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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Dê uma chance à paz

‘Give peace a chance’, dê uma chance à paz. Em 1969, John Lennon cantava pela primeira vez em público seu hino pacifista contra a guerra. Era o tempo da Guerra do Vietnã.

Fevereiro de 2018, Londres: ‘I WILL HATE WHAT I WANT’, vou odiar o que eu quiser. A frase, assim toda em letra maiúscula, estava estampada num cartaz no ‘speakers corner’, o canto do discurso no centro da capital inglesa. O orador mais polêmico do dia: Tommy Robinson, o porta-voz da extrema direita britânica que odeia os mulçumanos.

Vou odiar o que eu quiser

Alguém entende como fomos do desejo de paz ao desejo de ódio? Quem entender, por favor, me explique. Tommy Robinson está no momento cumprindo uma sentença de 13 meses de prisão por desobedecer duas ordens judiciais. Ele estava fazendo transmissões ao vivo de julgamentos, apesar de uma ordem expressa do juiz proibindo a transmissão, pois poderia influenciar o resultado da sessão. Ao ser condenado, a juíza disse em seu pronunciamento que a prisão de Tommy Robinson não tinha nada a ver com censura da liberdade de expressão. Os julgamentos não podem ser transmitidos (qualquer julgamento) pois podem ‘melar’ o resultado e influenciar o júri e a opinião pública. Robinson (nome fantasia, já que no seu registro de batismo ele é Stephen Christopher Yaxley-Lennon) desobedeceu a corte, por isso foi preso.*

Tommy Robinson foi um dos fundadores da ‘English Defense League’ (Liga de Defesa Inglesa/ EDL, em tradução livre), um movimento social de extrema direita que se opõe ao islã e aos mulçumanos e incita à violência contra eles. A maior parte do EDL é de homens brancos, ingleses de baixa renda. São os hooligans, os agressivos torcedores ingleses que ficaram conhecidos no mundo inteiro por sua violência e truculência. A EDL tem um forte viés nacionalista e populista e afirma que nenhum mulçumano pode ser considerado um inglês legítimo. Em 2011, dois de seus membros foram presos acusados de planejar um atentado explodindo bombas em mesquitas. No mesmo ano, o extremista nacionalista norueguês Anders Breivik explodiu uma van em seu país matando oito pessoas. Foi descoberto que o terrorista norueguês mantinha contato com os extremistas da EDL.

Tommy Robinson apareceu no ano passado num programa matinal de tevê segurando o alcorão e dizendo que o livro sagrado dos islâmicos é uma ameaça ao mundo e tem que ser exterminado. Para ele, todo mulçumano é terrorista. Os islâmicos são os inimigos dos ingleses do bem.

Ontem a Inglaterra apanhou da Croácia e está fora da Copa do Mundo. Os ânimos não estão exatamente calmos por aqui e, para completar, chegou na hora do almoço o presidente americano Donald Trump e sua primeira dama. Em 1977, seu predecessor Jimmy Carter foi recebido com festa em Newcastle: vinte mil pessoas lotaram as ruas para dar as boas-vindas ao então presidente. Trump que não espere a mesma recepção. Sua visita tem sido motivo de divergências desde que a primeira-ministra Theresa May fez o convite. Mas o que a visita de Trump tem a ver com o Tommy Robinson?

Tem tudo a ver. Trump Jr tomou partido de Robinson quando tuitou a frase de um dos seguidores do extremista de direita que dizia mais ou menos: ‘Não deixe que a América siga estes passos’, se referindo à prisão de Robinson. Seus seguidores, que se sentem validados pela política de Trump de vetar a entrada de cidadãos mulçumanos nos Estados Unidos, saíram hoje pelas ruas de Londres e promoveram um protesto violento perto da sede do governo, pedindo a liberdade de seu líder. Deixe-nos odiar quem quisermos odiar estava estampado na cara dos manifestantes que gritavam palavras de ordem racistas, enquanto faziam saudações nazistas e depredavam ônibus e carros. Oito policiais foram feridos e nove manifestantes foram presos.

A visita de Donald Trump tem sido um pesadelo para a Scotland Yard, a força policial de Londres. Nenhum policial poderá tirar folga nestes dois dias em que Trump estará por aqui. Quatro mil deles estarão pelas ruas da capital. O gasto com a operação passa dos doze milhões de libras (cerca de R$60 milhões). A visita foi coreografada de tal forma que Trump passará o mínimo de tempo possível na capital e nas áreas onde haverá protesto.

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, é um opositor ferrenho das políticas racistas do presidente americano. Os dois não se bicam. Pois, Khan autorizou que um enorme balão representando Trump de fralda e segurando um celular decore o céu da capital inglesa durante a visita oficial. A ideia do balão de seis metros de altura é, segundo os organizadores do protesto, “ridicularizar o presidente, que não responde a argumentos racionais, mas tem pavor de ser ridicularizado”. A expectativa é de que milhares de pessoas tomem as ruas de Londres amanhã para protestar contra o presidente americano.

Baby Trump

A visita é uma Encrenca, assim mesmo em maiúsculo, para a primeira-ministra. Esta semana tem sido especialmente difícil para ela. O negociador do Brexit (a saída desta Ilha da Comunidade Europeia) pediu as contas. Boris Johnson, amiguinho de Trump e até o começo da semana uma espécie de ministro das relações exteriores, também pulou fora. Os dois dizem que a proposta de Theresa May para o Brexit não é boa, pois mantém muitos laços com a Europa. Ao comentar a crise, Trump disse que gostaria de se encontrar com seu amigo Boris Johnson e acrescentou em seu estilo pouco diplomático que este pais está uma bagunça. Ele chegou hoje por aqui, mas antes criticou a Alemanha e disse que os países terão que contribuir com 2% de seus PIB para a Otan. Theresa May vai ter que caprichar no óleo de peroba, engolir uns sapos aqui, outros ali e ser uma boa anfitriã para o presidente americano se quiser manter o que os britânicos adoram chamar de uma relação especial com seus aliados americanos, especialmente neste período turbulento em que não está claro sequer se haverá um acordo com a Comunidade Europeia.

Os próximos capítulos prometem ser agitados. A sexta-feira, ao que tudo indica, será quente. Este país tão rachado ao meio pelo Brexit, onde mensagens racistas e nacionalistas ganham força, faz com que eu me sinta saudosista do tempo em que o desejo era de paz e não de ódio. Entre o Lennon dos Beatles e o Lennon que está na cadeia existe muito mais do que décadas de distância.

Vamos dar uma chance à paz.

*No dia 11 de julho de 2019, Tommy Robinson, líder da extrema direita britânica foi mais uma vez condenado a nove meses de prisão por desobedecer a uma ordem judicial e transmitir ao vivo no Facebook um julgamento.

 

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