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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

O que fazer de Shamima? Quem entra, quem sai?

Dia 14 de fevereiro esta Ilha perdeu uma de suas grandes autoras. No dia dos namorados daqui (o Valentine’s Day) faleceu a escritora Andrea Levy. Seus livros são inteligentes, profundos e bem-humorados ao mesmo tempo. São importantes porque dão voz aos imigrantes caribenhos, que desembarcaram  aqui no pós-guerra e digamos não foram recebidos com o melhor que a  hospitalidade britânica  tem a oferecer.  O ‘Small Island’ (A pequena ilha, publicado no Brasil pela editora Nova Fronteira) tem em sua protagonista a jamaicana Hortência, uma personagem exemplar de uma geração de colonizados pelos britânicos que adoravam e respeitavam a rainha, estudavam tudo o que havia sobre a Grã-Bretanha, seus rios, sua história, seus costumes. Eram de uma forma exagerada ‘mais britânicos do que próprios britânicos’. Imitavam o sotaque afetado da Rainha e acreditavam que todo mundo por aqui fosse bem-educado e tomasse o chá das cinco em xícaras de porcelana fina. Mas a maior ingenuidade era que eles se consideravam cidadãos britânicos, tanto quanto aqueles que haviam nascido nessa ilha de cá. Eles eram bons o suficiente para lutar na guerra ao lado dos britânicos, mas não serviam para vir morar aqui. Uma espécie de ‘cada um no seu quadrado’ do meio do século passado. O livro narra o preconceito, a dificuldade de se estabelecer e encontrar um emprego decente que os imigrantes dessas ex-colônias caribenhas encontrariam por aqui onde era quase impossível achar um imóvel disponível para ‘pessoas de cor’ alugarem. Um retrato bem desenhadinho da chamada Geração Windrush.

Cena do Small Island adaptado pela BBC

Em 1948, quinhentos caribenhos (a maioria jamaicanos) chegaram a bordo do navio Empire Windrush. Como súditos do Império Britânico, eles tinham direito de residir aqui. Uma lei aprovada no mesmo ano garantia este direito e gerou uma onda migratória gigantesca das colônias para a chamada ‘Pátria Materna’. Entre 1948 e 1970, meio milhão de caribenhos desembarcaram de mala e cuia no Reino de Elizabeth II. E não foi um ato magnânimo da soberana. Na realidade havia um déficit grave de mão de obra depois da Segunda Guerra que estas mãos imigrantes supririam. Mais tarde, estes imigrantes seriam apelidados de Windrush Generation (a Geração Windrush). Ou na linguagem racista: aqueles que vieram num cargueiro de bananas. Como eles tinham direito de residir aqui, não receberam nenhum documento oficial que garantisse sua permanência legal, até que no começo dos anos 70, o governo fechou a porteira e política de imigração das colônias mudou. Estas pessoas se casaram, tiveram filhos e fizeram a vida nesta Ilha que era mais a casa deles do que as pequenas ilhas que haviam deixado tantos anos atrás.

Em 2012, a primeira-ministra Theresa May era a ‘Home Secretary’ (um ministério que aqui na Ilha é um misto de Casa Civil com Ministério da Justiça). Ela prometeu pegar pesado com os imigrantes, tornando muito difícil a permanência daqueles que não tinham um visto garantido. A intenção era criar no país um ambiente hostil para os ilegais. Queria fechar o cerco, tornar mais difícil a obtenção de vistos e mais complicada a vida de quem não tinha permissão para ficar. Era o traço de pólvora de uma bomba que estourou no ano passado. Sem documentos, 63 pessoas da chamada Geração Windrush, que viveram, criaram vínculos, trabalharam e contribuíram para este país durante décadas levaram um pé no traseiro e foram deportadas, porque o governo não conseguiu encontrar documentos que comprovavam que elas tinham o direito legal de se estabelecerem como cidadãos por aqui. Estava criada a política do culpado até que se prove inocente, deporte primeiro e discuta a apelação depois. Muitos destes cidadãos perderam o emprego, perderam o direito de trabalhar, tiveram tratamentos médicos negados pelo sistema de saúde pública e alguns foram deportados. O escândalo derrubou a sucessora de May no cargo de Home Secretary e revelou o fiasco do projeto de Ambiente Hostil. Esta novela ainda não acabou, mas andava meio adormecida até esta semana.

Quatro anos atrás, Shamima Begum, uma estudante de 15 anos de uma escola pública de Londres, fugiu do país com outras duas colegas adolescentes. Elas iriam se juntar ao Estado Islâmico na Síria e seu califado de terror. As três haviam sido radicalizadas e recrutadas por terroristas do grupo através da internet. Viajariam para se tornarem noivas dos soldados do terror. Iriam se juntar a outras adolescentes que haviam feito a mesma escolha e entrariam na Síria a partir da Turquia. As famílias destas jovens apelaram para o governo para que elas fossem trazidas de volta para casa, entretanto elas nunca mais voltaram. Uma das moças morreu num bombardeio contra o Estado Islâmico. Outra se recusou a deixar o marido e está encurralada no que resta do Califado na Síria sob constante ataque dos americanos, curdos e soldados sírios. Viva ou morta ninguém sabe. Shamima escapou e está num campo de refugiados na Síria. Ela agora tem 19 anos e no sábado deu à luz a um menino. Seu terceiro filho. Os outros dois, segundo ela, morreram devido às condições miseráveis do país em guerra civil.

Shamima na entrevista para a Sky News

Um jornalista entrevistou Shamima na semana passada. Nesta terra onde o Brexit monopoliza as notícias, diria que a entrevista provocou um abalo considerável na mídia. Shamima quer voltar, mas tem um porém, não se diz arrependida de nada. Disse que é mais forte por causa da decisão que tomou, que não teria encontrado na Grã-Bretanha um homem como seu marido (um holandês que também saiu da Europa para se juntar ao grupo). Afirmou ainda que teve uma vida boa até que os ataques contra o Estado Islâmico se tornaram muito perigosos e que chegou a ver cabeças decapitadas pelos soldados como seu companheiro. Se diz uma dona de casa qualquer e desafia qualquer um a provar que ela seja perigosa. Não pediu perdão, não se fez de vítima de aliciamento e tampouco reclamou dos últimos quatro anos em que viveu no califado do terror, embora reconheça que a vida ficou mais difícil nos últimos tempos. Quer voltar para a Inglaterra com o bebê.

Poucas imagens são mais emblemáticas do terror neste começo de século do que as execuções macabras do Estado Islâmico. Seus membros são a personificação do mal. A crueldade com que matam, estupram, escravizam e destroem tudo em seu caminho provoca condenação e repugnância pelo mundo afora. Como é que essa jovem senhora, que nasceu e cresceu aqui na Ilha, foi exposta aos valores da sociedade britânica, frequentou uma escola pública, foi atendida pelo sistema público de saúde pôde renegar tudo o que este país tem de melhor e ainda por cima quer voltar agora sem demonstrar um pingo de arrependimento e humildade? Esse é o bicho que anda pegando por aqui.

É uma raridade ler comentários de notícias onde a grande maioria concorda com um ponto de vista, como tem acontecido no caso de Shamima. “Ela que não ponha os pés aqui de novo, porque ninguém a quer” (uma petição para que os ‘traidores’ que se juntaram ao Estado Islâmico sejam impedidos de regressar a este país já arrecadou mais de cem mil assinaturas em menos de vinte e quatro horas). “Ingrata e perigosa”. “Quem garante que ela não irá atentar contra a vida de cidadãos britânicos?” “Não vamos abrir a porta para terroristas”. O governo já deixou claro que não vai botar ninguém em risco para ir resgatá-la na Síria e trazê-la de volta. Não existe representação diplomática do Reino Unido na Síria e Shamima não tem documentos, já que fugiu da Inglaterra com o passaporte que roubou da irmã mais velha. Pelo que tudo indica, o governo não vai mover nem o dedinho do pé nesta direção. Se ela não tiver outra nacionalidade que não a britânica, e puder regressar por seus próprios meios, este país não poderá recusar a sua entrada. É a lei. Ninguém pode ficar sem nacionalidade. Contudo, ela pode ser detida e julgada assim que pisar em solo britânico. Pode também perder a guarda do filho.

Existem algumas poucas vozes isoladas que argumentam que ela era apenas uma menina quando foi aliciada. Errou sem dúvida, mas merece uma segunda chance. O primeiro jornalista a entrevistá-la tem esta opinião. Para Anthony Loyd do ‘The Times’, se ela passar por um programa de desradicalização terá a chance de se reintegrar à sociedade. Outros dizem: “Se for o caso, que o Estado a mantenha sob vigilância”. Mais fácil e mais barato falar do que fazer nesta terra onde a lista de pessoas suspeitas é longuíssima.

Depois que o jornalista Anthony Loyd descobriu Shamima num campo de refugiados e a entrevista foi publicada nos jornais daqui um segundo jornalista, desta vez da Sky News, foi conversar com Shamima. A entrevista foi filmada e acabei de assisti-la para escrever este post. Shamima havia literalmente acabado de dar à luz ao terceiro filho. Aparentava cansaço, olheiras profundas uma fala meio pastosa. Três coisas ficam evidentes na entrevista: a primeira é a sua imaturidade. Mesmo depois de ter fugido de casa, se casado, gerado três crianças, vivido em condições terríveis num contexto de extrema violência, ter passado fome, ter visto os dois filhos mais velhos falecerem, ela me pareceu absurdamente infantil em sua fala. Segundo, é uma adolescente egoísta, deixa claro que só quer voltar porque a alternativa é pior. Não está arrependida. Terceiro, não me pareceu uma pessoa inteligente e ardilosa. Se fosse, teria tido mais tato ao jogar esse jogo. Moveria suas peças com mais cuidado. Apresentaria uma personagem muito mais elaborada. Dá até para entender como foi presa fácil para o aliciamento do Estado Islâmico. Ou quem sabe tudo isso que percebi é só um reflexo do momento em que a entrevista foi gravada, em que o corpo de Shamima ainda estava inundado por hormônios do pós-parto.

O que fazer de Shamima? O que pensar de sua situação? Entender de onde ela veio e o que ela passou anula as consequências de suas ações? De suas escolhas? Ela representa ou não um perigo? Deve ou não servir de exemplo para outras mocinhas? Ela não é a única pedra no sapato deste governo. 800 soldados estrangeiros do Estado Islâmico foram capturados e estão nas mãos dos americanos e dos curdos na Síria. Donald Trump disse que se os países de origem destes prisioneiros (muitos deles europeus) não os trouxer de volta para que sejam julgados e encarcerados, os captores irão simplesmente deixá-los ir e eles se infiltrarão numa rede terrorista para atacar a Europa.

Afinal, o que esse caso tem a ver com a Geração Windrush?

No fundo, a história de Shamima mexe com dois elementos que incomodam bastante por aqui: o fato de ela ser de uma família de imigrantes e o de ser mulçumana. Fosse ela uma adolescente filha de ingleses anglicanos, uma mocinha loura de olhos azuis que foi aliciada pela internet, a opinião pública seria assim tão implacável? Não sei. É essa realmente a questão mais relevante? O que observei foi que muitos comentários de gente que não quer que ela volte andam fazendo comparações entre o seu possível retorno e a deportação de cidadãos da Geração Windrush. E ao fazerem isso, provavelmente sem perceber, trazem a questão da imigração para a discussão. Os imigrantes das ex-colônias que vieram para cá legalmente no pós-guerra e sofreram todo o tipo de humilhação chegaram aqui antes das reformas que garantiram educação, moradia e saúde como direitos dos cidadãos. E, no entanto, fizeram sua parte. Contribuíram para a sociedade, abraçando um modo de vida. Shamima por sua vez nasceu e cresceu com muito mais benefícios na bandeja e foi juntar-se a um grupo terrorista que odeia os valores conquistados pelos cidadãos desta ilha. Por isso, muita anda dizendo, não deixem que ela entre e não mandem embora quem de fato ama nosso país e modo de vida.

2 comentários em “O que fazer de Shamima? Quem entra, quem sai?

  1. Meu Deus, parece que o lugar dos meus sonhos esta se tornando um pesadelo. Estava de malas prontas pra visitar o país, estou desistindo. Apenas 30 anos de Sonho perdidos. Essa ñ é a Inglaterra que eu sonhava.

    1. Tem muita coisa boa por aqui, Débora. Seu sonho é dos bons e, se puder tornar-se realidade, ainda melhor. Não desista. Só não se esqueça de que lugares perfeitos só existem nos sonhos mesmo.

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