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Duda Lafetá é jornalista. Vive na Inglaterra há quinze anos e fica brava quando falam que ela trocou o Brasil pela terra da Rainha. Ela sempre diz que não substituiu um país pelo outro. Acrescentou mais um. Neste blog, ela conta de tudo um pouco sobre o que acontece na Ilha, que muita gente prefere chamar de Reino Unido.

O efeito dominó do assédio sexual

O caso começou com um grupo de Whatsapp. Mentira, começou antes, do outro lado do Atlântico, mas, apenas para simplificar, vamos dizer que a conversa de um grupo de mulheres foi o peteleco inicial, que derrubou o primeiro dominó por aqui. Elas trocavam informações sobre os abusos sexuais no Parlamento Britânico.

A história da humanidade está cheia de exemplos de revoluções, que foram inspiradas por outras revoluções, assim efeito em cascata. O mais novo escândalo desta Ilha prova a teoria acima. O rebuliço causado pelo caso do ex-todo-poderoso de Hollywood, Harvey Weinstein, levantou a tampa de uma lata cheia de vermes. Cheirou mal.

O primeiro dominó tombado chama-se Jared O’Mara, um político jovem do partido Trabalhista em seu primeiro mandato como Membro do Parlamento Britânico. Ele sofreu paralisia cerebral e fez a carreira defendendo o direito dos deficientes físicos. No Parlamento, era membro de uma Comissão para combater a desigualdade entre homens e mulheres. Em público, fazia a linha bom mocinho, que sabe o que é sofrer, por isso, é cheio de compaixão pelo próximo. Mas… esse bolo tem várias camadas.

Jared O’Mara

Jared O’Mara, apesar de seus trinta e cinco anos, tem uma longa história na internet. Vieram à tona comentários misóginos e homofóbicos, umas feiuras, que Jared postou em 2009. Ele se defendeu, “isso é coisa do passado, sou um novo homem”. O que ele entende por passado é o ponto. Num passado, nem tão remoto assim, mais precisamente no começo do ano, ele marcou um encontro com uma mulher, que conheceu através de um aplicativo. Não deu certo. Pouco depois, ele viu a mesma mulher numa boate com amigos e partiu para o ataque: na frente de todo mundo, a chamou de escória, de cadela horrorosa e outros adjetivos impublicáveis.

Jared foi defenestrado da comissão em que trabalhava e suspenso por seu partido. No Parlamento, aliás, em muitos locais de trabalho neste país, a corrida agora é para descobrir como apagar o passado, que deixa rastros na internet.

Mark Ganier (Conservador), o Ministro para Comércio Exterior, é outra pecinha do dominó político, que está perigando. Ele teria chamado sua secretária particular de ‘Sugar Tit’ (alguma coisa como teta de açúcar, em português) e pedido que ela comprasse um brinquedinho erótico para ele, enquanto ele esperava do lado de fora da loja. Garnier confirmou que pediu que a secretária comprasse o regalo e que ‘sugar tit’ era só uma brincadeira, de um seriado de tevê.

Quando perguntaram à primeira-ministra Teresa May, se ela tinha confiança na inocência de seu ministro, ela respondeu que não dá carta branca para ninguém, um inquérito irá decidir o futuro de Mark Garnier.

Enquanto isso, uma peça-gigante da instalação dos dominós caiu ruidosamente. Michael Fallon, o Ministro da Defesa teve seu assento ejetado. Virou ‘Michael Fallen’ (caído, em português). Ser Ministro da Defesa neste país é um grande feito. Desde o século 20, não passou um ano sequer em que o reino de Elizabeth não estivesse envolvido em uma guerra aqui ou ali. O fato é que Michael Fallon não conseguiu se defender da acusação de ser dono de uma mão boba.

Num jantar, há quinze anos, o ex-ministro da defesa descansou sua mão sobre o joelho da jornalista Julia Hartley-Brewer. Na ocasião, ela retirou a mão de Fallon de seu joelho e o caso ficou por isso mesmo. Só que não. A história veio à tona agora, apesar de a jornalista ter dito que não ficou ofendida. Em sua carta de resignação, Fallon afirmou que, o que era aceitável, 10, 15 anos atrás, obviamente não é correto hoje em dia. “Eu aceito que no passado caí abaixo dos altos padrões que exigimos das Forças Armadas que tenho a honra de representar”.

Quem já teve a oportunidade de acompanhar uma sessão do Parlamento Britânico sabe como é o teatro político. Um lado fala, seus oponentes vaiam, enquanto os colegas de partido aplaudem. Parece uma patomina. São raras as ocasiões em que todos os lados balançam a cabeça, como quem concorda. Foi assim logo após a morte da parlamentar Jo Cox e também durante o escândalo das despesas dos parlamentares. Político que é político sabe que há momentos em que a briga de rinha pega muito mal. Este é um destes momentos. Estão todos unidos para condenar a cultura de assédio sexual e moral, turbinado pelo abuso de poder. Pelo menos, esse é o show do momento.

Atualmente, mais de 40 parlamentares estão sendo investigados por suas condutas sexuais. Os casos no Parlamento vão de uma ativista, que afirma que foi estuprada numa festa do partido Trabalhista por um colega (e aconselhada a deixar por isso mesmo), até o uso de linguagem, que não condiz com o momento atual. Ninguém é tão ingênuo, ou dissimulado, de acreditar que os abusos sexuais e morais ocorram apenas no Parlamento Britânico. Afinal, como disse o ex-ministra Maria Miller: “dois terços das meninas na escola, metade de todas as mulheres estudantes do ensino superior e mais de metade de todas as mulheres empregadas na força de trabalho foram assediadas em algum momento. É crucial não fingir que o parlamento é único. O assédio e o assédio moral podem de fato ser pior em outras culturas no local de trabalho, incluindo a mídia. Mas o parlamento é o único a ser a instituição suprema da nossa democracia. Goste ou não, os parlamentares devem definir os mais altos padrões. Já passou da hora de termos um sistema, que acabe com a conformidade com esses padrões atrasados”.

É difícil saber quantos dominós existem e quantos vão tombar. O assunto é a batata quente do momento. Virão outros e as atenções vão se desviar do assédio sexual. Terrorismo, Brexit, a lista é enorme. Entretanto, existe a esperança de que o exemplo venha de cima e que o assédio sexual se torne cada vez mais demodê. Fallon e O’Mara que o digam.

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