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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Temer sem dever

De hora em hora, uma multidão de turistas se acotovela, para ver um relógio de 600 anos bater as horas. O relógio astronômico fica no miolo do centro histórico de Praga, no prédio da antiga prefeitura. É uma obra formidável de mecânica: além de mostrar as horas, indica os movimentos do sol e da lua e os meses do ano.

Conta a lenda, que assim que o relógio ficou pronto, o relojoeiro foi cegado, para que nunca mais fizesse outro igual. Há controvérsias. A história pode não ter sido bem assim. Se é verdadeira ou não, o que importa no momento é que essa alegoria é excelente para ilustrar o universal senso de injustiça. Afinal, o pagamento por um trabalho excepcional foi a traição, a ingratidão e acima de tudo a tortura. Dá até vontade de gritar, diante de tamanha maldade.

Adiante o relógio do final da Idade Média até o começo do século vinte. Não muito distante da principal atração turística de Praga, nasceu o escritor Franz Kafka. Em seu livro ‘O processo’, Kafka conta a história de Josef K, que, de uma hora para outra, é processado por um crime, que nem ele sabe qual é. O livro é claustrofóbico, absurdo. A história se passa num mundo que é a antítese da utopia. Quando o personagem se diz inocente, ele é perguntado: inocente de quê? Não existe sequer a possibilidade de defesa, porque ele desconhece o crime que cometeu. Dá vontade de gritar, diante de tanta injustiça.

Depois de treze anos vivendo na mesma casa, mudei de endereço recentemente. A novela de se comprar um imóvel nesta Ilha tem muitos capítulos. Assim que o imóvel é anunciado na internet e o material gráfico fica pronto, começam as visitas. O dono da casa entrega as chaves para o corretor, que mostra a propriedade para clientes em potencial. A casa precisa estar um brinco. Dá-lhe faxina, dá-lhe esconder as tralhas nos armários e no sótão. Graças ao famoso Brexit, o mercado, justo na minha vez, começou a se mover no passo lesma. Pelas minhas contas, mais de cem pessoas, que nunca vi na vida, ‘passearam’ pela intimidade da minha casa, enquanto eu matava tempo num parque.

Quando finalmente um comprador fez uma proposta de compra, nos sentimos ainda mais pressionados a encontrar uma casa nova. Achamos uma no bairro que queríamos e nossa proposta de compra foi aceita. Começava então uma ‘chain’, corrente em português. Compra e venda de imóveis neste país se dá através de um advogado, que só lida com isso. É esse advogado que checa se está tudo em ordem com o imóvel (legalmente) e faz a ponte entre vendedor e comprador.

Nossa corrente calhou de ser enorme. Dez elos. Dez compradores, que tinham que deixar toda a documentação em dia, acertar com os bancos os empréstimos habitacionais, fazer vistorias dos imóveis, e, em alguns casos, renegociar a oferta de compra.

Depois que todo mundo está com os papéis prontinhos, os compradores depositam 10% do valor do imóvel, na conta do advogado. Até este momento, o que valia era a palavra, qualquer elo da corrente poderia mudar de ideia, sem nem sequer ter que pedir desculpas. Depois do depósito, quem pular fora, perde os 10%.

Depósitos pagos, cada elo da corrente precisa estar de acordo com a data da ‘finalização’ da compra, que acontece no dia da mudança. No meu caso, dez famílias teriam que concordar em mudar de casa no mesmo dia, como é de praxe. O caminhão de mudança chega de manhã, esvazia a casa e, depois do almoço, quando o dinheiro, que faltava para pagar o imóvel entra nas contas dos advogados, a chave do imóvel é liberada. Onze meses depois do primeiro episódio, finalmente pudemos abrir a porta da frente de nossa casa nova.

Tivemos sorte, o processo, embora demorado, correu sem muitos dramas. Mesmo assim é estressante, muito dinheiro envolvido, muitas variáveis, muita coisa que podia dar errado. A companhia de telefone e internet, claro, pisou na bola. Perdemos nosso número de telefone, por incompetência deles e passamos duas semanas sem internet. Antes mesmo de nos mudarmos, comecei a atualizar meu endereço novo, no banco, médico…. Os correios daqui têm um serviço, pago, que redireciona toda correspondência do endereço antigo para o novo. Assim que a internet foi conectada, tratei de atualizar meus dados em outros lugares, como a carteira de motorista, por exemplo.

Duas semanas depois da mudança, o contrato do celular da minha filha expirou, e ela queria um telefone novo. Fomos até a loja, ela passou a conversa na mamãe aqui, e concordamos com o modelo e o plano que ela teria. Tudo corria muito bem, até que o rapaz da loja preencheu os formulários e apareceu um problema. Meu crédito foi negado.

Confesso que não entendi de cara. Como assim? Tenho a mesma conta e cartão de crédito há quinze anos. Nunca usei o cheque especial, pago o cartão no débito automático, nunca foi parcelado, nunca atrasou. Há um ano, quando assinei o contrato do celular da minha filha, estava tudo ok. Minha situação não mudou. Enquanto eu argumentava, uma vendedora, que escutou a minha conversa foi extremamente desagradável e me tratou como se eu estivesse querendo dar um golpe, ou qualquer coisa do gênero.

No dia seguinte, recebi um e-mail da empresa de telefonia, dizendo, que não poderia autorizar o contrato, porque eu não tinha crédito. Dizia que eu poderia, se pagasse uma taxa, receber da companhia, que investiga a lista negra de consumidores, as razões pelas quais eu tinha levado um chute no traseiro. Paguei as £20 libras e recebi um documento dizendo que eles não haviam conseguido ligar minha história financeira, com o endereço (novo) que eu havia fornecido. E, a cereja do bolo, eu teria que mandar os 3 últimos ‘council tax’ (o IPTU deles), 3 contas de luz e 3 extratos bancários com meu endereço atual, para que meu nome fosse limpo! Não havia um número de telefone, que eu pudesse ligar, uma pessoa com quem pudesse falar. Apenas um formulário eletrônico, que não dava a oportunidade de dizer que não poderia mandar os documentos pedidos, porque eles não existiam. EU TINHA ACABADO DE ME MUDAR!

Fui procurar um órgão do governo, que aconselha os cidadãos em diversos assuntos. Recomendaram que eu abrisse um processo, para provar que não tenho nome sujo na praça. Ou seja, ao invés deles terem que provar que sou culpada, eu terei que gastar tempo e dinheiro para provar que sou inocente! Dá-lhe Kafka. Dá vontade de gritar com tamanha injustiça.

Contar esse caso aqui até que tem lá seu valor terapêutico de desopilar o fígado. Mas, o fato é que, talvez por ter sido vítima de uma injustiça, tenho pensado muito nas situações absurdas, que leio todos os dias. Aqui, aí, no mundo todo. Escuto muita gente gritando alto, exigindo cabeças e demandando: às favas com a lei, às favas com a Justiça. Nada funciona mesmo. Pedem a pena de morte, sem parar para pensar, quem é que pode pôr a mão no coração e dizer sem piscar, que a Justiça nunca falha, que é sempre justa para todos? Frustrados, pedem o fim da democracia pela força, querem fronteiras fechadas, ‘porque alguma coisa tem que ser feita’. Afinal, em alguns casos, os fins justificam sim os meios. Certo?

O fato é que a realidade, os desmandos e o senso de incapacidade andam sugando a nossa energia e embaçando nossa capacidade de enxergar um pouquinho adiante. Encontrei, pesquisando para este post, um artigo bem interessante do New York Times, sobre o Kafka. O escritor mais ilustre da República Tcheca era um ilustre desconhecido de seus conterrâneos, até outro dia. Ele morreu em 1924. Durante a Segunda Guerra, o país foi ocupado pelos alemães. Kafka era um judeu de origem alemã, seus livros foram banidos. Mais tarde, Kafka também não era bem visto pelos comunistas, porque sua obra meio que previu a tirania que estava por vir. Foi só depois da Revolução de Veludo em 1989, quando o país passou a ser invadido por turistas ocidentais, que os tchecos redescobriram seu autor mais famoso. A diretora de um museu, dedicado ao autor, contou ao repórter do New York Times, que certa vez um tcheco perguntou se Kafka era americano, porque ele só via turistas americanos usando camisetas estampadas com a imagem do autor.

Ninguém precisa ler Kafka, ou mesmo precisa saber ler, para entender a dor e a frustração que é ser vítima de uma injustiça. Dói na carne. As injustiças estão por toda parte, elas chegam sem convite. Por isso, um sistema de Justiça para todos (culpados e inocentes) mesmo com todas suas limitações, ainda é muito melhor do que a ausência dele. Uma democracia, ainda que capenga, é muito melhor do que a alternativa. O discurso dos sedentos de sangue, no fundo tem um quê de ingenuidade. Afinal, acredita piamente na máxima de que, ‘quem não deve, não teme’. Como se a injustiça desse bola para a Justiça.

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