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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Bom para cachorro

Galinha de granja com arroz integral. Salmão selvagem com batatas orgânicas. Atum, bacalhau, peru e carne de boi com batata, cenoura e ervilhas. Opções sem grãos, sem glúten, para quem ainda está em fase de crescimento, para quem já tem muitas milhas rodadas, para aqueles que têm que ficar de olho no peso, nas juntas e até outras para estômagos, digamos, mais sensíveis. No mercado em franca expansão da comida gourmet para cães e gatos, tem lugar até para um chá das cinco: que tal um ‘wooffin’?’, a versão canina do muffin? O bolinho tem chocolate para cachorro (não, tolinho, não é chocolate de verdade, que é veneno para os cães) e cobertura de baunilha com um biscoito em cima para decorar. Singelo, não? A versão para o melhor amigo do quadrúpede, custa uma libra e cinquenta e vem com quatro unidades. O bolinho para seu cãozinho custa três libras e cinquenta a unidade, cerca de R$15,60.

Woffin

 

Bem-vindo ao mundinho pet! Uma indústria multibilionária muito sabida, que cria novos produtos a todo momento, para atender consumidores de coração mole e bolso profundo.

O fato é que essa Ilha é povoada por uma gente que ama seus animais. 44% das pessoas têm pelo menos um animal de estimação. A Rainha Elizabeth teve mais de trinta cães de companhia desde sua coroação. A soberana, que é tão discreta ao demonstrar suas emoções, claramente aprecia a companhia de seus cães. Está na cara.

Rainha Elizabeth

Há dois anos cedi aos inúmeros pedidos da minha filha e, desde então, temos um cachorro em casa. Assim como a rainha, descobri que cão de companhia significa que a gente tem que fazer companhia para eles e não o contrário. Pois bem, agora faz parte da minha rotina uma caminhada matinal no parque. Para minha surpresa, descobri que os ingleses até atravessam a rua para fazer festinha para os cães. Conversam com o bicho, com vozinha infantil, alisam seu pelo e espalham sorrisinhos de graça. Com os bebês isso não acontece. Não tem essa de fazer gracinha e muito menos tocar nos filhos dos outros.

O amor dos aristocratas britânicos por seus cães fica evidente em muitas residências e palácios históricos, que hoje pertencem ao National Trust. Nestas mansões não é incomum encontrar cemitérios para os cães da família.

Polesden Lacey

Mas não são só os endinheirados, que gostam de cachorros: eles são o animal de estimação mais popular neste lado do Canal da Mancha. Ao pesquisar para este post, encontrei uma estatística interessante. Em 2013, o número de animais de estimação bateu todos os recordes, eram 71 milhões deles, entre cães, gatos, peixes de aquário, etc. No ano passado, este número baixou para 54 milhões (24% cães, 21% gatos e o menor grupo, com menos de 0%, o de passarinhos dentro de casa). Como explicar então que as padarias para cachorro, as comidinhas gourmet, as pet shops e até as roupas e acessórios para pets parecem estar se multiplicando?

Parecem, não. Estão sim vivendo seus anos dourados. No ano passado, a indústria de animais de estimação neste país movimentou mais de sete bilhões de libras, coisa de 30bi de reais, um número que vem subindo, mesmo com a diminuição no número de pets e os altos e baixos da economia.

Não sou especialista no assunto. Só me resta especular. Aqui vai uma dica para quem quer conhecer pessoas novas: arrume um cachorro e saia para passear. Os donos de cachorro pertencem a um grupo, no qual a conexão entre seus membros é tão natural, quanto um cão cheirando o traseiro do outro. Hoje de manhã por exemplo, bati um papo rápido com um senhor, que observava seus dois cachorrinhos num balé aromático com a minha cachorra. Eles usavam uma espécie de capa de chuva-macacão, que não somente cobria o corpo, como as pernas também. Aqui vai um parêntesis, minha bola branquinha de pelos tem o hábito irritante de rolar em cocô de raposa. Não vou me estender por aqui, mas posso garantir que a fragrância não é das melhores. Mesmo nos dias (a maior parte deles, thank you very much!) em que ela não volta para casa como um bife à milanesa marrom de matéria orgânica animal, ela vem com as pernas, patas e barriga cobertas de lama. Chove pra burro por aqui. Resumindo, cobicei mesmo o macacão à prova d’água, que vi hoje. Cheguei em casa com o roteiro pronto, que meu companheiro de parque havia revelado. Tinha o nome do website e até sabia quanto o acessório iria custar. Ainda não apertei o botão COMPRAR, mas, cá entre nós, é uma questão de horas para isso acontecer.

Capa de chuva ela ainda não tem, mas casaco de inverno…

Outra coisa que notei é que, principalmente as pessoas de mais idade acabam adotando cães e gatos, que foram parar em abrigos – a maioria por abandono de seus donos. Volta e meia, uma dessas pessoas me diz que seu animal de estimação é meio nervoso, inseguro, porque foi resgatado. Aí vem uma história de deixar até os corações mais duros em frangalhos. Coisa do gênero órfão de Dickens na versão Lassie.

Então, voltando aos negócios, minha teoria, nada científica, é que quem ainda não teve que se desfazer de seu animal de estimação, porque não deu conta de arcar com as despesas (cada vez maiores), acaba consumindo mais produtos. As pessoas se sentem pressionadas, ou encantadas, pela indústria, que tem sido inteligente em criar demanda e identificar necessidades, reais ou não. Cresci numa casa cheia de bichos. Os cachorros comiam todos os dias angu e os restos de comida, que sobravam nos pratos. O cheiro daquele angu ainda está em minha memória olfativa. Eles viviam 13, 14, 15 anos, sem dramas. Pensando bem, naquela época comida ainda não era gourmet, intolerância ao glúten não fazia parte do vocabulário e, para cachorro malcheiroso, havia sabão de coco.

Aí vai uma para contar numa rodada com os amigos. Qual animal de estimação sai mais caro para seu dono? Por aqui, um cachorro de tamanho médio vai custar a seu dono mais ou menos 50 mil reais, já uma tartaruga… 120 mil reais. Está certo, 120 mil em setenta e cinco anos!

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