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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Confessionário

Diga lá! Aliás, não precisa nem falar alto. Apenas faça uma pausa e respire fundo. Você tem sentido medo ultimamente? Uma sensação de que algo terrível está para acontecer? O mundo está de cabeça para baixo? Insegurança? Você não está sozinho. Talvez, e há uma grande chance de que seja verdade, talvez você esteja sendo manipulado. Tem gente brincando com suas emoções mais profundas.

Na época de faculdade, achávamos que participar de congressos iria nos tornar mais conectados, mais sabidos, mais entendidos. Isso ainda no tempo da máquina de escrever. Quando nada, era uma boa desculpa para fazer alguma coisa diferente e colecionar diplominhas. Se fosse tudo tão fácil assim…

Foi num destes congressos, que ouvi um publicitário famoso na época dizendo que a Igreja Católica tinha sido a primeira e mais bem-sucedida empresa de publicidade da história. Ele seguiu sua linha de raciocínio: a Via Sacra, ao contar a paixão de Cristo, foi o primeiro audiovisual. A Cruz, uma logomarca de respeito. O sino da Igreja, o alto-falante, que junta os fiéis e, por último, o mais importante: o confessionário, o primeiro instituto de pesquisa, que permitia ao padre ter acesso ao que ia no íntimo de seu rebanho e assim afinar sua mensagem, de acordo com a necessidade.

As máquinas de escrever agora são objetos de museu e o confessionário extrapolou as paredes sagradas e ganhou o mundo. Compartilhamos de tudo nas mídias sociais. Aos 19 anos, o poderoso Mark Zuckerberg confessou a um amigo de Harvard sua surpresa ao constatar que quatro mil pessoas haviam, voluntariamente e de bom-grado, compartilhado com ele informações pessoais como o endereço, e-mails e fotografias. Quando o amigo perguntou porque eles fizeram isso, Zuckerberg respondeu: ‘eles confiam em mim. Burros’. O tempo passou, o Facebook cresceu de 4 mil para 2 bilhões de usuários e Zuckerberg aprendeu a ficar de boca fechada. Ser menos burro e compartilhar menos seus pensamentos. Ou pelo menos, selecionar melhor o que quer que venha a público. Embora nem ele, com tanto poder, tenha a capacidade de controlar tudo.

Aqui na Ilha, uma série de reportagens foi o detonador de uma bomba, que todo mundo sabia que existia, mas que ninguém até então tinha como apontar o dedo com tantas evidências. Uma arma poderosíssima na chamada guerra de informações e que sacudiu as tripas do império de Zuckerberg. Desde que a história veio à tona, as ações do Facebook despencaram 7%, o significa que a empresa vale hoje U$36 Bi a menos que na semana passada.

Um homem distinto se fez passar por um rico empresário do Sri Lanka, ao procurar a empresa Cambridge Analytica, para ajudar um candidato a se eleger em seu país. O cliente em potencial era um repórter com uma câmera escondida, filmando os três encontros com diretores da empresa de marketing político. Para quem se interessa pelo assunto, o vídeo em inglês do Channel4 pode ser acessado aqui. O conteúdo das conversas é estarrecedor. Parece coisa de vilão de filme de espionagem. Mas não é obra de ficção.

Nos encontros, diretores da empresa contam muita vantagem. É até difícil dizer o que é papo para ganhar o cliente e o que eles fazem/fizeram de fato. Numa campanha política, oponentes investigam os podres dos outros candidatos, conduzem pesquisas de opinião para testar o eleitorado e afinar discursos. Nada disso é novidade. Moralmente questionável, mas prática corriqueira. O que causa espanto no caso da Cambridge Analytica é que eles vão além, puxando o fio do que é imoral para o que é ilegal. A empresa foi fundada em 2014 por um bilionário inglês, ligado ao partido Conservador.

Nos últimos dois anos, a empresa teria usado um programa desenvolvido pelo professor Aleksandr Kogar da Universidade de   Cambridge para ter acesso aos perfis de cinquenta milhões de usuários do Facebook. Sabe aquelas brincadeirinhas, que se multiplicam no Facebook, tipo, como você seria se fosse do sexo oposto, ou se tivesse 20 anos a mais? Tem também os testes de personalidade, essas bobagens. Pois é, estes passatempos são artifícios, portas de acesso para não só as informações de quem os usa, como também dos amigos destes usuários. Você pode até ter resistido à tentação de entrar na roda, mas, se seus amigos não foram assim tão prudentes, é provável que seus dados também tenham sido roubados, sem que você se dê conta, e pior ainda, sem a sua autorização.

Informação é poder. Frase de efeito, que a gente aprende no comecinho da faculdade de jornalismo, quando ainda não temos assim tanta capacidade de avaliar profundamente o seu significado. Alexander Nix, o presidente falastrão da Cambridge Analytica, parece entender muito bem a ligação entre informação e poder. Para ele, numa eleição os fatos contam pouco. O que importa é a emoção. Isso qualquer marqueteiro político sabe há tempos. Entretanto, eles iam além. Identificavam os medos e as esperanças dos eleitores e produziam conteúdos direcionados a eles. Numa das conversas, um dos diretores se gaba dizendo que muitas vezes eles cavam tão fundo nas emoções de cidadãos que acabam revelando medos, que eles nem sabiam que tinham. Aí a história começa a ficar mais perigosa.

O dedo da Cambridge Analytica está, ao que parece, em eleições na Nigéria, Quênia, República Tcheca, México e Argentina. Trabalhando na sombra, contratando empresas e espiões para denegrir a imagem de candidatos, manipulando eleitores com peças anônimas e mentirosas, promovendo o medo e a insatisfação. O que eles são acusados de fazer é sapatear na democracia. A chamada mídia liberal é ridicularizada por seus diretores em palestras, onde eles dizem que o que fazem é lindo, legal e revolucionário.

Na campanha eleitoral do Quênia, noventa por cento dos cidadãos disseram ter visto em sites sociais ou em vídeos recebidos em seus celulares matérias com jeito de legítimas, mas que eram Fake News. Notícias fabricadas para manipular os ânimos da população. O resultado foi um período turbulento, caótico e violento, que elegeu o presidente Uhuru Kenyatta ajudado pelos marqueteiros da Cambridge Analytica. A oposição denunciou o que chamou de subversão dos desejos dos cidadãos.

A questão é que uma eleição lá na África incomoda menos do que uma nos Estados Unidos, ou mesmo aqui na Ilha, na campanha do Brexit. Durante os encontros do repórter com os diretores da Cambridge Analytica eles deixam a entender que tiveram um papel importante na eleição de Donald Trump, em 2016. Quem acompanhou a eleição americana deve ter visto os vídeos, que circulavam na internet destruindo a imagem de Hillary Clinton, com todo tipo de acusações falsas. Sua campanha tentou rebater as acusações. Mas, lembre-se, emoções e não fatos é o que conta. Como afirmou o diretor da empresa, num dos encontros com o repórter, tem que ser feito de tal forma que não pareça propaganda. Porque, se parece propaganda, a primeira coisa que a pessoa vai pensar é: quem foi que pagou? Se for sutil, com a aparência de jornalismo sério, aí desce. O diretor revela que eles usam outras empresas, com outros nomes, assim fica difícil descobrir o envolvimento deles ou mesmo quem é o responsável pelo quê. Tem mais uma surpresinha neste bolo: chama-se Brasil. ‘Brazil is big’, o Brasil é um grande negócio, ele revela, dando a entender que sua presença já se faz sentida na Terra Brasilis.

São revelações gravíssimas. O presidente da Cambridge Analytica perdeu seu lugar. O Facebook perdeu muito dinheiro. A empresa de Zukerberg tem se mantido na moita. Tanto a Analytica quanto o Facebook estão apontando o dedo para o professor Kogan, que desenvolveu o programa para colher as informações. Ele diz que está sendo feito de bode expiatório. Que seu projeto era a análise de dados para estudar o que faz as pessoas felizes. Ele deu uma entrevista para BBC para dizer que se arrepende de não ter feito as perguntas certas, antes de desenvolver o programa para a Cambridge Analytica.

Durante a tarde de hoje, a primeira-ministra Theresa May foi colocada contra a parede por seus adversários políticos, durante uma sessão do Parlamento. Alguns políticos de seu partido Conservador estão envolvidos até o pescoço com a empresa de marketing político.

É ingênuo achar que a Cambridge Analytica seja a única empresa fazendo este tipo de trabalho. O jornal The Guardian publicou hoje um artigo perguntando se não está na hora de abandonarmos os Facebooks da vida. De pararmos de dar de bandeja nossos pensamentos, aspirações e medos, que podem, e são manipulados para benefício de poucos. O que devemos fazer com nosso confessionário eletrônico? Usar com moderação (é possível?), fazer de conta de que essa é só mais uma história, que já vai passar? Ou deixar de ser rebanho e fechar de vez essa porta?

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