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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Uma Ilha na Balança

Durante anos ouvi minhas amigas contarem casos de como funcionam as ‘maternidades chiques’ de São Paulo. Em uma delas, toda vez em que o bebê sai do quarto, uma câmera segue a criança e a mamãe pode acompanhar tudo pela televisão do quarto. Viva o Big Brother neonatal! Outra amiga me chamou pelo Skype, para mostrar um vídeo no celular dela, no qual era possível ouvir o batimento cardíaco do feto, que ela carregava na barriga.

Quando fiquei grávida aqui na Ilha, o pré-natal não poderia ter sido mais diferente daquilo que minhas amigas haviam experimentado no Brasil. Primeiro, o acompanhamento era feito por uma parteira. Já na minha primeira consulta, ela me deu um ‘copinho’ para eu coletar urina. Depois, me levou para um cômodo parecido com uma copa, pegou um palitinho de papel e mergulhou no líquido amarelado. Em seguida, pôs o papelzinho junto a uma tabela de cores e pediu para eu olhar de perto.

– “Viu? O PH está normal. Dá próxima vez você saberá como agir. Antes que eu me esqueça, leve este copinho para casa, lave-o muito bem com água fervente e não se esqueça de trazê-lo de novo para a próxima consulta”.

Como assim? Foi meio que um choque de realidade, é verdade. Mas o que me deixou com a pulga atrás da orelha foi que em nenhum momento do pré-natal eu fui pesada. Quando perguntei para a parteira se era assim mesmo, ela disse que muitas gestantes não gostavam de checar o peso e que deixá-las ansiosas e estressadas era pior.

Contei essa história para a nutricionista Carolina Capellari Simon, uma brasileira, que atende pacientes aqui na terra da rainha. Carolina tem especialização em saúde pública e nutrição pediátrica. Ela ficou surpresa, porque, segundo ela, o peso da gestante pode influenciar a saúde do bebê.

Carolina Capellari Simon

Nesta Ilha, onde ninguém é gordo e sim ‘grande’, falar de obesidade é complicado. Vou dar um exemplo. Esta semana, o Cancer Research (um órgão que investe em pesquisa, tratamento e prevenção de câncer) lançou uma campanha para alertar sobre os perigos da obesidade. E fez um alerta: a geração nascida neste milênio vai ser a mais obesa, desde sempre. O Cancer Research quer que os anúncios de comidas fast food, o famoso junk food (comida porcaria) sejam banidos da mídia.

O alerta faz sentido. Quase 10% das crianças, que entram na escola primária, são obesas! 13% destes meninos e meninas entre 4 e 5 anos estão acima do peso. Ao ingressarem na escola secundária, aos 11 anos, 20 em cada 100 são obesos, enquanto 14.3 estão acima do peso. Preste atenção nos números, já no segundo grau, o número de obesos ultrapassa o daqueles acima do peso.

As crianças são pesadas e medidas, assim que entram e que saem da escola primária. Recentemente, os jornais publicaram a história de uma menina de 11 anos. A família dela, como a de todos os outros estudantes da mesma idade, recebeu uma carta com o peso e a medida da criança. O documento explicava o que é o índice de massa corporal e o que é considerado como abaixo do peso, peso saudável, acima do peso e, finalmente, obeso. A menina em questão era obesa. Segundo a família, a carta nunca deveria ter sido enviada. Ao saber que estava obesa, a menina entrou em depressão e não queria mais brincar. A família então passou a acusar a escola e o governo de ‘fat shaming’, que é fazer a pessoa se sentir envergonhada porque está gorda.

As embalagens de cigarro por aqui trazem fotos horripilantes de tumores em diversas partes do corpo e estampam um aviso em letras garrafais dizendo que fumar provoca câncer. Na nova campanha do Cancer Research, há duas embalagens de cigarro. Na primeira está escrito ‘Adivinhe qual é a maior causa preventiva de câncer depois do fumo’. Na outra, a frase é repetida, mas dentro da caixa estão batatas fritas, ao invés de cigarros.

Campanha alerta para os riscos da obesidade

Mensagem direta, nua e crua: obesidade causa câncer. Os tumores são taradinhos por uma gordurinha. Estejam avisados. Sofie Hagen, uma comediante dinamarquesa, que entretém a moçada por aqui, não gostou da campanha e pôs a boca no mundo. Usou o Twitter para dizer que a peça publicitária envergonhava os gordinhos, que já passam apertado por aí, já que são vítimas de discriminação.

A comediante Sofie Hagen

Falar sobre os riscos da obesidade é ofensivo para alguns. Cria ansiedade em outros e acaba agravando os distúrbios alimentares. Recentemente, o governo lançou uma campanha para que os ‘snacks'(as famosas comidinhas de fora de hora) dados às crianças, não tivessem mais do que cem calorias. Mais uma vez foi um bafafá. Desta vez, uma moça chamada Tallulah Self, de 18 anos, fez sua voz ser ouvida. Tallulah passou seis meses internada num hospital para um tratamento de anorexia. Para ela, este tipo de campanha faz mais mal do que bem e acaba levando mais jovens a desenvolverem distúrbios alimentares.

Obesidade por aqui é considerada um grave problema de saúde pública. Se fala em epidemia. Por isso, o governo está lançando um plano (mais um!) para tentar lidar com a questão. O ‘Public Health England’ (o órgão de políticas públicas para saúde na Inglaterra) quer que o consumo de calorias caia 20% até o ano de 2024. Pode vir com a dieta que for, mas a matemática é sempre a mesma, quer perder peso, diminua a quantidade de calorias ingeridas. Se o fosse tão simples, quanto 2+2…

Para atingir a meta ambiciosa, o governo quer  ver a indústria alimentícia empenhada em resolver o problema. As porções precisam ser menores. Menos açúcar e menos gordura também. Algumas empresas, como o Mc Donalds por exemplo, estão percebendo que, se quiserem manter seus consumidores, terão que fazer ajustes. A rede de fast food agora trabalha com uma linha de produtos menos calóricos e informa o consumidor sobre a quantidade de calorias.

A questão é que,  mesmo com tanta informação, como saber qual é a quantidade saudável de comida, que devemos ingerir? Pensando nisso, o governo sugere que o café da manhã deva ter 400 calorias, o almoço e o jantar 600 calorias cada. Devemos começar a contar calorias?

Informação, ao que parece, não falta. Mas resolve?

Entender os riscos nem sempre faz com que evitemos comportamentos arriscados. Talvez a grande notícia deste inverno aqui na Ilha não tenha sido da Besta do Leste e sim a falta de frango na rede de fast food KFC. O KFC trocou de atacadista, alguém pisou feio na bola, e centenas de lanchonetes da rede tiveram que fechar as portas por alguns dias, porque faltou matéria-prima para tanta fritura. Parece mentira, mas os serviços de emergência receberam muitas chamadas de pessoas nervosas, porque não tinha frango no KFC. Vi na televisão uma mãe desesperada, dizendo que não sabia como iria alimentar os filhos naquela semana.

Fala-se muito em taxar os produtos com alto teor de açúcar por aqui. A medida é polêmica. Existe o temor de que vá penalizar ainda mais as famílias de baixo poder aquisitivo. Comida fresca aqui, frutas, legumes, verduras, carnes, peixes, etc, custa muito caro. Já o alimento processado, comida pronta, muitas vezes sai mais em conta. Sei de famílias nesta Ilha, que vivem de congelados, enlatados e comidas prontas. Na casa delas, não há sequer um fogão. O micro-ondas resolve. Comem assentados em frente da tevê ou do computador. Pessoalmente, gostaria de ver uma redução de impostos nos alimentos in natura.

Para a nutricionista Carolina, medidas como o aumento de impostos e campanhas que assustam têm pouco resultado. Ela acha um absurdo as escolas aqui da Ilha não terem uma orientação nutricional. Para ela, a educação nutricional, desde a primeira infância é fundamental. Assim como se aprende a ler e a fazer contas, as crianças deveriam aprender a comer direito, de forma saudável e natural.

Obesidade e distúrbios de imagem e peso não surgem do nada. Existem fortes componentes sociais e emocionais associados. Por exemplo, numa comunidade onde todos são obesos, a obesidade é de certa forma normatizada. No mundo virtual, onde os ideais de imagem são cada vez mais inatingíveis, o distúrbio alimentar e, todo o comportamento que o envolve, é considerado normal. É assim que a banda toca.

Mudar hábitos é sempre mais fácil na teoria do que na prática. Assim como o serviço de saúde desta Ilha, o atendimento psicológico também naufraga em proporções de Titanic. É um assunto complicado. Falar de obesidade provoca ansiedades. Não fazer nada é acrescentar mais peso no navio, para ele afundar mais rápido.

Como lidar com o crescente problema de saúde pública? Esta é uma questão de seis bilhões de libras (R$26.7 bi), que é quanto o NHS, o serviço nacional de saúde, gasta tratando pacientes com doenças provocadas pela obesidade. Se o anúncio de ontem de cortar o consumo de calorias em 20% não for mais uma manobra de políticos para inglês ver, a expectativa é de que trinta e cinco mil mortes sejam evitadas nos próximos vinte e cinco anos. Este sim, um número para espalhar e comemorar. Sem moderação.

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