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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Vai faltar cerveja

Imagine um país que até outro dia mesmo estava congelado pela tempestade apelidada de Besta do Leste e que agora tem vivido dias de verão com temperaturas ‘escaldantes’ (padrão local, óbvio), que chegam aos 30 graus!

Imagine um país que desde 1966 não vence a Copa do Mundo e que, para surpresa de todo mundo, bate o adversário Panamá (6 a 1) na Rússia.

Imagine um país que gosta de uma birita e que tem que racionar o consumo de cerveja. Na marra. Isso mesmo, está começando a faltar cerveja, refrigerante e cidra nas prateleiras. Justo agora?

A Associação Britânica de Cerveja e Bares (BBPA, na sigla em inglês) estimou que quatro milhões de pints (1 pint = 568mls) extras foram consumidas durante o jogo contra o Panamá. Então foi isso, os torcedores animados detonaram o estoque de cerveja do país. Certo? Errado. A bebedeira foi boa, mas o problema é mais complicado. Tem faltado um ingrediente fundamental na produção da bebida: o CO2.

Pelo menos cinco produtores de dióxido de carbono no norte da Europa estão com as operações canceladas, para manutenção em seus equipamentos. O Reino Unido possui várias usinas que produzem o gás, mas três das quatro maiores também estão fechadas por motivos técnicos. Esta Ilha depende da importação do gás que vem da Europa. Importa cerca de um terço de suas necessidades de CO2. Esticando um pouco mais o tema, dá para pensar como é que a indústria vai penar depois que o Brexit (a saída da Comunidade Europeia) se der de fato. Este país é um grande mercado para o dióxido de carbono e terá que renegociar os contratos de compra, quando não fizer mais parte do clube.

O CO2 virou o assunto da hora por aqui. E não foi apenas por causa da cerveja e outras bebidas gasosas. O gás é muito usado na preservação de alimentos, aumentando o tempo de prateleira. Sabe aquele bife que vem embalado numa bandeja de plástico? Pois é, a embalagem vem cheia de dióxido de carbono para que a carne dure mais. O gelo seco usado para manter os produtos frescos durante o transporte também depende do CO2. O gás é usado em várias etapas de produção, que a gente nem sabia até que a encrenca se instalasse. Os porcos e os frangos devem estar adorando a atual crise. A Quality Pork Limited (QPL), que abate 6.000 suínos por semana, interrompeu suas operações na tarde de terça-feira, porque ficou sem CO2 usado para atordoar os animais antes do abate. Vegetarianos e veganos, celebrai!

A indústria de vários setores está sendo afetada pela falta do CO2, mas é falta cerveja que movimenta o debate por aqui. Pode faltar tudo, mas não pode faltar cerveja no verão. Os comentários que li na internet são engraçados. Muitos puristas dizem que o que nós brasileiros chamamos de cerveja é só uma bebida aguada e gasosa. Para eles, uma boa cerveja sem gás, que em geral eles bebem sem estar gelada, é o que é a bebida genuína, o Real Ale. Ai vem os que lembram que para a bebida sair da torneirinha no bar, a bomba também precisa de dióxido de carbono. Para mim, o comentário campeão, que imagino foi escrito por um apreciador da cerveja, dizia: vamos resolver o problema das mudanças climáticas engarrafando o CO2 nas cervejas! Tim-tim, ganhou o torféu besteiras de bar!

2 comentários em “Vai faltar cerveja

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