Skip to main content
 -
Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Requiem para Marjorie

Se estivesse viva, Marjorie completaria hoje cem anos. Ela foi uma das pessoas mais interessantes que conheci na Inglaterra. Foi embora, aos noventa e seis anos, contrariada. Tinha resolvido que ia viver até os cem, para receber um telegrama de felicitações da Rainha. Marjorie, o telegrama não chegou, mas não me esqueço de você.

Este post ‘Da Gaveta*’ é para manter viva a memória de uma senhora muito especial, que tinha o vício de gostar da vida e de ser independente.

 

arquivo pessoal

Sessenta e cinco degraus separam a rua do quarto miserável onde a família se espreme no tempo que separa as duas grandes guerras. No corredor, um fogareiro; as meninas dividem a cama e uma cortina fina e encardida protege a intimidade do casal. Lá em cima, luz de lampião. Luz elétrica, só no salão de bilhar, no andar térreo onde o pai trabalha e as mulheres são proibidas de entrar.

Sessenta e cinco enormes degraus que só existem na memória de menina, que ela revisita há quase noventa anos. Eles vieram abaixo para dar lugar à expansão da estação de Clapham, no sul de Londres muitas décadas atrás.

Sessenta e cinco degraus que estão prestes a desabar mais uma vez, quando a memória se apagar para sempre. Marjorie está exausta, mas continua no comando, como nunca deixou de estar. É hora de partir. Os lábios tão secos já não conseguem cobrir a boca. Os dentes estão expostos e as rugas parecem couro ressecado. O corpo magérrimo sustenta um fio frágil de vida. O presente não é bom. Ela abre a caixa de memórias. O passado é mais seguro. As histórias já ouvi várias vezes, sempre na mesma sequência, sempre com as mesmas palavras. Repetir, repetir, como uma criança, que pede para ouvir o mesmo conto de fadas todas as noites. O passado é mais seguro.

No quarto de hospital, só uma fina cortina a separa da paciente na cama ao lado. Ela não se preocupa com privacidade. Os assuntos terrenos já não são importantes. Com a voz fraca, me conta as histórias uma última vez.

Marjorie está ao pé da escada. Ela pensa se já está na hora de subir os sessenta e cinco degraus. Está entediada e brinca de acender e apagar a luz. O interruptor é daqueles antigos, um fio que desce dependurado do teto. Ela aperta o botão, aperta de novo e de novo. Até que leva um empurrão, que a faz subir os sessenta e cinco degraus sem parar para tomar fôlego. Ela chega ao topo convencida de que foi um dos homens que frequentavam o salão de bilhar. Só anos depois, ela se dá conta de que tinha levado um choque elétrico.

Menina cheia de energia, confinada num cubículo, filha de mãe zelosa, religiosa, severa e reservada e de pai ausente, que sempre achava tempo para ir ao pub depois do trabalho, Marjorie vivia se metendo em encrencas e acabou conquistando a fama de incorrigível. Quando tinha oito anos, todas as crianças da rua só falavam de um refrigerante novo que tinha chegado ao mercado. Marjorie sonhava em provar a novidade. Pedir para a mãe, nem pensar; a bebida custava seis centavos de libra! Outra menina da rua, Maggie Smith, ofereceu para comprar o refrigerante para Marjorie. Elas foram até a casa da menina. A mãe dela estava na cozinha e as duas foram direto para o quarto dos pais. Maggie levantou o colchão, tirou seis centavos de dentro de um saco de moedas e deu o dinheiro para Marjorie. Marjorie nunca me contou que gosto tinha o refrigerante. Mas ficou com um sabor amargo na boca para sempre. Ela sempre terminava essa história num tom de contrição, dizendo: ‘foi neste dia que eu me tornei uma ladra’.  Ah, os pecados que a gente não perdoa…

A mãe de Marjorie era prolífica em engravidar e perder bebês. Ela queria muito um menino. Marjorie sabia disso porque a irmã mais velha, Bernice, havia contado para ela. ‘Minha mãe nunca conversava comigo, só com a minha irmã mais velha e com a minha irmã mais nova’, ela me contou várias vezes. E depois ela continuava a história; naquele tempo as mulheres tinham filho em casa, você sabe. Um dia a minha mãe gritou muito. Depois apareceu a parteira com o bebê enrolado num pano e minha mãe berrou lá de dentro: Marjorie não pode ver. Só mostre  para Bernice. Mais tarde, Bernice contou a Marjorie que o bebê estava preto.

Marjorie não tem ideia de quantos filhos sua mãe perdeu. Ela se lembra de voltar para casa um dia e ver a mãe assentada perto da janela, muito triste, com o olhar vago, a cabeça raspada  e todos os dentes arrancados. Um médico teria dito para a mãe dela que o único jeito de salvar o bebê que ela carregava, seria cortando todo o cabelo e extraindo todos os dentes da boca. Marjorie faz uma pausa revela pela primeira vez que ainda guarda a trança da mãe em algum canto  da casa, e que ela não se lembra mais aonde. Depois suspira e acrescenta; guardei este cabelo por tantos anos e em breve ele não vai fazer sentido para mais ninguém…

Marjorie agora é adulta. Ela consegue um emprego de desenhista de projetos. Era só trabalho, ela diz. O chefe dela tem uma filha famosa, uma atriz e bailarina chamada Moira Shearer, que estrelou um filme chamado Red Shoes. O pai de Moira levou Marjorie ao ballet uma noite. ‘Ele era um homem muito distinto. Estendeu os braços, com uma autoridade que eu nunca tinha visto e chamou um táxi. Eu nunca tinha entrado num taxi’, ela conta. ‘Eu nunca teria tido coragem de chamar um táxi’. Eles vão ver uma apresentação de Margot Fontyen. Depois do espetáculo vão os quatro comemorar: Moira, o pai, Margot Fontyen e Marjorie vivendo seu dia de Cinderela.

O escritório, onde ela trabalhava, ficava no andar acima do gabinete de onde Churchill despachava. Ela topou com o homem várias vezes, até que a situação em Londres ficou perigosa demais por causa dos bombardeios. Os anos da Segunda Guerra foram os anos dourados da vida dela.

Marjorie foi evacuada para o norte da Inglaterra, em Yorkshire, longe das bombas. Foi morar com uma fazendeira amorosa, cujo marido tinha ido defender o país. Durante o dia, ela e a família trabalhavam duro. À noite, as mulheres se assentavam na sala e ouviam atentas as notícias de guerra pelo rádio. Elas rezavam para que o homem da casa voltasse inteiro. A casa era cheia de crianças e de vida. Mesmo durante a guerra, na fazenda não faltava comida. Um dos meninos sempre levava nozes para ela. Sempre com as mãozinhas imundas e um sorriso no rosto. O outro menino havia perdido um olho num acidente na fazenda. ‘Antes de dormir, ele usava a ponta de uma caneta para retirar o olho de vidro e colocar num copo. Trocamos cartas até a morte dele. Mesmo com um olho só, ele viveu uma vida cheia e feliz’.

Os vizinhos se juntaram e compram uma bicicleta para Marjorie. Foi o primeiro presente que ganhou na vida e o mais valioso de todos, o que ela nunca esqueceu. A bicicleta foi o seu salvo-conduto para novas descobertas. Nos fins-de-semana ela, que havia passado a infância claustrofóbica sessenta e cinco degraus acima, experimentava os espaços abertos e o ar livre. Saía pedalando assim que o sol raiava e só voltava de tardezinha.

Marjorie recebeu quatro propostas de casamento. A todas deu a mesma resposta: não seria apropriado. A experiência traumática, que ela viveu ainda mocinha, foi decisiva. Marjorie saiu com um rapaz. Ele foi um bruto, segundo ela. Quando chegou em casa, a mãe quis saber por que o vestido estava tão amassado. Ela ficou calada. Em seu silêncio, resolveu que não passaria por aquilo de novo. Além do mais, Marjorie não é mulher de obedecer a homem nenhum. Ela tem alma que não se tranca. Depois da guerra, jovem e independente, sem filhos e outras obrigações, ela passou alguns verões caminhando nos Alpes suíços e austríacos. Tinha adquirido o gosto pelas montanhas e o ar puro.

Hoje fui ao hospital me despedir. Marjorie foi internada há menos de uma semana. Foi tudo rápido. Descobriram que um câncer está lhe comendo o pâncreas. Até duas semanas atrás, ela estava bem, se virando sozinha. Marjorie tinha horror de ir parar num asilo claustrofóbico e cheio de regras que não são as dela.

Ela está indo como sempre viveu: em seus termos. Ditando seu destino.

 

3 comentários em “Requiem para Marjorie

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.