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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

Não se esqueçam do cogumelo atômico

“ Se todos os insetos desaparecerem do planeta de uma vez só, em cinquenta anos a humanidade será destruída. Se os humanos desaparecerem da Terra, em cinquenta anos todas as outras formas de vida florescerão”.

Bomba Nuclear

A frase é atribuída ao cientista Jonas Salk, que desenvolveu a primeira vacina eficaz contra a pólio. Esta é uma ideia poderosa, que nos faz pensar em como somos destrutivos. Circularam na internet, reportagens que mostram a vida selvagem retornando com a corda toda nas zonas de exclusão do acidente nuclear de Chernobyl (1986), no que hoje é a Ucrânia.

Infelizmente, existe uma terceira possibilidade, que a hipótese de Salk não contemplou: a de que tanto insetos quanto humanos possam ser destruídos, juntamente com todas as outras formas de vida. O pior é que nem podemos pôr a culpa num asteroide fora de curso ou na ira de um Deus vingativo. A culpa é nossa mesmo. Graças à nossa raça, isso é possível. A mesma curiosidade científica, que cura e que previne doenças como a poliomielite, desenvolveu uma tecnologia capaz de transformar o planeta azul numa terra apocalíptica.

Aqui na Ilha, governo e cientistas se empenhavam para desenvolver a bomba atômica, mas os britânicos não estavam exatamente com dinheiro sobrando no meio da Segunda Guerra. Em 1942, os americanos criaram o Manhattan Project, na corrida para bater os alemães e desenvolver a arma de destruição em massa. No ano seguinte, Roosevelt e Chruchill assinaram o acordo de Quebec – um empreendimento de duas nações de espírito bélico, com a participação do Canadá, para tocar o projeto que iniciaria um novo ciclo da nossa permanência neste planeta: a era atômica.

Quase no fim da Segunda Guerra, os americanos lançaram as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão. Cientistas do Projeto Manhattan celebraram. O esforço de suas inteligências havia dado resultado. Demorou um tiquinho, mas a ficha caiu para alguns deles. Cerca de duzentas mil pessoas perderam a vida em apenas dois ataques. Oppenheimer, o cientista que liderou o Projeto Manhattan, teria pensado em voz alta: “ me pergunto se os sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki irão invejar os mortos”- tamanho foi o estrago produzido. Essa história contada num texto que a educadora Jennifer Allen Simons, uma canadense empenhada na campanha pelo desarmamento nuclear, escreveu para uma conferência em Praga.

Ela narra o drama moral de outro cientista envolvido no projeto, o professor Sir Josef Rotblat, um judeu polonês com cidadania britânica. Quando os alemães invadiram a Polônia, Rotblat estava trabalhando aqui na Ilha. Durante anos ele tentou, mas não conseguiu, tirar a esposa de seu país. Ela acabou morrendo num campo de concentração. Em 1944, ficou claro que os alemães não estavam nem perto de fabricar a bomba atômica e tinham desistido do projeto. Rotblat abandonou o Projeto Manhattan, ao saber que a intenção era fabricar a bomba, que seria detonada no Japão e,de quebra, funcionaria como uma demonstração de poder para os soviéticos. Ele foi acusado de ser um espião russo e comunista. Durante anos foi proibido de voltar aos Estados Unidos. De volta à Inglaterra, desenvolveu projetos nucleares com aplicação na medicina. Rotblat morreu em 2005, aos 96 anos de idade. Foi o único cientista a abandonar o Projeto Manhattan por questões de consciência.

Papoulas para relembrar os mortos

Uma questão de consciência também incomodava “Tim” (mudei o nome), um padre da igreja Anglicana, na semana do ‘Dia de Relembrar’ do ano passado.   Todo ano, no dia 11 de novembro, às onze horas da manhã este país faz um minuto em silêncio por aqueles que morreram na guerra – dia 11 de novembro é conhecido como o dia do Armistício, marca o fim simbólico da Primeira Guerra Mundial em 1918. Às 11 da manhã deste dia, os aliados e a Alemanha assinaram um documento na França para acabar com a guerra. Aqui na Ilha, é também o dia da Relembrança e dos veteranos de guerra.

Crianças de várias escolas, escoteiros e bandeirantes participavam de uma cerimônia local. Elas deixaram coroas de papoulas aos pés de um memorial e depois foram convidadas a assistir a uma missa.

Era uma manhã fria, mas ensolarada. A igreja estava lotada. Preferi esperar do lado de fora, assentada num banco de praça no cemitério centenário ao redor da igreja. A mulher do padre também não tinha entrado. Ela tomava conta da filhinha do casal. Nos conhecíamos de vista, temos uma amiga em comum.

Esther (nome fictício) é uma mulher interessante, fala pouco, observa bastante. Naquele dia, estava pra conversa. Ouvimos a congregação cantar ‘God save the Queen’. Ela falou, sem tirar os olhos da filha, que ameaçava escalar a placa de um dos túmulos, que era a terceira vez que ouvia o hino naquela manhã. Depois contou que “Tim” estava tenso com a história do sermão do dia. “Ele é um pacifista. Tem que tomar cuidado. Há muitas famílias de militares nesta área”.Fiquei contente que ela não tivesse feito um comentário inofensivo a respeito do tempo. Parecia que iríamos ter de fato uma conversa.  Não sei se porque ela já tem um pé na igreja, mas acabei fazendo uma confissão: disse que também tinha minhas dúvidas sobre o ‘Dia de Relembrar’. Que o culto à guerra me incomodava, mas que de certa forma eu era fascinada pelo fato de que eles preservam o passado e celebram sua identidade. Ela respondeu com um lacônico “humm, interessante”, antes de correr para tirar a filha de cima da estátua de um anjo rechonchudo. Nossa conversa estava encerrada.

George Wald, um cientista que ganhou o Nobel de medicina por seu trabalho sobre a pigmentação da retina, também era um pacifista e opositor da corrida armamentista. Para ele, o único uso de uma bomba atômica é evitar que o outro use a bomba contra você. Mais de duas mil bombas atômicas já foram detonadas em nosso planeta em vários testes. Cada uma delas tem um enorme custo ambiental. Atualmente, Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia, China, Índia, Paquistão e Coréia do Norte têm bombas atômicas em seus arsenais. Um jogo muito arriscado. 

Um ano depois do encontro com a mulher do padre, a conversa que tivemos, rodeadas pelos mortos, ganha outro sentido para mim. Na semana do 11/11, os britânicos, que tanto gostam de relembrar seus heróis e mártires, talvez devessem incluir nesta lista o horror gerado pelas bombas, que ajudaram a criar e a detonar. O momento não poderia ser mais apropriado. O fantasma de uma catástrofe nuclear volta a assombrar, com as tensões entre a América de Trump e a Coréia do Norte de Pyongyang subindo mais do que termômetro no deserto. Esta é uma lição que não deveria ser esquecida.

Repetir, repetir, repetir. Esta é uma das armas mais poderosas da educação. Os britânicos e com suas tradições sabem muito bem disso. O problema é a tal memória seletiva…

4 comentários em “Não se esqueçam do cogumelo atômico

    1. Obrigada, Ivan, pelo comentário. Dia 11 de novembro é conhecido como o dia do Armistício, marca o fim simbólico da Primeira Guerra Mundial em 1918. Às 11 da manhã deste dia, os aliados e a Alemanha assinaram um documento na França para acabar com a guerra. Aqui na Ilha, é também o dia da lembrança e dos veteranos de guerra.

  1. Bom texto! Mas eu duvido que a vida seja destruída. Um animal chamado tardígrado resiste a altíssima radiação alem de existirem seres que tiram energia até de reações químicas com minérios e rochas debaixo da terra.

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