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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Reportagem Tendenciosa

O jornal inglês The Times foi condenado a se retratar de uma notícia considerada tendenciosa, que publicou em agosto de ano passado, na qual denunciava que uma criança havia sido retirada de sua mãe natural e colocada num lar de acolhimento mulçumano, onde ela era proibida de usar um colar com uma cruz e comer bacon.

O The Times publica hoje em sua capa a sentença do órgão regulador de imprensa e na página dois o texto da sentença. Esta Ilha tem uma nova ‘lei de imprensa’, desde que estourou o escândalo dos telefones grampeados. Um executivo do The Times admitiu que a reportagem causou uma grande ofensa e se desculpou.

 

Para entender melhor o caso, um trecho do post publicado no ano passado pelo Da Ilha:

“ A história (publicada no The Times) começou assim: uma mãe inglesa, branca e cristã, estava revoltada, porque tinha perdido a guarda da filha. A criança, ao chegar na casa de uma família islâmica, teria tido um colar com uma cruz removido e havia sido privada de seu prato predileto: macarrão com ovo e bacon. Carne de porco nem pensar num lar mulçumano.

Depois da tempestade, e da exploração midiática, os fios da história começaram a contar uma versão diferente. Primeiro, a mãe, alcóolatra e viciada em cocaína, havia sido presa por prostituição. A polícia chamou o serviço social, porque avaliou que a criança estava vivendo em condições de risco. A mulher não gostou e fez um escarcéu, dizendo que a família, que havia acolhido a menina, sequer falava inglês. O que não era verdade, segundo o juiz do caso. Depois, ela afirmou que era um absurdo que sua criança fosse entregue para pessoas, que não são cristãs e nem brancas. O ponto é que a avó materna da menina não só não é inglesa, como também é mulçumana.

É muito difícil dar pitaco em casos como este. A gente consegue garimpar uma informação num artigo aqui e em outro ali, mas não dá para se ter um quadro completo da situação. É muito disse-que-me-disse. O caso aconteceu num bairro, que enfrenta dificuldades com pessoas de baixa renda, altos índices de imigração e criminalidade. O serviço social insiste que fez o que era melhor para a menina. Não havia outra família disponível para o acolhimento de emergência e, cinco meses depois de ser colocada num lar temporário, a criança estava adaptada e feliz.

Os assistentes sociais recomendaram ao juiz que a criança fosse entregue aos avós maternos. Eles concordaram, mas afirmam que querem levar a menina para viver com eles, em seu país de origem. A mãe quer retomar a guarda da criança.

O caso fez com que Sir Martin Narey (o homem responsável por aconselhar o governo em questões de lares de acolhimento) se pronunciasse. Para ele, seria errado vetar famílias dispostas a acolher temporariamente menores, baseado em questões de diferença de etnia e religião. Num relatório a ser publicado ainda este ano, Sir Narey vai defender que cor de pele e religião são secundários, quando se tenta encontrar um lar temporário para crianças necessitadas.

No ano passado, o inglês Ben Butler foi condenado a 23 anos de prisão por matar a própria filha, Ellie. A menina havia sido retirada da guarda dos pais, porque, quando ela ainda era bebê, Ben chacoalhou sua cabeça violentamente, causando problemas neurológicos. A Justiça então determinou que Ellie fosse viver com os avós maternos. Ben e a mãe da menina recorreram da decisão até que, finalmente, conseguiram reaver a guarda. Na ocasião, os avós, arrasados com determinação, avisaram que Ben era um homem violento e que o serviço social iria terminar com sangue nas mãos. Onze meses depois, a criança estava morta.

Ser assistente social aqui na Ilha é um desafio. Eles ganham pouco, estão sobrecarregados de trabalho e levam pedrada quando tiram uma criança dos pais e quando não tiram também. O destino da menininha de cinco anos vai ser decido por um juiz no mês que vem. Ela foi entregue temporariamente aos avós. A história toda é trágica em muitos aspectos. Mas os jornais deram bola fora, quando começaram a cobrir o caso: o ‘X’ da questão não era bem a religião dos envolvidos…”

 

A queixa contra o The Times foi registrada pela administração regional de Tower Hamlets, responsável por encontrar um lar para a criança.

O Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha disse que esta foi a primeira vez que uma história relacionada ao Islã foi corrigida na primeira página de um jornal.

Harun Khan, o secretário-geral da organização, disse: “Já era hora de o Times ser forçado a pedir desculpas por promover o que era amplamente conhecido como uma narrativa imprecisa, enganosa e intolerante sobre os muçulmanos.

“Esperamos que isso marque um ponto de virada na tolerância que o Times mostrou para o fanatismo anti-muçulmano em sua cobertura e comentários.”

 

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