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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Vacinar ou não vacinar?

Roald Dahl é um dos autores mais queridos da literatura inglesa com suas narrativas malucas, às vezes frias, mas sempre escritas de forma primorosa. Talvez você não ligue o nome à obra, mas duas das histórias que saíram de sua cabeça viraram filmes famosos, que provavelmente você assistiu, ou pelo menos já ouviu falar: ‘A fantástica fábrica de chocolate’ e ‘Matilda’. Os livros são uma belezura, muitas vezes têm um toque de humor negro e final inesperado. Seus vilões são horrorosos, como a terrível diretora da escola de Matilda. São livros que cativam a atenção dos jovens leitores, porque não tratam a criança como se ela fosse boba. Como criança não é nada boba, os livros fazem sucesso.

Dahl morreu em 1990. Deixou uma vasta obra que inclui romances, contos, poesia, peças de teatro, ensaios, roteiros para cinema, rádio e tevê, além dos livros infantis. Mas é um de seus textos, mais precisamente uma carta escrita em 1986, que os jornais resolveram desempoeirar essa semana. A carta é a mais nova arma daqueles que apelam para que os pais vacinem seus filhos.

Olivia, a filhinha mais velha de Dahl, morreu aos sete anos, vítima de sarampo em 1962. A doença tomou um rumo perigoso, provocou uma encefalite, que é uma inflamação aguda no cérebro. Dahl só conseguiu escrever sobre o assunto vinte e quatro anos após a morte da filha. Na carta escrita para uma publicação governamental da área de saúde, ele contou que a menina parecia estar se recuperando. Ele brincava com ela, quando reparou que ela estava perdendo a coordenação motora e parecia confusa. Olivia disse então que estava com muito sono. Uma hora depois estava inconsciente. Doze horas mais tarde, morta. Dahl não usou meias palavras quando falou de vacinas: ‘É quase um crime deixar sua criança sem imunização’, ele concluiu em sua carta.

Por que mexer nessa história justo agora? Porque a Europa está vivendo um surto de sarampo. O aumento no número de casos, só no ano passado, foi de 400%. Mais de vinte mil pessoas contraíram a doença. A maioria, crianças. Trinta e cinco pacientes morreram. A doença já se espalhou por quinze países europeus. Romênia e Itália concentram o maior número de casos. O problema é tão grave na Itália que, no ano passado, o país tornou obrigatório que crianças até 16 anos tomem as 12 vacinas previstas no calendário de vacinação. Elas não poderão mais ser matriculadas em creches e escolas, sem que haja um comprovante de imunização.

Vacina triplice

Aqui na Ilha, só neste ano, que acaba de começar, já foram cento e vinte pessoas contaminadas pelo vírus, em cinco regiões do país. Coincidentemente, nas cinco regiões onde a cobertura vacinal é menor, porque os pais escolhem não vacinar os filhos.

Sarampo é uma doença viral altamente contagiosa. Nos países ricos, mata um em cada cinco mil pacientes. É bem mais letal nos países mais pobres, onde um em cada cem morre. Muitos pacientes sofrem sequelas para o resto da vida. Para se erradicar a doença, pelo menos 95% da população deve ser vacinada.

Sarampo

 

Esta Ilha havia erradicado o sarampo, mas um surto da doença custou a vida de um homem de vinte e cinco anos no País de Gales, em abril de 2013. Ele não era vacinado. O problema é que desde o final do século passado, por volta de 1998, o número de pais que vacinaram seus filhos caiu consideravelmente neste país. O que teria provocado a queda? Por que a recusa em vacinar?

Em 1998, um gastroenterologista chamado Andrew Wakefield publicou na revista científica ‘The Lancet’ um estudo relacionando a vacina tri viral (sarampo, caxumba e rubéola) com autismo. A vacina estaria provocando autismo em bebês, segundo ele.

Em 2010, a máscara caiu. Wakefield foi acusado de fraude e teve seu registro de médico cassado. Um editorial do ‘The Lancet’ anunciou que o artigo era uma elaborada obra de falsidade e se defendeu dizendo que eles haviam sido enganados. O problema é que neste meio tempo, entre a publicação do artigo de Wakefield e o fim da farsa, a mídia deitou e rolou na história. Uma boa teoria da conspiração e um mal invisível vendem mais do que pãozinho fresco. Muitos pais, bombardeados pelas notícias, resolveram arriscar. Melhor não vacinar e evitar que o filho se torne autista. Afinal, o sarampo foi erradicado, que mal vai fazer? Apresentados com a escolha (mentirosa) de dois infernos, escolheram o que achavam ser o menos ruim. A bomba foi estourar anos mais tarde, quando o país se viu frente a frente com um surto da doença, que já deveria ter sido relegada aos livros de história da medicina.

O ex dr Wakefield

A imprensa não perdeu a oportunidade. Cobriu o surto como se cobre uma epidemia de ebola. Muitos pais correram para vacinar seus filhos. Pela primeira vez o número de imunizações começou a subir, embora em várias regiões ainda não tenha chegado aos esperados 95%. É que a semente da desconfiança foi plantada, teve tempo de crescer e aí, para arrancar essa erva daninha, não é fácil.

Jake tem sete anos. Ele também tem câncer. Todo mundo na escola aqui do bairro já ouviu falar do menino. É o pior pesadelo que um pai pode ter. Numa manhã de segunda-feira na cafeteria local, havia uma mulher chorando na mesa ao lado da minha. Menos de vinte centímetros separavam nossas mesas. Foi impossível não ouvir o que ela dizia. Eu a conhecia de vista, mas não sabia quem ela era. Era a mãe de Jake, vivendo uma semana difícil. Ela contava da dor de ver o filho tão abatido, depois do último tratamento de quimioterapia. A fala dela oscilava, ela pedia muitas desculpas por ‘estar dando show em público’. Enxugava o rosto, secava o nariz e recomeçava. De repente, notei uma mudança no tom de voz. Ela estava mais irritada. Havia achado um bode expiatório para sua dor. Um bode é verdade, mas bem real: Os pais que não vacinam os filhos.

Uma semana antes, a escola havia mandado para casa uma circular informando que um de seus alunos sofria de leucemia e convocando os pais a vacinarem seus filhos. Pesquisando para este post, descobri que a escola e a mãe de Jake tinham motivos de sobra para se preocuparem. A escola fica numa das piores regiões do Reino Unido em termos de imunização. Em 2012, apenas 79% das crianças foram vacinadas. A quimioterapia de Jake destrói as defesas do organismo do menino. Se contaminado com um vírus tão violento quanto o do sarampo, ele não teria a menor chance.

Ao redor do mundo, o sarampo ainda é uma das doenças virais que mais mata, principalmente crianças em países pobres. Em 2001, fez cento e cinquenta e oito mil vítimas fatais. Entre elas, bebezinhos, que ainda não foram vacinados, e pacientes vulneráveis como Jake. Muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas, se a população fosse vacinada e a doença erradicada.

A desinformação e a ignorância matam. O começo do século XXI veio com a promessa de erradicação da poliomielite da face da Terra. O mundo chegou bem pertinho de realizar este sonho. Mas o número de casos tem subido em alguns países mulçumanos, onde a população foi convencida por líderes religiosos de que as vacinas fazem parte de um plano norte-americano para inocular o vírus da AIDS no povo. Nada como uma teoria conspiratória…

Mas erra quem acha que o problema está restrito aos cantos mais pobres do planeta. Wakefield e sua pesquisa fraudulenta fazem sucesso, adivinhe onde? Nos Estados Unidos, que também adoram uma teoria conspiratória.

Do outro lado do Atlântico, na França da década de noventa, o pânico foi por causa de uma vacina de hepatite B, que estaria provocando esclerose múltipla. Uma teoria sem fundamento que se espalhou no país como fogo na mata seca. Afinal, onde há fumaça há fogo, certo? Errado. A fumaça da desconfiança era só fumaça mesmo.

Vacinar ou não vacinar? Isto ainda é uma questão? A vacina, ou melhor, a falta dela mudou para sempre a história do Brasil. Em 1788, Dom José morreu de varíola em Portugal. Na época, a vacina contra a doença era aplicada em vários países europeus. Para quem não está assim tão familiarizado com a história da realeza portuguesa, D. José era o primeiro herdeiro ao trono. Ele havia sido educado para ser o regente. D. José não tomou a vacina contra varíola, porque sua mãe tinha muitos ‘escrúpulos religiosos’, como conta Laurentino Gomes em seu livro 1808, que narra a fuga da família real portuguesa para o Brasil. No lugar de D. José, assumiu o segundo na linha de sucessão. Dom João VI era despreparado para o cargo. Não havia recebido a mesma formação de Dom José. Como seu irmão mais velho teria reagido à ameaça de Napoleão Bonaparte nunca saberemos. O que sabemos é que a mãe de José e João, Dona Maria I entrou para a história como a Rainha Louca.

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