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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Pompa e Circunstância

 Frases inofensivas sobre o tempo dominam as conversas informais aqui na Ilha. Dominavam. Quer dizer, deram uma folga nesta semana. A frase que mais ouvi nos últimos dias foi: o que você vai usar para o casamento? Se você não sabe que casamento, deve estar vivendo em outro planeta. Amanhã, o Príncipe Harry e a atriz Meghan Markle se casam no castelo de Windsor, que fica mais ou menos a uma hora de Londres.

As fofocas do casamento estão por toda parte, o pai ausente da noiva dominou o noticiário nos últimos dias. Agora se sabe que o futuro sogro, o Príncipe Charles, irá acompanhar Meghan pela nave central da Capela de St George e ‘entregar’ a noiva para o filho. Os primeiros passos até o altar, ela vai caminhar sozinha, acompanhada das daminhas e os pajens.

A imprensa do mundo inteiro desceu em peso até Windsor, vários súditos da rainha e turistas também já lotam a cidade. Acho interessante observar como é a cobertura de um evento da realeza por aqui. Vou dar um exemplo: hoje pela manhã, li a notícia do ensaio do cortejo, que levará o mais jovem casal real para uma voltinha de carruagem perto do castelo, para dar os já famosos acenos ao público. A reportagem dava destaque aos cavalos de cor cinza, que a monarquia reserva para eventos importantes, como o de amanhã, e aí veio o seguinte comentário: “um dos cavalos não estava andando alinhado com os outros, esperamos que até amanhã tudo esteja afinado”. Pompa e circunstância essa turma faz como ninguém.

Num site de notícias do Brasil, uma matéria comentava o fato de Meghan Markle ser feminista. Alguns leitores caíram de pau, dizendo que se ela fosse tão feminista assim, não estaria pendurado as chuteiras e continuaria com sua carreira de atriz. A primeira coisa que pensei ao ler estes comentários foi nas freiras enclausuradas de um convento espanhol. Elas se manifestaram nas mídias sociais, outro dia mesmo, contra a pena leve que a Justiça italiana deu a cinco homens, que estupraram uma moça numa festa em Pamplona. Os cinco foram absolvidos de estupro coletivo. As freiras disseram: “Nós vivemos no claustro, usamos um hábito que vai quase até os tornozelos, não saímos à noite [a menos que seja para uma emergência médica], não vamos a festas, não consumimos álcool, e fizemos um voto de castidade. É uma opção que não nos torna melhores ou piores do que ninguém, ainda que, paradoxalmente, nos torne mais livres e felizes do que a maioria. E porque é uma escolha LIVRE, defendemos com todos os meios disponíveis para nós [este é um deles] o direito de todas as mulheres de dizerem livremente NÃO, sem serem julgadas, estupradas, intimidadas, assassinadas ou humilhadas por isso”. Está certo, foi uma volta meio grande no assunto do casamento real, mas as freiras espanholas deram uma lição de feminismo: é uma questão de liberdade de escolha. Além do mais, diga lá, Meghan feminista terá mais oportunidade de inspirar crianças e jovens sendo atriz ou esposa do príncipe mais carismático por essas bandas?

Este é um outro ponto, o Príncipe Harry pode não estar entre os três mais na linha de sucessão ao trono britânico, mas ele tem o carisma, que o irmão mais velho não tem. O público por aqui o vê como o herdeiro real (desculpe o trocadilho) de Diana. Ele sim é o Príncipe do Povo, o sujeito que se perdeu um pouco na juventude, torturado pela dor da perda prematura da mãe e que cresceu para se tornar caridoso e cheio de compaixão.

Então, que roupa você vai usar amanhã? Esta semana ouvi várias histórias de casamentos reais. Uma conhecida inglesa sessentona contou que, no casamento de William e Kate, ela e as amigas se vestiram para a festa, com direito a chapéu e tudo mais, e tiveram um dia adorável, comendo sanduíches de salmão defumado e assistindo à cerimônia pela tevê. Falou isso de um jeito tão inglês, que se eu pudesse, teria engarrafado a fala dela para ilustrar este post. Ela ainda não sabia qual seria o cardápio desta vez. Talvez compre uma sobremesa com limão siciliano e Elderflower (uma florzinha comum por aqui e que eles usam numa infusão para fazer um refresco adocicado), para imitar o bolo ‘pouco tradicional’ que Harry e Meghan servirão a seus convidados. Os supermercados oportunistas estão cheios de produtos de ocasião para apelar ao espírito festeiro de seus consumidores. O pub aqui perto de casa vai servir o tradicional chá inglês a partir das nove da manhã.

Bolo real para plebeus

Neste sábado, que promete ser de sol, várias ruas residenciais serão fechadas. Vizinhos colocarão mesas e cadeiras na rua, bandeirinhas azul, vermelho e branco, talvez um ou outro aparelho de tevê e vão encher a cara, celebrando o casamento real. Bom ressaltar que apenas as ruas em que os moradores se organizaram meses atrás, pediram permissão especial e pagaram uma taxa para a prefeitura local. Fechar a rua no improviso não rola. A festa deve ter hora para começar e para acabar também.

Como já escrevi em outro post, antes de vir morar aqui na Inglaterra, a minha percepção da monarquia britânica era de que ela existia para atrair turistas e encher os bolsos daquela gente. Não posso dizer que tenha virado monarquista de carteirinha, mas, depois de dezesseis anos vivendo por aqui, meu olhar mudou. Hoje entendo que a monarquia, a pompa e circunstância são fios importantes que ajudam a costurar a identidade desta Ilha. De certa forma, torna os britânicos únicos em sua excentricidade. Harry e Meghan vão escrever um novo capítulo desta saga, que tem enredo de novela inglesa, recheada de escândalos reais, divórcios azedos e filhos ilegítimos. Resta saber o que será desta turma e, mais importante ainda, o que os súditos vão pensar depois que a Rainha Elizabeth não estiver mais no trono. Talvez, um príncipe carismático e uma americana, descendente de escravos, possam dar uma forcinha para que esta instituição tão britânica sobreviva por muitos anos mais. Afinal, ainda que com muita tradição, só se reinventando mesmo para conseguir sobreviver.

 

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