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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Espanhóis demais na Espanha

Talvez as férias dos seus sonhos envolvam uma praia paradisíaca, areia branca e fininha, mar azul turquesa. Um lugar onde internet não pega e, de noite, o céu despoluído faz você acreditar que se estender o braço vai alcançar a Via Láctea. Não?

Quem sabe, as estrelas que te comovem são as dos hotéis. Quanto mais estrelado, melhor. Piscina infinita, serviço nababesco, lojas chiques e Champagne sempre ao alcance. Mesmo para quem dinheiro não é problema, escolher onde e como passar as férias pode ser problema. O hotel mais luxuoso do mundo não vai agradar a todos, tampouco a experiência despojada.

Quando eu era criança, viajar para o exterior era muito mais difícil. Custava mais do que hoje em dia. Aqui na Ilha, depois que votaram pelo Brexit (a saída do Reino Unido da Comunidade Europeia), a libra passou a valer menos e ficou mais caro ir para o exterior. Ainda não sabemos como

será esta saída. No momento, qualquer cidadão britânico tem livre acesso aos países europeus, nada de filas quilométricas na chegada e passaporte carimbado. Dependendo do que for ou não for acertado entre as partes, pode ser que os britânicos precisarão de um visto de entrada para estes países. Poderão, como acontece com cidadãos de vários países ( o Brasil por exemplo)  levar uma porta na cara ao tentarem entrar na Europa.

O plebiscito do Brexit foi um divisor de águas neste país. A vitória dos que querem o divórcio com a Europa foi apertada. A geração dos aposentados votou em peso pelo fim deste casamento, o que gerou problemas em várias famílias. Tenho amigos próximos que passaram a evitar os almoços de família, porque acham difícil ouvir os pais defenderem o Brexit.

Dona Freda e sua carta

Pois foi justamente uma aposentada, uma senhora chamada Freda Jackson, de oitenta e um anos, que andou ganhando espaço na mídia daqui nos últimos dias. Ela juntou seu dinheirinho da pensão e comprou um pacote para passar uns dias em Benidorm, na Espanha. A cidade praiana na Costa Blanca espanhola passou de uma vilinha de pescadores, nos anos sessenta, a um dos destinos mais procurados do turismo de massa no país. Benidorm tem um grande número de habitantes estrangeiros. O maior grupo é de britânicos, que quando moram fora de seu país nunca se classificam como imigrantes e sim como expatriados. Em Benidorm, há vários hotéis com diárias camaradas, boates e muitos bares; um chamariz quase irresistível para os ingleses, que acham que tirar férias seja sinônimo de enfiar o pé na jaca num país com menos chuva do que aqui.

Benidorm

Dona Freda com certeza tinha altas expectativas com relação às suas férias. Mas acabou frustrada. Houve um problema com o voo, ela, que tem problemas de mobilidade, inicialmente foi alojada no décimo quarto andar do hotel. Escreveu uma carta para a operadora de turismo para reclamar e acabou ficando famosa pelo teor de suas reclamações. Não deu para relaxar, afinal:

  1. Havia espanhóis demais no hotel! Um deles esbarrou nela, ela quase caiu de pirueta no chão e o mal-educado nem se desculpou;
  2. Os espanhóis são rudes;
  3. O programa de entretenimento do hotel era voltado, vejam só, para os espanhóis
  4. A comida também, quem diria, era para agradar ao paladar hispânico.
  5. No final de sua carta de reclamações, dona Freda pergunta:

– Será que eles não têm outro lugar para passarem suas férias?!

Diria que a aposentada descobriu da pior maneira possível o que é ter seus comentários viralizados. Se as férias foram ruins, o pós-férias tem sido um tormento para a inglesa. Ela tem levado muita traulitada da mídia. Tanto que procurou um jornal para explicar que seus comentários foram tirados do contexto e que, de tudo o que ela havia escrito na carta, o mais importante era o atraso do voo.

Seus 81 anos de idade não contaram muito na hora das discussões que vi pela internet e no rádio. A batalha entre gerações neste tempo de Brexit ganhou força. Ouvi e li comentários dizendo que este tipo de pensamento tão anacrônico é um resquício do tempo em que este era de fato um Império Britânico. Os aposentados, alguns afirmam, roubaram de seus netos a cidadania europeia ao votarem pelo Brexit e agora reclamam de que não recebem dos europeus o tratamento do qual se julgam merecedores.

O negócio é que, com ou sem conflitos aqui na Ilha, o que se vê por aí no mundo afora é um ressurgimento de um sentimento nacionalista. Em alguns países, movimentos isolados mandam recados aos turistas: vocês não são bem-vindos aqui. O convidado bem-educado sabe reconhecer e respeitar as tradições do lugar que visita. E o bom anfitrião consegue fazer o visitante sentir-se bem-vindo. Regrinhas básicas do bem viver.

 

 

 

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