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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Dissonância Cognitiva e o Me engana que eu gosto

Voltar ao Brasil, e principalmente à casa de meus pais, faz bem para memória. Numa destas visitas, minha mãe desenterrou de algum armário o Super Senha, um jogo que eu amava quando era criança. O primeiro sentimento que tive ao ver a caixa já gasta foi de alegria, o segundo foi de espanto ao enxergar a tampa, como se eu a tivesse visto de verdade pela primeira vez. Repare na foto abaixo:

 

Já imaginou um jogo com uma capa destas em pleno 2018? Olha a pinta do sujeito. O bigode, o casaco, o chapéu e, principalmente o cigarro na mão. A empresa que lançasse um brinquedo com uma embalagem destas iria provocar um tsunami nas redes sociais. O fato é que fumar nos anos 70 era chique. Para a a geração de meus pais, que frequentou a universidade nos anos 60, fumar era o máximo. Ainda me lembro das propagandas de cigarro na tevê, orçamento caríssimo, roteiros de filmes ação, machões e mulheres lindas. Há quem tenha saudade daquele tempo em que fumar era só prazer, sem culpa.

O caso é que a fila andou. O hábito de pitar perdeu seu charme, perdeu espaço nos lugares públicos e na vida das pessoas. Todo mundo sabe que fumar faz muito mal à saúde. No entanto, ainda tem muita gente que fuma. Quando esses fumantes veem fotos de pulmões empretecidos, bocas cobertas de câncer e outros horrores mais, acontece o que a psicologia social chama de Dissonância Cognitiva. ‘Guenta aí’, que já chego lá. Dissonância é quando duas coisas não batem, entram em conflito. Fumar é péssimo, de um lado. Fumo assim mesmo, do outro. Cognitivo tem a ver com capacidade de cada um de nós adquirir ou absorver conhecimento e crenças, que viabilizam a memória, a razão, as opiniões e as percepções da realidade. Então, simplificando bastante a teoria, Dissonância Cognitiva é um fenômeno que ocorre quando há um conflito interno entre duas ou mais ideias ou ações.

Vou tentar explicar melhor. Em 1957, um psicólogo social chamado Leon Festinger publicou um livro no qual detalha sua teoria de Dissonância Cognitiva. Para ele, a dissonância, a discórdia de ideias e ações vai contra o que nós queremos. Para fazermos sentido do mundo em que vivemos, precisamos de harmonia. Por isso, criamos mecanismos para lidar com esses desequilíbrios. No caso do fumante, ele pode querer resolver o conflito mudando hábitos. Fumar faz mal, então paro de fumar. Acaba a dissonância, mas nem sempre é fácil. Então, um dos mecanismos para lidar com as inconsistências pode ser minimizar os fatos: fumar não faz tão mal assim. Conheço pessoas que viveram até cem anos fumando todos os dias. Este pensamento pode ser a forma como o fumante lida com o conflito gerado. Mas tem mais uma outra estratégia: relativizar um dos fatos, tentar racionalizar, acrescentando mais um pensamento: fumar faz mal para saúde mas eu pratico esportes regularmente e tenho uma alimentação saudável, então não vai me fazer tão mal assim. Para resolver seu problema interior, o fumante pode ainda tornar seu hábito trivial: fumar faz mal, mas fumo assim mesmo, e daí? É muito mimimi, muito drama, não é tão importante assim.

A questão é por que gastamos tanto tempo e esforço tentando transformar nossas dissonâncias em consonâncias? Por que buscamos o equilíbrio? Porque para fazer sentido do mundo em que vivemos, precisamos de coerência, consistência. Nos faz sentir mais seguros. As pesquisas mais recentes sobre o tema revelam que nos sentimos fisicamente mal, quando experimentamos estes desequilíbrios, daí a necessidade de lidar com o incomodo.

Mas por que remexer agora nessa teoria dos anos 50? Nostalgia? Não. Se você for uma pessoa antenada, já deve ter visto que Dissonância Cognitiva está se tornando o termo da moda. É usado com cada vez mais frequência. Talvez porque estejamos vivendo num mundo extremamente polarizado, Dissonância Cognitiva tem aparecido em textos e entrevistas onde o assunto é política.

Durante a campanha de Donald Trump à presidência americana, um repórter da BBC foi até a uma área rural dos Estados Unidos, apelidada de Trumplândia, onde os eleitores votaram em peso para eleger o atual presidente. O repórter visitou uma igreja e entrevistou uma das fiéis. Naqueles dias, tinha vazado uma gravação na qual o candidato conversava com um amigo sobre como ele tratava as mulheres. A conversa era chula ao extremo. O repórter então perguntou para a mulher se ela ainda iria votar no Trump, mesmo depois de ter ouvido a gravação. Ela respondeu com um sorriso beatificado que: “estes são atos do passado. Donald Trump é um homem arrependido e temente a Deus. Meu voto é dele”. Um exemplo típico de Dissonância Cognitiva. A mulher resolveu o conflito de como justificar seu voto a um homem que havia feito uma coisa que ela desaprovava no fundo do coração, relativizando o fato. Como no caso do fumante que diz que fuma, mas que também tem uma vida saudável.

O assunto quente por aqui continua sendo Brexit, uma saga que se desenrola desde que os eleitores desta Ilha votaram pelo divórcio com a União Europeia. Uma das mais recentes discussões é se, depois da saída definitiva, os imigrantes europeus vão merecer um tratamento diferenciado daquele oferecido aos imigrantes de outras partes do mundo. Era esse o debate no rádio ontem. Os ouvintes decidiram descartar as nuances da pergunta e discutir apenas a questão da imigração. Um senhor ligou para dizer que todo mundo fala que só deveríamos deixar entrar profissionais qualificados, mas ele pensava que deveria ser o contrário. “Precisamos de quem colha frutas nas fazendas, porque os britânicos não querem fazer este trabalho”, ele argumentou. Depois completou, “meu filho foi para universidade, tem uma dívida enorme e, como muitos outros de sua geração, agora está desempregado, porque os imigrantes estão tomando os melhores empregos”. O jornalista que apresenta o programa perguntou se o filho dele era um cirurgião ou coisa do gênero. O homem disse que seu filho não vinha ao caso, mas acabou confessando: “meu filho quer ser uma espécie de Steven Spielberg e dirigir muitos filmes”. Então tá, o problema do desemprego do filho do ouvinte não estava em sua escolha profissional e sim nos imigrantes, que muita gente acredita que sejam um peso para a sociedade, mesmo depois de um estudo ser publicado nesta semana dizendo que eles contribuem, em média, duas mil e trezentas libras (cerca de R$12500) a mais por ano do que um contribuinte Made in Britain (pesquisa da Oxford Economics). Barrar os imigrantes europeus pode acarretar um aumento de impostos para o contribuinte, se o governo quiser fechar as contas, é o que o estudo parece indicar.

Na campanha do Brexit, era muito comum escutar: estamos cansados de ouvir os especialistas nos dizerem como temos que agir ou votar. Em outras palavras: não queremos fatos, queremos soluções para nossas dissonâncias. Precisamos de certezas fáceis e mágicas. Às favas com as notícias que nos desagradam, porque geram conflitos internos. De uma hora para outra, o estudo, o conhecimento e o saber foram relativizados e, de alguma forma, perderam sua importância. Até entendo o eleitor de áreas pobres deste país que votou pelo Brexit, o raciocínio é mais ou menos: “o que temos não está bom, então queremos mudanças. O preço não importa, se vai ou não dar perto não sei.” A realidade está se revelando muito mais complicada e desastrosa. O custo, altíssimo.

O mais interessante é que quando sociedades vivem situações polarizadas, como foi o caso do Brexit (em junho de 2016, 51,9% dos eleitores votaram pela saída, não exatamente uma vitória retumbante) ambos os lados do debate acusam o adversário de se valer da Dissonância Cognitiva para justificar suas escolhas. Os marqueteiros sabem muito bem que ‘fabricar’ ‘esticar’, ‘manipular’ argumentos e fatos funciona, porque o eleitor encontra justificativas para tentar contrabalançar os desequilíbrios entre suas crenças e convicções com o voto que vai dar. No caso do Brexit, era claro evidente que os dois lados mentiram para chuchu. Foi tudo de uma desonestidade intelectual absurda. O debate, ou a gritaria, foi exagerado e gerou medo. Ir ao supermercado fazer compra quando se está com fome não é uma boa ideia, porque como vários estudos demonstram, acabamos gastando mais e comprando coisas mais engordativas. Quando votamos com medo é a mesma coisa. Nossa tendência é escolher mal.

O ideal seria que resolvêssemos nossas Dissonâncias Cognitivas, nossas incoerências, mudando hábitos e não fatos. Nem sempre é fácil. Aliás, é das escolhas mais difíceis. No caso dos fumantes, antes era bacana fumar, como está escancarado na capa do meu brinquedo favorito de infância. Hoje em dia pega mal. Evoluímos. Somos mais bem informados sobre os riscos, sofremos mais pressão social para mudar o comportamento. Saber que fumar faz mal estragou um prazer para muita gente. Há quem diga que no passado era melhor, quando não se sabia dos riscos. Saber ou não saber das implicações não muda o fato de que fumar faz mal para saúde. Os fumantes podiam até não ter que lidar com mais essa dissonância cognitiva, mas o resultado para os pulmões era igualmente devastador. De posse da informação, podem fazer as escolhas que acham melhor, ou que dão conta de levar. Aí talvez esteja a chave para resolvermos nossas dissonâncias, tentar aprender com os erros do passado. Estudar e se informar, nem que esse caminho seja menos prazeroso. Cá pra nós, é praticamente impossível que possamos levar uma vida sem tropeçar internamente num desequilíbrio aqui, outro ali, mas fingir que eles não existem, ou buscar desculpas esfarrapas para justificarmos para nós mesmos as escolhas, que no fundo sabemos que nos fazem mal, é como dizer para si mesmo: me engano, porque eu gosto 

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