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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Geração Sensata

Os jovens aqui da Ilha estão bebendo menos, usando menos drogas, fumando menos, cometendo menos crimes e engravidando menos do que as gerações anteriores. É o que revela os dados publicados pelo Office of National Statistics, IBGE daqui. Os números são tão reveladores que os jovens atuais foram apelidados de ‘Geração Sensata’.

De 2005 até 2017, o consumo de bebidas alcoólicas entre jovens de 16 a 24 anos caiu 10%. A queda também foi de 10% entre os adolescentes que experimentaram drogas entre 1996 e 2016. O número de adolescentes grávidas caiu quase que pela metade entre 1992 e 2016, o mesmo aconteceu com o consumo de cigarros entre 1977 e 2017. E o número de jovens entre 10 e 17 anos que foram para prisão baixou de 350 mil em 2007 para 98 mil no ano passado. Muitas notícias para celebrar. Mas como ler estes números? Dá para dizer que os adolescentes desta Ilha estão realmente mais ajuizados? Juízo é o mesmo que felicidade? O que aconteceu?

Um longo estudo conduzido pela University College of London vem acompanhando mais de 19 mil famílias de crianças que nasceram entre os anos 2000 e 2001. Os pais já responderam a vários questionários sobre o desenvolvimento dos filhos: preocupações com problemas comportamentais e de saúde mental. Os dados foram coletados quando as crianças tinham 3,5,7,11 e 14 anos. O estudo revelou que 24% das meninas de 14 anos e 18% dos meninos da mesma idade apresentavam sintomas de depressão. Nos últimos 3 anos, de acordo com um levantamento nas clínicas médicas de todo país, o número de meninas entre 13 e 16 anos que se automutilam cresceu 68%. São as adolescentes que se cortam, se queimam ou ingerem substâncias perigosas como forma de lidar com o excesso de ansiedade. Esta Ilha é de longe o país europeu onde mais jovens se machucam intencionalmente (400 em cada grupo de 100 mil). Cresce também o problema com distúrbios alimentares e de imagem.

Os números da chamada geração sensata e os números sobre a quantas anda a saúde mental dos jovens por aqui contam duas histórias bem diferentes: uma para comemorar e outra para chorar. Será que as duas estão ligadas?

Recentemente passei muitas horas trabalhando como fiscal de exames, uma espécie de Enem que eles têm por aqui. Foram dias intermináveis fazendo cara de paisagem. Com tempo de sobra, comecei a reparar nos adolescentes de 15 anos, enquanto eles prestavam os exames. Foram muitas provas: pelo menos 3 de matemática, 3 de inglês e 3 de ciências. Fora as outras matérias. A esmagadora maioria das meninas tinha cabelo comprido, sobrancelhas feitas e usava maquiagem. Os meninos, posso jurar, faziam escova no cabelo antes das provas. Parecia um exército de clones. Não tenho a menor pretensão de formular nenhuma teoria grandiosa, já que o que observei se refere apenas ao pequeno grupo (200 e poucos estudantes) com o qual trabalhei. Mas, ao reparar que eles tinham mais do que o uniforme em comum para deixá-los ‘pasteurizados’, foi inevitável compará-los com a minha geração. O que me chamou muita atenção foi o fato de que não havia quase nenhuma diversidade no grupo. Agora vou entregar a minha idade, mas quando eu estava na escola secundária havia as ‘cocotas’ (tive que mergulhar nas profundezas do passado para resgatar esta palavra), as ‘hipppies’, as esportivas, as Caxias, as moderninhas e as que não estavam nem aí para a hora do Brasil. Uma história similar com os rapazes. Não tenho absolutamente nada contra as meninas usarem maquiagem, fazerem a sobrancelha e usarem os cabelos compridos, como também não tenho nada contra os rapazes com penteados caprichados. O problema é serem todos iguais. Que o desejo do adolescente é pertencer ao grupo não é novidade nenhuma. Não era no tempo das ‘cocotas’ e não é hoje em dia. O que pega é a pressão que eles sentem para se apresentarem bem. A preocupação com a imagem.

Observando estes adolescentes, fiquei pensando que a minha geração foi a que realmente se beneficiou da liberdade  que as queimadoras de sutiã tornaram possível. Talvez nunca tenha se falado tanto em diversidade, identidade de gênero, etc. No discurso, pode até parecer que eles sejam mais liberais, mas na prática, o que reparei é que esta geração sensata é mais conservadora e menos livre. Sente-se pressionada a se enquadrar num padrão estético que na prática é implacável com quem não se enquadra.

Os estudos com os adolescentes por aqui revelam que eles se sentem ansiosos por causa das intimidações virtuais e o excesso de pressão na vida acadêmica. Estão sobrecarregados por todos os lados. Online e offline.

Se fosse “só isso”… mas tem mais: a quantidade absurda de informação que chega até esses adolescentes faz com que eles tenham dificuldade em avaliar riscos. Vou dar um exemplo. Minha filha de 13 anos veio outro dia com uma conversa de que ela nunca vai usar o batom de uma amiga ou deixar que ninguém use o batom dela. Por quê? Porque num caso raríssimo, que aconteceu na Austrália, uma mulher usou a maquiagem da amiga, pegou um fungo raro, que não combinou bem com o corpo dela, e  entrou em coma. Quase teve perda total. Esta história foi tão repetida na internet, que passou a ser comum. Como se todos os dias centenas de mulheres sofressem do mesmo mal que acometeu a australiana. Como se passar o batom alheio levasse ao CTI.  De tanto ver a mesma notícia, a percepção da minha adolescente é de que compartilhar maquiagem é um comportamento arriscado. Fica difícil colocar os fatos em perspectiva. Aliás, não é fácil para nenhum de nós e talvez seja ainda pior para quem esteja vivendo os seus chamados anos formativos. O tempo em que o cérebro ainda não acabou de amadurecer totalmente.

Os números sobre a ‘geração sensata’ revelam que os adolescentes de hoje parecem estar reduzindo os  comportamentos de risco. Preferem ficar em casa a saírem e se envolverem em confusão (é bom ressaltar que os números revelam mudanças nos quesitos citados, mas esta Ilha ainda não é habitada por uma legião de anjos na puberdade). Há quem diga que a melhora de comportamento se deva a um investimento governamental na educação. Outros, que a internet sim  é a grande transformadora de hábitos. É provável que seja uma combinação dos dois fatores. Já que hoje estou com o ‘chutômetro’ ligado, diria que a internet tem mais responsabilidade nesta história do que a educação. Para o bem e para o mal.

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2 comentários em “Geração Sensata

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