA (o exército republicano irlandês) e dos conflitos entre os dois países? É fácil esquecer, mas a paz só veio em 1998 e um ponto fundamental para a garantia do acordo foi a fronteira aberta entre os dois países com o livre trânsito de pessoas e bens. Como ambos os países faziam parte da Comunidade Europeia, ficou mais fácil já que não existem barreiras alfandegárias entre as nações do clube. A ex-primeira ministra Theresa May e seu time passaram dois anos negociando uma solução com a Comunidade Europeia para que a saída do bloco não comprometesse o processo de paz entre os irlandeses. A solução foi manter a fronteira aberta entre os dois países e criar uma fronteira entre a Irlanda do Norte com o resto do Reino Unido. Os irlandeses do norte, que nem queriam sair da Europa, não acharam a menor graça: quer dizer que somos juntos, porém separados? Que história é essa de fronteira entre a gente e o resto da Grã-Bretanha? Theresa May tentou três vezes que seu acordo com os termos de retirada da União Europeia fosse aprovado no Parlamento. Levou três não na cara e, sem saída, jogou a toalha.

Primeiro(a)- ministro(a) é o (a) líder do partido que tem a liderança no Parlamento. May é do partido Conservador. Vários parlamentares conservadores se apresentaram para substituí-la. Foram várias rodadas de votação até que sobraram dois candidatos: Jeremy Hunt e Boris Johnson. Cerca de 160 mil filiados ao partido Conservador puderam  escolher um dos dois. Apenas 0.13% da população teve a oportunidade de escolher o atual líder do governo. Uma pesquisa divulgada  pela BBC depois que Theresa May anunciou que deixaria o governo revelou que para 60% dos filiados ao partido Conservador não importava que o país pudesse ficar mais pobre após o Brexit, e que a Escócia e a Irlanda do Norte pudessem sair da Grã-Bretanha, o mais importante era o Brexit, custasse o que custasse. Com ou sem acordo de retirada. O resultado foi que Boris Johnson ganhou de lavada e esta semana termina com um novo primeiro-ministro no poder. Um que o presidente americano parece simpatizar e que, ao saber da vitória de Boris Johnson, afirmou orgulhoso que ele é o Trump britânico.

Trump e fake news. Brexit e fake news. Boris Johnson e fake news. Parece tudo atual. Um retrato do mundo neste final de década. Mas será que é mesmo assim atual? De onde surgem líderes com pouco compromisso com a verdade e forte apelo nacionalista e popular? Boris Johnson com certeza não nasceu hoje. A histeria com a Europa e o nacionalismo que diz que o Brexit significa a proclamação da independência britânica foram  plantados e cultivados por gente como Boris Johnson. Em seu passado de jornalista, ele foi ganhando espaço ao cobrir o vai e vem de Bruxelas, o ponto nervoso do Comunidade Europeia. Enquanto jornalistas sérios faziam uma cobertura técnica, se debruçavam sobre as propostas e acordos para informar o público, Boris criava factoides que tinham um apelo muito maior para o público como a notícia falsa de que os ‘burocratas de Bruxelas’ iriam determinar se o tamanho das camisinhas deveria ser menor para acomodar os pênis pequenos dos italianos. Fez comentários do tipo: as burkas fazem as mulheres que as vestem se parecerem com assaltantes de banco. Às favas com o politicamente correto. É tédio. O que importa é criar frases e fatos divertidos. E assim Boris foi crescendo. Mais tarde, ele tornou-se conhecido do público ao apresentar um programa semanal em que se comenta de maneira jocosa as notícias da semana. Popular e carismático, ele foi eleito prefeito de Londres.

Em 2015, fui cobrir um evento no centro de Londres. Boris, então prefeito, apareceu e fez um discurso totalmente sem pé nem cabeça. Enquanto ele falava, eu me lembrava de um colega de escola que teve que escrever numa prova sobre a Guerra dos Cem Anos. Ele respondeu que ‘foi uma guerra muito longa, durou cem anos. Morreram muitas pessoas de um lado e de outro também!’ O que Boris falava era assim, só que com muita graça e carisma. Notei que meus colegas jornalistas pareciam entretidos, divertidos, admirados. Eu nunca tinha visto um bando de jornalistas receber tão bem assim um político. Meus colegas eram apenas mais alguns na plateia de Boris Johnson.

Bom, o Boris prefeito, voltou para o Parlamento. Fez campanha para o Brexit com o famoso ônibus que anunciava (mentirosamente) que o dinheiro que este país manda toda semana para Europa seria investido no sistema de saúde, mas na época vazou que ele tinha preparado dois textos escritos para um jornal influente. Num deles ele apoiava o Brexit, no outro ele era contra. Só no último minuto ele mandou sua opinião. Mais ou menos como assistir a uma partida entre Atlético e Cruzeiro e aos 30 minutos do segundo tempo, quando está claro quem será o campeão, o sujeito decide para quem vai torcer. Torcedor do vencedor desde criancinha. Esta é uma característica do Boris Johnson. Acusado de mentiroso assim na cara, por vários jornalistas durante entrevistas, ele desconversa sem nem ficar vermelho. O time de Boris Johnson é Boris Johnson. Um político bem diferente de Theresa May, que embora tenha fracassado magistralmente, era comprometida com uma visão que todo mundo sabia qual era. Ela tinha princípios. Você até poderia discordar deles, mas você sabia quais eram.

 

Boris Johnson

Boris assumiu fazendo uma limpa no governo como ainda não se tinha visto aqui na Ilha. Se livrou de todo mundo que discordou dele durante a campanha e avisou: este país vai sair da Europa no dia 31 de outubro com ou sem acordo. Mais fácil falar do que fazer. Boris tem uma maioria de apenas dois parlamentares. Tem vários inimigos em seu partido, conservadores que não querem sair sem um acordo, pois conhecem os efeitos devastadores para a economia no caso de uma saída abrupta. O Parlamento já deixou claro que não quer sair sem acordo.

Boris pode ser obrigado a convocar eleições gerais. Aliás, assumiu o governo em plena campanha para reeleição. Anunciou hoje que vai contratar vinte mil novos policiais nos próximos três anos. O aumento da violência urbana com as gangues e os assaltos é um tema que preocupa muito o eleitor por aqui. Tanto que pouco importa que seja difícil que ele cumpra a meta. Primeiro não há estrutura no momento para recrutar e treinar tantos policiais em três anos e, mesmo que apareçam candidatos suficientes e que por um milagre todos possam ser treinados, não há onde colocá-los. Nos últimos anos dezenas de delegacias de polícia foram fechadas por causa da crise econômica e dos planos de austeridade dos conservadores. Vinte mil policiais a mais levariam este país ao nível de policiamento que tinha em 2014, quando o conservador David Cameron iniciou os cortes. Mas de novo, quem se importa com detalhes. Quem quer pensar em soluções complexas para problemas complexos?

Hoje o primeiro-ministro da Irlanda deixou claro que está interessado numa união com a Irlanda do Norte. Os dois países unificados novamente. Boris Johnson afirma que não vai haver  fronteira entre a Irlanda do Norte e o resto da Grã-Bretanha e que irá renegociar com a União Europeia. Os europeus dizem que não tem mais conversa. Foram dois anos até chegar ao acordo que fizeram com Theresa May. A questão é que a União Europeia não pode oferecer um acordo camarada para os britânicos porque, se o fizer, os outros países membros também irão querer as mesmas garantias, o que pode provocar uma ruptura irremediável no plano de uma Europa unida.

Dependendo dos próximos movimentos neste xadrez chamado Brexit, Escócia e Irlanda do Norte podem se tornar países independentes. Boris Johnson corre o risco de ser o último primeiro- ministro britânico.

 

 

2 comentários em “O último primeiro-ministro britânico

  1. Oiii, tava com saudades. De fato é difícil intender oque acontece com mundo elegendo esses tipos. Trump, Bolsonaro e esse Boris. Onde vamos parar.

    1. Debora, obrigada pelo carinho de sempre. Vai ser interessante observar o que vai acontecer em outubro. Tudo muito confuso, mudando toda hora.

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