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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Elas ganham menos do que eles

O post de hoje começa com a história de uma mulher que é fera em dar notícia. Em mais de trinta anos de profissão, ela deu vários furos jornalísticos, ralou um bocado para informar e traduzir para grande parte do mundo o que rolava lá para os lados da China e outros países asiáticos. No entanto, foi um depoimento de duas horas e meia que ela prestou numa comissão parlamentar para investigar a diferença entre salários de homens e mulheres na BBC, que talvez tenha sido a sua maior contribuição profissional. Com você, leitor: Carrie Gracie.

Carrie Gracie

 

Carrie Gracie, de 56 anos, foi até o ano passado a editora da China da BBC, o serviço britânico de notícias para rádio e televisão. Filha de diplomata, Carrie se formou pela prestigiosa Universidade de Oxford, passou um ano ensinado inglês e economia numa universidade da China e, em 1987, começou a trabalhar como correspondente da BBC por lá. Ela é fluente em mandarim. Casou-se com um chinês e teve dois filhos. Saia com o barrigão de grávida pelas áreas rurais da China, driblando a censura local, para cobrir as notícias. Quando sua menina mais velha teve leucemia, a família voltou para a Escócia, de onde ela continuou seu trabalho à distância, até seu retorno ao país asiático. Ela ganhou vários prêmios importantes por seu trabalho, incluindo por um documentário que levou dez anos para ser concluído, mostrando as mudanças na China rural. Em 2011, foi a vez de Carrie enfrentar um câncer. Teve as mamas retiradas e depois de um ano e meio de tratamento, ainda careca por causa da quimioterapia, estava de volta ao vídeo trabalhando como sempre. Em 2013, recebeu o convite para ser editora da recém-criada editoria da China. Aceitou com a condição de que recebesse o mesmo salário que seus colegas homens, mesmo sabendo que seria julgada por deixar na Inglaterra seus dois filhos, que estavam perto de prestar o vestibular. Um diretor da BBC, de joelhos, segundo ela, implorou para que ela aceitasse o cargo. Carrie disse que sim, fez as malas e durante 200 dias por ano, passou a morar sozinha num apartamento alugado, trabalhando mais horas do que a prudência recomenda, para dar conta do recado. Nos outros dias do ano, ela trabalhava como apresentadora no serviço mundial da BBC aqui na Ilha.

Tudo muito bem, tudo muito bom, até que em julho do ano passado a BBC, sob pressão do governo para revelar o salário de seus jornalistas e apresentadores (a BBC é bancada com o dinheiro do contribuinte), publicou a lista de suas estrelas mais bem pagas. Aí a casa caiu: 62% dos homens e 34% das mulheres entraram na tal lista dos profissionais que recebiam mais de 150 mil libras por ano (cerca de 750 mil reais). Foi então que Carrie descobriu que seu salário, ao contrário do que havia prometido seu chefe no ato de contratação, era bem menor do que o de seus colegas do sexo masculino. Ela recebia 135 mil libras, sua colega, Katya Adler, que cobre a Europa (em plena era de Brexit, imigração em massa, etc) também recebia menos do que as 150 mil libras. As duas estavam fora da lista. Já o jornalista Jeremy Bowen, que cobre o Oriente Médio, recebia entre 150 e 199 mil libras e o colega Jon Sopel, encarregado das notícias na terra de Trump, entre 200 e 249 mil libras. Pelas contas de Carrie, ela e Katya recebiam em média 50% a menos que seus colegas correspondentes internacionais.

A lista abriu muitas feridas. A jornalista Samira Ahmed declarou que sentia-se tão envergonhada por receber um salário menor do que o de homens realizando a mesma tarefa, que era como se seus chefes tivessem fotografias dela nua em seus escritórios e dessem risada cada vez que olhassem para elas. Para Samira, a diferença salarial na prática é considerar as mulheres como cidadãos de segunda classe.

Carrie ficou mais do que indignada. Partiu para a luta. Dias após a divulgação da lista escreveu uma carta ao chefão da BBC. Dois meses depois, recebeu uma oferta de aumento de salário: 33%. Um aumento considerável, é claro, mas mesmo assim seu salário seria menor do que de seus colegas correspondentes. Carrie recusou a proposta e contra-atacou. Em seu website, escreveu uma carta aos leitores, dizendo que estava se demitindo do cargo de editora da China. Acrescentou que se tivesse aceitado a oferta estaria perpetuando a cultura secreta e ilegal de diferença salarial entre homens e mulheres.

Desde então, a BBC reconheceu que, ‘sem saber’, havia remunerado Carrie menos do que seu trabalho merecia. E ofereceu mais de 100 mil libras para que ela largasse esse osso e desistisse da ação que movia contra a corporação. Mais uma vez, Carrie não aceitou. A BBC afirma que o trabalho na China demandava menos de Carrie do que o trabalho nos Estados Unidos, onde seu colega Jon Sopel recebia mais de meio milhão de reais a mais do que ela por ano. Carrie diz que Sopel não teve que aprender outra língua para realizar seu trabalho, não teve que se adaptar a uma cultura tão diferente da britânica, e, mais importante, não precisa pôr a sua vida em jogo ao reportar de uma região onde a censura, a vigilância e a intimidação policial e do governo são uma constante. Ela afirmou que poderiam oferecer todo o dinheiro do mundo a ela, mas ela só iria sossegar quando reconhecessem que o trabalho dela tem o mesmo valor do que o trabalho de seus colegas correspondentes. E concluiu: “nós trabalhamos com a verdade. Não podemos funcionar sem a verdade. Se não estamos preparados para honestamente olharmos para nós mesmos (BBC), como podemos esperar que confiem em nós ou em qualquer coisa que nós noticiamos?”

Sabe no que deu isso? Num primeiro momento, várias jornalistas da BBC ouviram de seus chefes que aumentar seus salários faria com que outros profissionais fossem despedidos, porque não havia outra forma de fechar as contas. Apelem para suas consciências e evitem a culpa. Lindo, né?

Carrie seguia até junho como apresentadora de um dos canais da BBC. Sua ação contra a empresa custou uma fortuna e não só em investimento financeiro. Ela pediu um afastamento porque se sentia desconfortável e pressionada. Carrie recebeu centenas de cartas de homens e mulheres do mundo inteiro se solidarizando com sua luta. Em julho passado, um ano após a divulgação da lista salarial, mais de mil funcionárias da BBC haviam exigido que corporação revisse seus salários. No dia 29 de julho, Carrie e a BBC publicaram juntos uma declaração que dizia mais ou menos : “A BBC está comprometida com o princípio de igualdade salarial entre homens e mulheres e se desculpa por ter remunerado Carrie abaixo do salário a que ela tinha direito e agora quer se redimir de seu erro.”

No mesmo dia, Carrie veio a público para dizer que a BBC havia sido sua família por mais de 30 anos e que familiares às vezes precisam brigar entre si, mas que é um alívio quando a gritaria cessa. Na semana seguinte, a BBC divulgou uma nova lista na qual a desigualdade de salários baixou de 9.3 para 7.6%. E na lista dos felizardos que ganham mais, há mais mulheres do que no ano passado.

Carrie agora está num ano sabático, no qual ela pretende escrever sobre sua experiência na China e sua luta para diminuir a desigualdade salarial entre os sexos. Para ela, a razão pela qual da BBC pensou que poderia sair bem dessa é que eles não levaram em conta o efeito multiplicador da solidariedade.

A igualdade salarial entre homens e mulheres, que exercem a mesma função, tem sido garantida por lei há anos aqui na Ilha. Na prática, como mostra o escândalo da BBC, a história é outra. O que a saga de Carrie Gracie demonstra é que a tenacidade, a solidariedade e informação são armas poderosas na conquista de uma sociedade mais justa.

 

8 comentários em “Elas ganham menos do que eles

  1. “…foi um depoimento de duas horas e meia que ela prestou numa comissão parlamentar para investigar a diferença entre salários de homens e mulheres na BBC, que talvez tenha sido a sua maior contribuição profissional.”
    Já que Carrie Gracie é ‘fera em dar notícia’, não precisava de um depoimento de mais de duas horas a respeito das diferenças salariais, bastava ela dizer:

    “Mulheres, não aceitem ganhar menos que homens no mesmo cargo mas vocês aceitam e ninguém as obriga, a’culpa’ não é do empregador, é de vocês mesmas!”

    Assim ficaria bem mais rápida, clara e objetiva a mensagem e acabaria a ‘ladainha’, mimimi e as redundâncias desnecessárias no ‘pronunciamento’!

    1. JLT, obrigada pela leitura. Quanto ao seu comentário, melhor irmos por partes, assim talvez facilite a compreensão do texto:
      O depoimento que a jornalista prestou à Comissão do Parlamento Britânico durou mais de duas horas, porque o assunto é importante e ela respondeu às várias questões levantadas pelos parlamentares. Trata-se de um inquérito que é levado a sério por aqui. Tanto é que a BBC saiu muito mal desta história e teve que rever sua folha de pagamento.
      Quanto ao “Mulheres, aceitem ganhar menos que homens no mesmo cargo mas vocês aceitam e ninguém as obriga, a’culpa’ não é do empregador, é de vocês mesmas não!” É exatamente o contrário. Ao ser contratada, o chefe de Carrie garantiu que o salário dela seria igual ao de seus colegas do sexo masculino. A promessa era falsa e não foi cumprida. Ao denunciar a prática ilegal (ilegal sim pois a lei garante a igualdade salarial) ela deixou claro que não aceita ganhar menos e ser enganada.
      “Assim ficaria bem mais rápida, clara e objetiva a mensagem e acabaria a ‘ladainha’, mimimi e as redundâncias desnecessárias no ‘pronunciamento’! Mais uma vez, não se trata de mimimi e tampouco ladainha quando um cidadão, seja de que sexo for, defende seus direitos garantidos por lei.

  2. As pessoas podem fazer o mesmo trabalho; mas o resultado desse trabalho nem sempre é igual! O parâmetro a ser utilizado para o salário, ao meu ver, não é estar realizando o mesmo trabalho; e sim que o resultado desse trabalho sejam iguais, semelhantes, equivalentes! Caso contrário, enquanto um trabalha e o outro “morcega”, os salários não podem ser iguais!

    1. Observador do Norte, obrigada pela leitura. Você tem toda razão, duas pessoas podem realizar o mesmo trabalho com níveis de competência diferentes. Aquele que não apresenta bom rendimento pode ser demitido e o empregador, se quiser, pode tentar achar outro que tenha melhor desempenho. No caso da jornalista citada no texto, a empresa (BBC) sabia muito bem de sua competência profissional antes de contratá-la para o cargo de editora. Ela havia trabalhado para eles durante décadas como correspondente e apresentadora. Ninguém pode dizer que ela “morcega” enquanto o outro trabalha, porque se fosse assim, ao invés de uma promoção à ela teria sido oferecida a porta da rua. Além do mais, a natureza do trabalho de Carrie, com entradas ao vivo praticamente todos os dias, não permite que ela esteja encostada sem fazer nada. O assunto é relevante, tanto que gerou uma Comissão de Inquérito no Parlamento, porque a lei garante a equiparação salarial entre funcionários e funcionárias. É um critério mais justo, e menos subjetivo, daquele que decide quem merece ou não o salário X ou Y, até porque, como o texto mostrou, a balança sempre parece mais favorável para um lado do que para o outro. E não se trata apenas de defender os direitos das mulheres, trata-se de reforçar a importância da Justiça (oposto de injustiça), independente de sexo. Exatamente por isso, as leis que deveriam garantir as conquistas sociais são tão importantes, embora nem sempre elas sejam capazes de resolver todas as questões. Como sociedade estamos muito melhor amparados por elas do que sem elas.

  3. Se uma pessoa não está satisfeita com o salário, peça demissão. Se ela for mesmo uma fera, não faltará oportunidades de trabalho em outro lugar. O resto é puro vitimismo.

    1. Pedro, deixa eu ver se entendi. Você é convidado a aceitar um cargo numa empresa. Seu empregador diz que, além do salário, você terá direito a plano de saúde, vale refeição e um bônus no fim do ano. Você começa a trabalhar e não ganha nada do que foi prometido, apesar de ver que o seu colega, que exerce a mesma função que você, recebe todos os benefícios que lhe negaram. Então, para você não se colocar no papel de vítima e reivindicar o que lhe foi prometido, você pede demissão. É assim que funciona?

  4. Bom dia! Interessante o texto. Mas em minha opinião, cada caso é um caso. As empresas publicas e privadas em sua maioria tem planos de carreira onde voce se enquadra de acordo com a sua qualifcação, tempo de casa, , curriculo e conhecimento. Os planos não especificam masculino e feminino, talvez ainda exista alguns lugares como o mundo da moda, jornalismo e etc que possa existir a diferença de acordo com o sexo, mas isso não pode ser generalizado como é feio hoje em dia pela midia. Até porque também existe o inverso.

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