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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Direitos Meus

Esta semana aqui na Ilha começou com um ‘bank holiday’. Um feriado bancário na segunda-feira. Por aqui não tem essa de feriado de santo padroeiro, dia da Pátria, dia do trabalho, da independência, das crianças, dos santos, dos mortos… as únicas exceções são o dia do natal e a páscoa, o resto atende pelo nome de feriado bancário. Prioridades, prioridades. Maio é um mês de sorte, dois feriados bancários, na primeira e na última segunda-feira do corrente. Esta semana também é de folga para os estudantes, que tem três pausas de uma semana no calendário letivo anual, fora as férias de verão e a páscoa, são os half term. Imagino que o descanso tenha sido bem-vindo especialmente para os alunos, pais, professores e a diretora de uma escola em Birmingham (uma cidade importante na Inglaterra), a Anderton Park Primary.

A Anderton Park é a quarta escola da região a se tornar famosa e ganhar espaço na mídia por causa de protestos contra a inclusão de tópicos do ‘Equality Act’, o Ato de Igualdade, uma lei de 2010, no currículo escolar. Essa lei diz que é proibido discriminar com base na orientação sexual, sexo ou religião. A escola adotou o ‘No outsider Project’, um projeto de inclusão, aprovado pelo ministério da educação, “para ensinar as crianças a terem orgulho de quem são e a reconhecer e celebrar as diferenças e diversidades”. O programa foi criado pelo educador Andrew Moffat e adota livros de histórias que alguns pais desaprovam. Um deles conta uma história baseada num fato que aconteceu num zoológico de Nova Iorque, onde dois pinguins machos adotaram um filhote e o alimentaram. O livro diz que o filhotinho tinha dois papais. Outro livro conta a história de um cachorro salsicha que tinha um enorme cachecol listrado e não conseguia se encaixar em lugar nenhum por ser diferente. O caso é que a Anderton Park e outras escolas que também adotam o ‘No outsider project’ ficam numa região onde se concentram muitas comunidades mulçumanas.

Há semanas, as crianças destas escolas têm que vencer um circo do lado de fora do portão antes de entrarem na sala de aula. Há cartazes que dizem: ‘Adão e Eva e não Adão e Steve’, ‘Meu filho, minha escolha’ e ‘Deixem as crianças serem crianças’. Muitos pais têm mantido seus filhos em casa como forma de protesto. Amir Ahmed, que lidera alguns destes protestos usando um megafone para pregar suas ideias e objeções, sequer tem filhos na escola primária. Mas, para ele é uma questão de princípios. Diz que a homossexualidade não é uma coisa moralmente válida, mas que não é homofóbico. Seu argumento é: tem muita gente que não acredita no Islã, entretanto, não são islã fóbicos.

Os pais estão divididos. Alguns defendem a escola em sua decisão e argumentam que os protestos estão deixando as crianças assustadas e estressadas. Os manifestantes não estão considerando o bem-estar dos alunos. ‘Imagina entrar na sala de aula onde a professora e a diretora foram xingadas pelos pais? Como fica a cabeça destas crianças?’. Ativistas dos direitos LGBT agora também engrossam os protestos do lado de fora das escolas e a temperatura tem subido. Ainda assim, há os que acreditam que os protestos têm que continuar até que a escola ceda. Acusam Andrew Moffat,(o criador do programa) que é gay, de estar apenas agindo em causa própria. Aliás, tanto Moffat como a diretora da Anderton Park têm recebido e-mails, telefonemas e cartas com mensagens de ódio e ameaças. A situação ficou tão tensa que a polícia agora investiga o caso. Quando as aulas retornarem, depois da semana de folga, é provável que os protestos recomecem. É o que temem professores e diretores afetados pela controvérsia.

 

 

A semana começa com a história de um médico generalista que foi suspenso acusado de discriminação religiosa. Lembra do ‘Equality Act de 2010’? Pois é, uma mãe usando um véu islâmico que lhe cobria a cabeça e os lábios, levou o filho para ser examinado pelo doutor. O médico pediu que ela removesse o ‘niqab’,  que lhe cobria a cabeça e o rosto para que ele pudesse ouvir melhor o que ela tinha a dizer. A mãe do paciente não gostou e foi reclamar na direção do Royal Stoke University Hospital dizendo que o médico havia sido ríspido e desrespeitoso. Uma petição online já reúne mais de 60 mil assinaturas para tentar impedir que o médico seja suspenso para sempre. Em sua defesa, o médico disse que pediu que ela retirasse o véu da mesma forma como teria pedido que um motociclista retirasse o capacete para que pudessem se comunicar melhor. Li comentários de colegas de profissão do doutor que dizem que não é bem assim: numa sala de cirurgia todos têm praticamente o rosto todo coberto por máscaras e goros e ainda assim conseguem se comunicar perfeitamente. A mãe do garoto poderia ter se recusado a retirar o véu, outros argumentam. Se a mãe não era a paciente, então por que pedir que ela descobrisse o rosto? Como é que o caso foi cair tão rapidamente nas mãos da imprensa? Casos como este correm em segredo de investigação. A punição ao médico não seria exagerada, perder o direito de exercer a medicina após 23 anos de profissão, por causa de um episódio como esse?

Tente por um minuto abstrair que as duas notícias que narro neste post tenham mulçumanos como protagonistas. Vamos por um instante focar apenas no Ato de Igualdade, afinal este é o ponto principal: uma lei para coibir atos discriminatórios e intimidadores. Escolas que adotam o programa que visa ressaltar os valores britânicos de aceitação do outro têm sido pressionadas por grupos religiosos radicais, não só os islâmicos, para banir as lições que reforçam a importância de reconhecer e aceitar que as pessoas são diferentes. Os livros dos pinguins papais em momento algum trata de relação sexual entre dois animais do mesmo sexo. A mensagem é outra: o coleguinha que tem dois papais, ou duas mamães, ou uma mamãe solteira, ou um papai solteiro tem que ser respeitado tanto quanto aquele que tem um pai e uma mãe morando debaixo do mesmo teto. Não se trata de doutrinação sexual e sim de aceitação das diferenças.

E o argumento de que os pais têm que ter o direito de escolher o que seus filhos vão aprender na escola? Aí o horizonte começa a ficar mais turvo. Existem grupos religiosos que negam a teoria da evolução e que acreditam piamente que a Terra foi criada em apenas seis dias há dez milhões de anos. Conheci um casal aqui na Ilha que educou a filha em casa e não na escola para que ela não fosse poluída por teorias como as Charles Darwin. Direito deles. Garantido pelo Estado.  Entretanto, o Estado deve prover aulas de ciência baseadas em princípios religiosos e não científicos, se os pais assim o quiserem? Sério?

O ensino religioso faz parte do currículo escolar por aqui, graças a ele, os estudantes aprendem sobre cristianismo, islamismo, hinduísmo, judaísmo, budismo… Conhecer mais sobre diferentes religiões é diferente de tentar impor uma ou outra. É educar para que as diferenças sejam melhor compreendidas e aceitas.

O voto aqui na Ilha é distrital, o que significa que cada região escolhe seu representante para o Parlamento Britânico. Jess Phillips é a parlamentar da área onde fica a Anderton Park Primary School. Ela foi ao portão da escola tentar conversar com os manifestantes. Disse que infelizmente, num país onde a liberdade de se manifestar em público é um direito adquirido, ela iria pedir que houvesse uma zona de restrição ao protesto no lado de fora da escola pois estava atrapalhando as crianças, os professores e a diretora. E acrescentou: vocês querem liberdade de culto, de se vestirem da forma como quiserem e não serem discriminados. Eu sou totalmente a favor de que seja assim. Entretanto, não podem discriminar aqueles que são diferentes. Não funciona assim, escolho a parte que me agrada e refuto a outra.

A parlamentar levantou um ponto fundamental: Ato de Igualdade tem que ser tanto para defender liberdade de credo, quanto o direito de as pessoas expressarem sua sexualidade da maneira como quiserem. Sejam quais forem. Não se trata de Meus Direitos. São Nossos Direitos. Direito de todos. E a escola é o ambiente ideal para formar cidadãos que reconheçam e celebrem a importância de uma sociedade justa e igualitária.

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