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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

O Caso do Taxista Estuprador

John Worboys ganhava a vida dirigindo um dos famosos black cabs, os taxis pretos de Londres. Mas o fato que o tornou um dos homens mais notórios desta Ilha não foi sua habilidade ao volante. Worboys era um predador, que escolhia suas vítimas com cuidado: mulheres jovens, voltando para casa, depois de uma noite com amigos.

Durante cinco anos, o taxista aprimorou sua técnica. Mostrava às passageiras uma bolada em dinheiro. Dizia que tinha ganho no cassino e oferecia Champagne para as moças, para comemorar a boa sorte. O que elas não sabiam, era que a bebida continha drogas, capazes de fazê-las perder a consciência. Quando estavam desacordadas, John abusava dessas mulheres.

Em 2009, ele foi condenado há dez anos de prisão por dezenove ofensas, incluindo um estupro, contra doze mulheres. O motorista de taxi era tão confiante em sua impunidade, que deixou um envelope com um cartão de feliz natal e dez libras para uma de suas vítimas.

Durante o processo de condenação do taxista estuprador, a polícia afirmou que suspeitava que Worboys tenha estuprado mais de cem mulheres. Muitas delas apresentaram queixas, mas as investigações não foram para frente, por falta de provas. Lembre-se, a maioria das vítimas estava tão drogada, que elas não têm nenhuma memória do que aconteceu.

Esta semana o caso voltou a ganhar destaque. Uma comissão, formada por três membros, julgou que John Worboys pode sair da prisão em liberdade condicional.

O taxista estuprador

Claro que a notícia repercutiu muito mal por aqui. Segundo a advogada de uma das vítimas, sua cliente ficou sabendo da libertação do estuprador, pelo rádio, enquanto preparava o jantar dos filhos. O comitê, que autorizou a liberdade condicional, pediu desculpas às vítimas pela notícia ter vazado para imprensa, antes que elas fossem informadas. Entretanto, a decisão de deixá-lo ir antes dos 10 anos de sua condenação, esta foi tomada de acordo com a lei. Aparentemente, John Worboys conseguiu convencer estas três pessoas de que ele é um novo homem, arrependido de seus crimes.

Pessoalmente, não tenho nenhuma simpatia por este homem. Meu lado otimista, que tenta procurar o melhor nas pessoas, neste caso anda tomando uma surra. Infelizmente, não acredito que este homem não vá atacar outras mulheres, se tiver a oportunidade. Mas essa é a minha opinião e só isso. Um palpite, que não vale nada, e está certo que seja assim. O comitê, que concede liberdade condicional, está levando bordoada de todos os lados. Eles sim têm a minha simpatia. Julgaram os fatos e não as especulações. 19 ofensas e não mais de 100 estupros. Examinaram a ficha do prisioneiro durante os anos de encarceramento e conduziram entrevistas. Ao que se sabe, seguiram as regras direitinho.

Durante anos, a imprensa nos vendeu a história ‘de um dos mais prolíficos estupradores em série que este país já viu’. Cadê o trabalho da polícia, investigando as denúncias? Um relatório de uma comissão independente da polícia (corregedoria)  revelou que foram perdidas várias oportunidades de prender John Worboys, durante os vários anos em que ele saía impunemente estuprando suas passageiras.

Cadê o trabalho da promotoria? Desde o caso do apresentador Jimmy Saville, o predador sexual mais famoso por aqui, vários casos de abusos sexuais vieram à tona. E sabe qual é o mesmo fio, que costura estas histórias? Investigações preguiçosas, acobertamentos e vítimas, que não têm voz, que não são ouvidas.

Passadas a farra midiática e as manchetes sensacionalistas, vêm sempre a mesma história: “precisamos aprender algumas lições com este caso, para que os erros não se repitam”. O homem, responsável pela dor e a tristeza de muitas mulheres, está para ser solto. Meu lado otimista, embora combalido no momento, espera que ele tenha aprendido sua lição e, mais ainda, que suas vítimas sejam capazes de refazer suas vidas e seguir em frente. Quanto às lições deste caso… melhor deixar meu lado otimista descansar um pouco e recuperar seu fôlego.

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