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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Inventário

Mais de duas décadas se passaram e ainda não consegui esquecer. Era dia de trabalho. Em São Paulo. Minha carteira, que sempre andava vazia, estava cheia naquele dia. Eu tinha acabado de receber pagamento por um roteiro, que tinha escrito para uma produtora. O ladrão deve ter sentido o cheiro do dinheiro. O sinal de trânsito estava fechado. O vidro do carro aberto. Ele chegou de supetão, quase despencando no chão. Não sei de onde me veio a presença de espírito, mas consegui fechar a janela, antes que ele sacasse o canivete.

O rapaz estava drogado, era visível. Ele gritava e babava, me xingava de todos os nomes, que flutuam nos quintos dos infernos. Enquanto suas palavras me deixavam atordoada e apavorada, sua faca esfolava a lataria do carro. Ele seguia berrando que se tivesse um revólver, iria explodir a minha cabeça.

Talvez graças ao cinema, em situações críticas como essa, passa um ‘filminho’ com a história de vida na cabeça da vítima. O ‘filminho’ que rodou na minha cabeça foi outro: foi o das matérias policiais, que eu havia editado nos anos anteriores. Assaltos, sequestros, homicídios, chacinas. Naquele momento, ficou absolutamente claro para mim, que minha vida não valia nada para aquele homem enlouquecido de tanta droga. O sinal abriu e eu pude arrancar o carro, apesar dos joelhos de gelatina, que tremiam, ameaçando o pé de não ter coordenação suficiente para encontrar o acelerador.

Em agosto deste ano, a mídia por aqui dedicou um espaço enorme ao aniversário de vinte anos de morte da princesa Diana. Ao que consta, suas últimas palavras foram: meu Deus, o que aconteceu? Se o assaltante frustrado tivesse uma arma de fogo e com ela cumprido sua ameaça de estourar meus miolos, meus últimos pensamentos, meu momento final de consciência teria sido gasto com lixo. Uma bagagem nefasta, acumulada nas ilhas de edição.

Apesar de não ter tido maiores consequências, o episódio mexeu comigo. Ficou evidente que o repertório de minhas histórias e experiências tinha umas tralhas, que eu nem sabia que existiam. Está certo, existem trolhas maiores e piores por aí. Mas, desde o dia do assalto frustrado, sempre que dava, eu passava as matérias policiais para frente. Para meu alívio, havia um colega de redação, que adorava o assunto.

Vamos combinar que a história acima não seja a melhor introdução para um texto de fim-de-ano. Paciência…prometo acabar antes da chegada do bom velhinho.

O fio da meada está no fim. No fim-do-ano. Tempo de rever, reavaliar. Às vezes, dezembro chega antes do que a gente esperava e a sensação é a de que o ano foi gasto com lixo. Tralha acumulada na mídia, nas rodas de conversa, nas cenas, que preferíamos nunca ter visto, nas palavras que não deveríamos ter dito e nas que nos feriram. Antes de começar a autoflagelação, é recomendável desacelerar um pouco, ainda que os últimos dias do ano convidem para uma corrida. Taí o clichê: correria de fim-de-ano. Se a São Silvestre não está nos seus planos, dê um jeito de encontrar o freio, antes que o ano acabe.

Se olhar com cuidado e carinho, vai perceber que o repertório, que conta a história de sua existência, contêm encontros e histórias, dignas de serem tratadas com afeto. Este ano, ouvi numa palestra uma metáfora, que estava guardando para esta época de reavaliações. É uma metáfora pronta. Um PF completo. Como sou ignorante de pai e mãe em assuntos automobilísticos, nunca tinha ouvido falar em ‘target fixation, um termo em inglês, que pode ser traduzido por ‘fixação de alvo’. Preste atenção na imagem abaixo:

 

O joelho do motociclista quase toca o asfalto na curva. Agora repare nos olhos e na cabeça dele. Note que ele não está olhando para o chão e sim para frente. Isso acontece graças ao fenômeno conhecido em inglês como ‘target fixation’. Quando o piloto, ou o motorista de um veículo em alta velocidade, foca sua atenção e seu olhar em um determinado ponto, é para lá que seu corpo e o meio de transporte que conduz irão se dirigir. Em bom português: não mire o obstáculo (o chão por exemplo), porque é para lá que você vai. Eu avisei que era uma metáfora pronta: ao invés de centrar a atenção no que pode dar errado, direcione o olhar para onde você quer chegar. Nem preciso me estender por aqui.

A palestra foi boa para meu repertório motivacional. Daquelas que devemos desempoeirar de vez em quando, quando surgem as armadilhas imobilizadoras. O caso é que, nem sempre, o alvo está assim tão claro. Sem querer complicar muito, no fundo, o que todo mundo quer é ser feliz e ser amado. Simples?

Meu marido chegou em casa outro dia com outra história para o repertório de 2017. Ele e um bando de colegas engenheiros passaram dias se debruçando sobre um problema. Como chegar ao objetivo, que eles haviam determinado. Estavam quebrando a cabeça, quando um deles, ao invés de sugerir um caminho novo, apresentou uma solução muito melhor e mais simples. O alvo estava errado.

No inventário pessoal de 2017, talvez seja o caso de reavaliar os alvos. Onde a energia foi gasta e a quantidade de esforço envolvida. Valeu a pena, ou havia soluções menos complicadas?

Ouvi no rádio um entrevistado fazendo a seguinte afirmação: na hora do juízo final, no cara a cara com o Criador, o que ele vai querer saber é: o que você fez das oportunidades que teve de ser feliz? Mesmo que você não seja religioso, ou fã de natal, desde que inventaram essa de calendário e o tempo medido em anos, estes últimos dias do décimo segundo mês convidam à reflexão. Então, vamos lá: o que você fez das oportunidades que 2017 lhe ofereceu de ser feliz?

Meu ano, para usar uma expressão comum nesta Ilha, foi um saco de balas sortidas. Umas doces e macias, outras amargas e difíceis de engolir. Vieram umas azedas, que nem eram para mim e ainda sim fizeram meu estômago contrair-se de desgosto. 2017 trouxe a oportunidade de ver de perto como uma pessoa muito querida conseguiu passar uma bala particularmente amarga no açúcar e escolher ser feliz. Este sim, um presentão para meu repertório pessoal.

O natal é sempre um bom pretexto para dar uns livros para minha filha. Este ano, eu estava sem ideia do que comprar e fui pesquisar num site de recomendações literárias. Acabei achando um livro chamado ‘Good Night Stories for Rebel Girls’ (publicado no Brasil com o nome de Histórias de Ninar para garotas rebeldes). Gostei da crítica do livro e fiz a encomenda pela internet. Sabia que era sobre cem mulheres extraordinárias, de Cleópatra à Simone Biles, que deixou o mundo sem fôlego nos Jogos Olímpicos do Rio, com sua indiferença à lei da gravidade.

Hoje fui às compras. Cheguei no supermercado e dei de cara com o livro. Abri numa página qualquer e quase caí para trás com um texto dedicado à Cora Coralina! Lá, junto com rainhas, cientistas e pioneiras da aviação. Ela é apresentada como poeta e quituteira. As autoras contam a história da menina, que queria escrever poesia e acabou publicando o primeiro livro aos setenta e cinco anos de idade.

Ilustração do livro: Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes

Com um brinde às coincidências felizes (‘serendipity’, uma das minhas palavras favoritas em inglês), quero encerrar  este texto de fim-de-ano com as palavras de Cora Coralina:

“Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.”

Que seu inventário de 2018 seja doce, perfumado e feliz. Saúde!

 

10 comentários em “Inventário

  1. Eduarda, adoro ler os teus escritos, sobre qualquer coisa. Por mais alheio que nos pareça ser, você da vida, desperta o interesse e coloca uma pitadinha de ironia, conseguindo assim nos dar um banquete literário com sabor da ocasião. Que seja um Natal abençoado e que venha 2018 com tudo que já está previsto em excesso, porem com a dose certa de realidade.

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