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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

A mãe que quer ser pai

Toda notícia bem dada deve tentar, pelo menos tentar, responder às perguntinhas básicas: O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por Quê? O post de hoje vai ficar devendo. Não que eu não queira, mas é que a Justiça aqui da Ilha não permite. Quer saber? Tem um bom motivo para proibir a divulgação de todas estas respostas: proteger a privacidade dos envolvidos. Vou contar uma história real usando alguns dados fictícios, só para facilitar o entendimento. Vamos combinar que, toda vez em que eu estiver inventando alguma coisa, mudarei a cor da palavra, assim, você que lê este texto, fica sabendo o que é fato, o que é fita.

Mary (nome fantasia, tá?) nasceu menina, com jeito de menina, num corpo de menina e recebeu um nome menina. Até aí nada de excepcional. À medida em que crescia, Mary se convencia de que havia sido vítima de um engano do destino. Ela era menino e seu corpo estava trocado. Sua convicção era tão forte que, assim que pôde, deu uma recauchutada na lataria: entrou na faca e tirou as partes que julgava desnecessárias para sua identidade visual. O motor continuava o mesmo. Tanto que Mary engravidou. Se foi à moda antiga ou se recorreu à ciência, isso eu nem vou tentar fantasiar, porque não vem ao caso. O que interessa é que se tratava de um voo solo. Também não vou tentar imaginar como deve ter sido a gravidez, porque desconfio que faltariam cores neste arco-íris para descrever o turbilhão interno que deve ter sido gerar um bebê, ver seu corpo se transformando, encharcado de hormônios mil, acreditando ser um homem. O caso é que enquanto o bebê se desenvolvia em seu útero, Mary se tornou legalmente Richard. Recebeu a notícia de que poderia trocar de nome e que teria enfim a identidade que tanto desejava.

Muito bem. Assim que o bebê Baby nasceu, Richard foi ao cartório registrar a criança. O escrivão se recusou a registrar Baby sem mãe. Na certidão de nascimento, Richard queria que constasse apenas o nome do pai. Para o cartório, o nome da mãe poderia ser Mary, Richard, Ricardo ou Ricardão pouco importava, o nome não importava. O importante era que quem pariu a criança foi mãe e não pai. Para tentar contornar a situação, Richard estava disposto a ceder um pouquinho, ao invés de constar o nome da mãe e do pai, a certidão de Baby teria ‘parent’ (‘parent’ em inglês até se parece com parente, mas não é. ‘Parent’ significa pai e mãe, pais em português). O cartório se recusou a reinventar a roda, porque, segundo acredita, seria contra a lei. Richard não gostou pois estava convencido de que a decisão fere seus Direitos Humanos. O impasse vai ser decidido por um juiz numa sessão marcada para fevereiro. Se a vontade de Richard prevalecer, a lei provavelmente terá que ser mudada.

De acordo com a Anistia Internacional, um milhão e meio de transexuais vivem na Comunidade Europeia. Mesmo em países onde é legal mudar de nome ou se submeter a cirurgias, muitas dessas pessoas não vão por este caminho porque não querem ou simplesmente porque não podem arcar com os custos. A disforia de gênero, sentir que sua identidade sexual não é a mesma que o seu corpo de nascimento, é cada vez mais reconhecida. Esse assunto dá pano para manga. Tem gente que acredita que a certidão de nascimento de Baby não é da conta de ninguém fora do círculo familiar do bebê. Para outros, Richard não pode ter o melhor dos dois mundos: como assim, quer ser homem e tem o privilégio de gerar uma vida em seu corpo? Há quem pense que fomos longe demais, que esse é o fim dos tempos e quem acredita que devemos ser todos mais tolerantes uns com os outros.

Independentemente do que o público, com suas opiniões ardorosas, acredita, a Justiça deve tentar chegar a um veredito baseado não na moralidade da questão e sim em sua legalidade e o que for melhor para a criança. Esse ponto é defendido com maestria no filme ‘A balada de Adam Henry’ baseado no livro do escritor Ian McEwan. Aliás, um filmão com a melhor performance que já vi da atriz Emma Thompson.

 

Emma Thompson em ‘A balada de Adam Henry’

As leis e a moral não descansam eternamente embalsamadas num sarcófago, estão vivas e é justamente esta vitalidade que torna questões como estas tão interessantes e importantes para a sociedade. Estamos em constante movimento, não um movimento retilíneo uniforme, sempre para frente, mas ainda assim não estamos parados. O desfecho legal para o caso deve ser conhecido no começo do ano que vem. Se o texto final da certidão de nascimento vai ter ou não algum impacto da vida de Baby, ou na vida dos transexuais, só o tempo dirá. Enquanto isso, talvez seja interessante fazermos um exercício. O que achamos deste caso? Por que temos a opinião que temos? Quem sabe, ao buscarmos estas respostas, possamos nos conhecer mais intimamente.

 

2 thoughts to “A mãe que quer ser pai”

  1. Muito difícil opinar por uma pessoa de 73 anos que cresceu vendo homens e mulheres gerando filhos e atualmente tudo invertido. Espero que a justiça consiga resolver de uma forma que o “baby” não seja prejudicado e cresça com uma mente saudável. A mudança de gênero ainda me choca mas, estou tentando me adaptar a essa situação e desejando àqueles que querem trocar de sexo que encontrem a felicidade ao invés da depressão, etc…

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