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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Love não é cove

Aos sete anos, caí de amores por um coleguinha de escola. Escrevi o poema épico ‘Love não é Cove’. Na obra, de apenas seis versinhos, havia tantos erros de ortografia, quanto a bíblia segundo o disléxico. Tomei coragem e entreguei meu coração para o menino. Até hoje desconfio que ele devia ser parente do Aurélio (o do dicionário) porque, assim sem dó nem piedade, ele falou rasgado: ‘Burra, cove não existe. É couve! ’ Com o ego, e a rima, em frangalhos, o coração humilhado pela vergonha, deixei minhas pretensões românticas na geladeira, até que elas acordassem em festa na adolescência.

Aos treze anos, as aspirações românticas de Lilibeth estavam bailando. Foi quando ela conheceu o primo Philip. Alto, atlético, louro, bonitão, olhos azuis penetrantes e, como se não bastasse, um príncipe de verdade. O tipo de sujeito com um CV imbatível, capaz de matar qualquer mortal de inveja. Provavelmente ele não prestou muita atenção na pirralha e sua irmã. Era tarefa de Philip tomar conta das duas e mantê-las ocupadas durante um evento real. O ano, 1934.

Elizabeth e Philip são primos de terceiro grau. Os dois vêm da linhagem da Rainha Victoria, que teve um batalhão de filhos (nove!), espalhando seu sangue azul pelo continente europeu. Entre 34 e 39, Elizabeth se tornou uma jovem mulher e Philip começou a reparar nela.

1939 é importante para essa história. Aliás, é importante para a História. Ponto. Poucos anos depois do fim-de-semana, que iria despertar o coração de Lilibeth, estourou a Segunda Guerra Mundial. Philip Mountbatten era um tenente da Marinha Real. Ele foi despachado para o Mediterrâneo. A família real tomou a decisão corajosa de não bater em retirada durante os bombardeios alemães. Uma cartada, que caiu bem entre os súditos do rei George VI, pai de Elizabeth.

Em 1945, Philip voltou para casa, e os braços de Elizabeth, inteirinho. Os dois estavam afins de engatar o noivado real, mas deu chucrute na história. Existia um enorme porém pairando no céu londrino: Philip havia nascido na Grécia, de uma família alemã. Eles ainda não viviam na era midiática, mas o público, através de cartas publicadas por um jornal da época, expressou seu descontentamento com o namoro. As primeiras cartas de pais e mães indignados diziam coisas do tipo: meu filho não morreu na guerra, para a herdeira do trono real ficar de namoricos com um alemão. Será que ela não consegue arranjar um britânico tão legítimo quanto o chá das cinco?

Os anos pós-guerra foram interessantes. De um lado, muito sentimento ruim de dor, vingança e perda. De outro, a vontade enorme de seguir em frente, tentar ser feliz e viver o dia. No fim dos anos 40 aqui na Ilha, houve uma disparada no número de casamentos, principalmente de pessoas muito jovens. Talvez esse cansaço com a guerra e a destruição tenham feito a opinião pública mudar gradativamente em favor da união entre Elizabeth e Philip. O amor estava no ar.

Em 20 de novembro de 1947, os dois finalmente se casaram. O anel de noivado, uma bitelona de um diamante cercada por outros brilhantes, era considerado modesto para uma princesa destinada a se tornar rainha do Império Britânico. Entretanto, era o pós-guerra e os súditos reais batalhavam para pôr comida na mesa e roupa no corpo com os cupons de racionamento. Ostentação iria cair muito mal. A celebração do casamento deveria ser sóbria e sem a presença das duas irmãs de Philip. Elas eram casadas com aristocratas alemães (nazistas) não foram convidadas para o enlace. Melhor não testar a paciência do povo.

A festa foi sóbria, para o padrão da realeza, é bom dizer. A bordo de uma carruagem real de conto de fadas, Elizabeth e Philip deixaram a imponente Westminster Abbey para saudar a multidão, que os esperava pelas ruas da capital. Os dois estavam apaixonados e o público podia ver. Um toque de cor e fantasia num mundo cinza arrasado pela guerra.

 

 

Casamento conto de fadas

 

 

Um ano depois, nasceu Charles, o príncipe. Depois veio a princesa Anne. Os dois nasceram numa época em que esse país vivia um Baby Boom, uma explosão de nascimentos pós-guerra. A família de Elizabeth e Philip crescia, como tantas outras neste reino. Os dois eram considerados pais modernos. Pais e mães da aristocracia britânica mal viam os filhos. Existia uma máxima neste canto do mundo, que valeu por muitos anos: as crianças devem ser vistas e não ouvidas. Ou seja, criança calada é criança educada. Ao que consta, Elizabeth e Philip queriam mudar um pouco os hábitos antigos. Duvido que eles tenham trocado fraldas, mas os dois brincavam com os filhos e liam histórias para eles.

Lua-de-mel durou pouco

O período de lua-de-mel do jovem casal durou pouco. A saúde do Rei George VI não era das melhores e Elizabeth foi obrigada a assumir mais compromissos da realeza. Em1952, ela largou os filhotes em casa e partiu com o marido para um tour de seis meses pelas colônias britânicas. Quando estavam no Quênia, foram surpreendidos pela notícia da morte do Rei George VI. Elizabeth se tornaria rainha e Philip seu Príncipe Consorte. Nuvens negras no leito real, imagino.

Na cerimônia de coroação de Elizabeth II, um momento merece destaque. Foi quando Philip se ajoelhou diante dela, assentada no trono real, e jurou lealdade. A partir dali ele andaria sempre um passo atrás da esposa nas aparições públicas. Seus filhos sequer teriam seu sobrenome. Engole o ego e segue. Foi mais ou menos o que disseram para ele, o príncipe declarou numa entrevista muitos anos mais tarde. Para quem tem Netflix, a série The Crown (a coroa) conta bem como foram os primeiros anos de casados de Elizabeth e Philip.

Todo casal sabe que, para uma relação ter chance de amadurecer, é preciso que se faça concessões. Muitas delas. Suponho que os dois tenham feito milhares de concessões . Philip dá muitos foras, cria situações embaraçosas aqui e ali. Perde a chance de ficar calado. Ela é muito mais discreta e diplomática. Não é o caso de fazer a linha pobre realeza que tanto sofre, mas também é óbvio que os dois sofreram um tipo de pressão que a maioria de nós jamais irá experimentar.

Com castelos ou sem castelos, a vida familiar da Rainha e seu Príncipe teve lá seus altos e baixos, como em qualquer outra família. Além de Charles e Anne, eles ainda tiveram mais dois filhos Andrew e Edward. Os rebentos não puxaram aos pais no quesito felicidade conjugal. Os casamentos de três dos quatro filhos fracassaram monumentalmente para o mundo ver e fofocar. A lavação pública de roupa suja de Charles e Diana doeu na rainha. A separação dos dois em 1992 fez a Rainha declarar, num discurso para marcar os 40 anos de sua ascensão ao trono, que aquele ano havia sido um “Annus Horribilis” (um ano terrível), que ela não se lembraria com prazer. 1992 foi um ano marcado por um número recorde de pedidos de divórcio aqui na Ilha.

Em 1997, o casal real comemorou bodas de ouro. A Rainha, que não é chegada em demonstrações públicas de sua privacidade, disse num discurso que o Príncipe Philip não gosta de elogios, mas ela queria dizer que ele era a força e estabilidade, que mantinha não só ela, como sua família e seu Reino. Acrescentou que todos tinham uma enorme dívida de gratidão por ele. Uma dívida que ele jamais iria cobrar e que a maioria das pessoas sequer sabia que existia.

Em outra ocasião, também para marcar os 50 anos de casados, Philip afirmou saber que cada casamento é único. Na opinião dele, o principal ingrediente para uma união feliz é a tolerância. A tolerância, quando tudo vai bem, não faz muita diferença. Mas, quando as coisas se tornam difíceis, ela é vital. E acrescentou: a Rainha tem tolerância em abundância.

Não deve ter faltado tolerância no Palácio de Buckingham: a Rainha e seu Príncipe consorte comemoram neste mês suas bodas de platina. 70 anos!

70 anos juntos

Meu poema não sobreviveu a um ímpeto crítico e destrutivo na adolescência, que queimou na churrasqueira cadernos e papéis com escritos de anos. Até que eu gostaria de reler meu poeminha de amor. Não consigo me lembrar dos versos, mas imagino que o sentido era de que o amor não é uma coisa banal. A união selada em Westminster Abbey, em 1947, ajudou a fortalecer a imagem da monarquia, sobreviveu em parte porque os dois compartilham os mesmos valores e são comprometidos com a mesma causa. O casal aprendeu a usar uma máscara em público para se proteger. Nem sempre é fácil ler os sinais. Mas desconfio que o que os mantêm juntos e vivos até hoje seja o amor. Afinal, love não é cove.

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