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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Sangue azul, vermelho e branco

Começo esse primeiro post do ano com um aviso: pode ser que quando eu terminar de escrevê-lo ele já esteja velho. O tom do momento aqui na Ilha é esse, fatos que se transformam rapidamente. Articulações políticas em ritmo tão acelerado que tem deixado o país atônito. Como se sabe, os britânicos (37% deles) votaram em julho de 2016 pela saída da Comunidade Europeia, o que chamamos desde então de Brexit (exit= saída, saída da Grã-Bretanha). O povo foi chamado às urnas para decidir a questão. O então primeiro-ministro, o conservador David Cameron, acreditava que os eleitores votariam pela não retirada e ele calaria a boca de alguns parlamentares de seu partido que eram historicamente contra à união com a Europa. Quebrou a cara, jogou a toalha e até hoje muitos britânicos nem suportam ouvir seu nome. Vai entrar para história como um líder irresponsável que apostou o destino deste país para aumentar seu cacife político.

Foi uma campanha cheia de promessas deliberadamente falsas (como de fato acontece com muitas outras campanhas). O presidente francês Emmanuel Macron disse ontem que o plebiscito foi o resultado de uma campanha mentirosa e altamente manipulada por ‘fake news’. Dizia-se na época (e a promessa aparecia estampada em ônibus de campanha dos que defendiam a saída) que após a saída, o sistema nacional de saúde iria receber 350 milhões libras por semana (cerca de R$1.7 bi), dinheiro que a Comunidade Europeia embolsava da generosidade britânica. No primeiro dia depois do plebiscito, políticos começaram com o ‘veja bem, não é bem assim’. Alguns políticos de peso entre os Conservadores diziam que o Brexit seria sopa no mel. Que o acordo de retirada seria fácil, que este país iria ficar livre para negociar acordos comerciais com quem quisesse e que teríamos de volta a nossa soberania.

Não vou matar ninguém de tédio aqui entrando em muitos detalhes sobre o jogo político e nem a sobre a complexidade das negociações entre as partes. Mas para entender essa confusão é importante entender uma coisa fundamental: com a saída da Comunidade Europeia esta Ilha terá que renegociar milhares de acordos. Acordos que foram firmados ao longo de muitos anos. Vou dar alguns exemplos: para os aviões (inclusive os comerciais) britânicos sobrevoarem, ou mesmo pousarem, em países europeus é preciso que haja um acordo. Esta Ilha exporta muito mais para a Europa do que importa. Em outras palavras, comercialmente tem mais interesses lá do que por exemplo a Alemanha, cujas exportações para este país somam apenas 9% de tudo que exportam. 70% dos produtos vendidos nos supermercados britânicos vêm da Europa, se não há um acordo comercial, o risco de desabastecimento não é uma fantasia. Cada uma destas negociações tem que ter o apoio unânime dos 28 países membros da União Europeia. E mais, quanto ao ‘vamos poder negociar com vários países fora da Europa sem as amarras que a Comunidade impõe’, boa sorte com mais essa, porque no mundo em que vivemos a maior parte destes acordos terá que passar pela Organização Mundial de Comércio. Ou seja, esse papo de vamos fazer o que bem quisermos e quando quisermos não funciona bem assim.

O Brexit, ou mesmo a saída eventual de qualquer membro da União Europeia, deve seguir os termos do chamado artigo 50 do Tratado de Lisboa. Sendo assim, esta Ilha tem até o dia 29 de março para definir os termos de sua retirada. A primeira-ministra Theresa May teve dois anos para formular uma proposta de retirada. A história é encrencada. Cada palavra, vírgula e parágrafo do texto do acordo teve que ser aprovado unanimemente pelos países membros do clube. Foram rodadas intermináveis de negociações para produzir o documento que é apenas o princípio do acordo de retirada. Mais ou menos definindo as bases de como a negociação se dará no futuro. O Chefe Negociador do governo britânico aprovou, juntamente com os outros ministros do gabinete de May, o texto do documento que ele mesmo negociou. No dia seguinte, disse que deixava o governo porque sabia que o acordo não era bom e seria danoso para a economia do país. Fofinho, né? Por que não pulou fora antes? Parece mais um fato trivial nessa novela, mas não é. É importante porque ilustra bem a complexidade do período.

O Brexit foi aprovado por uma vantagem muito pequena. Eleições apertadas assim tendem a provocar divisões. Contudo, este plebiscito não foi uma eleição ‘comum’. Em outras eleições, escolhe-se um representante. Se a escolha não agradou, o eleitor tem a chance de escolher diferente na próxima vez. Com o referendo do Brexit não tem volta. Não dá para escolher diferente da próxima vez. Ou será que dá?

Para quem está por fora sobre o que anda acontecendo por aqui, aí vai um resumo bem resumido mesmo. A primeira-ministra apresentou na terça-feira sua proposta de Brexit aos parlamentares. Ela levou a pior surra que um primeiro-ministro tomou nesta que é uma das democracias mais antigas do planeta. Perdeu por uma diferença de 230 votos, o maior perdedor antes dela foi um primeiro-ministro que em 1924 perdeu com uma margem de 166 votos. Foi uma derrota monumental. Mas, por quê? Aí começa a ficar mais complicado. O povo disse que é a favor da retirada da Comunidade Europeia, mas a maioria do Parlamento pensa diferente. O que cria um problema, o que vale mais? É a democracia representativa (através dos parlamentares) ou é a direta? Não bastasse isso, se fosse só o time dos contra e dos a favor, talvez fosse mais simples. De novo, não é. Esta nação é formada por quatro países: Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte. Os dois primeiros votaram pelo Brexit. Escócia e Irlanda do Norte pela permanência. A Irlanda do Norte é uma fonte de preocupação. Durante décadas, os anos sangrentos do IRA, os conflitos entre Irlanda e Irlanda do Norte deixaram milhares mortos. Uma peça fundamental do acordo de paz entre os dois países (em 1998) foi a fronteira aberta entre estes dois países, o que não foi problema pois ambos faziam parte da Comunidade Europeia, que garante o trânsito livre de pessoas e mercadorias entre seus países membros. Com a Irlanda do Norte fora da União Europeia há o temor (real) de que os atritos entre os dois países possam voltar. O que a primeira-ministra propôs foi que a fronteira ficaria aberta entre os dois países. A Irlanda do Norte chiou porque haveria uma barreira alfandegária entre eles e o resto desta Ilha. Já os escoceses, que nem queriam sair da Comunidade Europeia, também não gostaram. Como é que os irlandeses do Norte podem ter essa mamata de comércio livre e nós não? O que vale para um tem que valer para todos. Fora isso, tem ainda a oposição (os trabalhistas em sua maioria) que diz que o acordo que Theresa May negociou é péssimo e que irá deixar esta Ilha mais pobre. May não conseguiu sequer fazer com que seu partido votasse com ela nessa questão, daí a derrota humilhante de terça-feira.

No parlamentarismo não existe o impeachment. Mas, se os parlamentares chegarem à conclusão de que o primeiro-ministro não é mais capaz de governar, eles podem pedir o chamado ‘voto de desconfiança’. Se a maioria dos parlamentares votar contra o(a) primeiro(a)-ministro(a), ele(a) perderá a cadeira. Foi o que o líder da oposição, o trabalhista Jeremy Corbyn fez na quarta-feira, de olho no cargo mais top do governo. Theresa May desta vez conseguiu garantir a maioria e por enquanto permanece no cargo. Agora ela irá apresentar um ‘plano b’ para a retirada. Se acontecer o milagre de os parlamentares aprovarem a alternativa, os europeus também terão que dar seu ok, o que não é garantido. Se ninguém chegar a um acordo o que pode acontecer?

O pior cenário é esta Ilha deixar a Comunidade Europeia no dia 29 de março sem nenhum acordo. O governo tem feito alguns exercícios para tentar evitar os problemas que esta saída poderá gerar. Os sinais de alarme estão por todos os lugares, mas os que votaram pela saída dizem que é tudo ‘projeto medo’. Que os políticos estão querendo assustar a população para conseguirem o que querem. O importante, eles mantêm, é que termos ‘nossa soberania novamente’.

Recentemente fui a uma festa onde, obviamente, o assunto do Brexit veio à tona. Um dos convidados era um médico generalista que tem uma clínica. Ele argumentava que já está difícil recrutar médicos para trabalhar, porque só os nascidos e criados aqui não são suficientes para atender à demanda. Os médicos vindos do continente europeu são fundamentais para que o sistema de saúde não entre em colapso, ele disse. Um argumento lógico que, no entanto, foi refutado por outro convidado: ‘Isso tudo é exagero. Vamos nos virar ainda que no começo a economia sofra. O importante é nossa soberania’ e acrescentou com uma frase que diz muito sobre como a opinião pública responde às campanhas nacionalistas: ‘Se me cortarem, verás que meu sangue é azul, vermelho e branco!’ Sério? O que isso quer dizer exatamente? É apenas mais um dos slogans que circulam e que são totalmente vazios de sentido, mas que ainda assim colam.

Outra alternativa para sair desta encrenca seria convocar um outro plebiscito. O que não é fácil. Tem que se obedecer um trâmite legal e o relógio está correndo. Mesmo se a Europa concedesse um prazo maior (além do 29 de março) para que esta Ilha pudesse pôr ordem na casa, qual seria o impacto de um novo referendo? Por exemplo, que perguntas fariam parte da cédula eleitoral? Poderia ser: querem sair mesmo sem um acordo, ou preferem permanecer na Europa? Ainda assim não há garantia de que o eleitorado iria votar de forma diferente do que votou em 2016. Se o resultado se repetir, estaremos de volta à estaca zero. Entretanto, vamos supor que o resultado fosse: quer saber, pensamos melhor, refletimos muito e resolvemos que queremos ficar na Europa. Pelo que tudo indica, qualquer que seja o resultado, não será por uma diferença de votos avassaladora. Por quê? Porque se tem uma coisa que o plebiscito de 2016 conseguiu, sem dúvida, foi rachar o país. Os partidos políticos tradicionais estão divididos. Hoje li que tem gente defendendo que eles sejam desmembrados, porque internamente as divisões são profundas e aparentemente irreconciliáveis. Li um outro artigo em que se propõe que Escócia e Irlanda do Norte permaneçam na Europa e o País de Gales e a Inglaterra saiam da Comunidade. Mas aí alguém argumentou, e Londres? Os londrinos votaram pela permanência.

Na terça, quando a primeira-ministra levava a pior pancada de sua vida política, notei que nas imagens do lado de fora do Parlamento Britânico apareciam várias bandeiras do partido nacionalista UKIP, que andava meio sumido. Existe o risco de que se um segundo referendo aprovar a permanência na Europa, eleitores insatisfeitos tenderão a migrar para os partidos de extrema-direita e provocar uma divisão ainda maior neste país.

Ninguém vai morrer de tédio por aqui nas próximas semanas. Esta parece ser a única coisa certa.

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2 comentários em “Sangue azul, vermelho e branco

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